quinta-feira, 26 de junho de 2014

Chocalhos...

 
 
O senhor Penetra mantém a forja e um pequeno museu de iniciativa e teimosia pessoal.
Descendente de várias gerações de homens que faziam chocalhos, guizos e cascavéis, gente que trabalhava desde antes da madrugada e com calores só suportáveis por quem desde pequenino cumpria o árduo trabalho de assinalar o gado dos outros. Havia chocalhos para vacas, outros para ovelhas, chocalhos para o gado que pastava nas herdades sem cercas, chocalhos para o gado que se deslocava para outras pastagens mais frescas.
Alcáçovas era local de passagem para os longos caminhos da transumância, desses pastores que se deslocavam incessantemente das montanhas para as planícies, acompanhados por esses cães a que só lhes faltava falar, habituados a ordens, com vozes, assobios e apitos, que só uma cultura inteligente e secular pode produzir. Os últimos homens da transumância eram conhecidos por gente de "mal andar", porque o seu gado ia comendo por onde passava, mudando constantemente de lugar, mal sabendo os novos donos das propriedades, que antes de haver esta propriedade privada exclusiva, já existiam pastores com direitos de passagem desde há milénios.
O chocalho não é apenas um objecto construído com suor; é também um símbolo de gente que desconhecia ou derrubava fronteiras.
 
Texto copiado do blog do nosso comadre João Simas, http://ruadealconxel.blogspot.pt/