segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os refugiados de Barrancos


Inauguração do Monumento a todos aqueles que  tornaram possível salvar milhares de
cidadãos espanhóis que, de agosto a outubro de 1936, se tinham refugiado em
Barrancos, fugindo duma terrível guerra que ainda estava no início!

Pela sua importância histórica permito-me, sem autorização do seu autor, publicar parte da excelente reportagem publicada Jornal "Público", da autoria de Carlos Pessoa:

"Centenas de refugiados escaparam de uma morte certa em 1936 ao fugirem para Barrancos. Um documentário e um livro contam aos espanhóis que essa história com final feliz foi obra de um oficial da Guarda Fiscal: tenente António Seixas.

Ten GF António Seixas
O interesse dos espanhóis pela história recente do país, aparentemente inesgotável, não se limita ao que ocorreu desde os anos 1930 no seu próprio território. Uma prova disso é Los Refugiados de Barrancos, um documentário sobre os acontecimentos naquela vila no Verão de 1936.
O golpe militar desencadeado a 18 de Julho desse ano pôs a ferro e fogo toda a região que vai de Huelva a Badajoz. No começo de Setembro, as últimas localidades situadas junto à fronteira portuguesa são conquistadas pelas tropas de Franco. O apoio de Salazar aos nacionalistas não aconselhava a fuga para Portugal, onde os refugiados eram detidos e entregues às tropas franquistas.
Apesar disso, perseguidos pelos nacionalistas e impedidos de atingirem a zona republicana no Leste da Extremadura, muitos tentaram a sua sorte em Portugal. Foi o caso de mais de mil pessoas de todas as idades que conseguiram atravessar o rio Ardila, fronteira natural entre os dois países, perto de Barrancos. Ali se mantiveram até ao começo de Outubro, em dois campos improvisados nas herdades da Coitadinha e das Russianas.
Graças ao tenente da Guarda Fiscal António Seixas, responsável pela vigilância fronteiriça numa zona de 120 quilómetros entre Mourão e Vila Verde de Ficalho, não foram recambiados para Espanha. O oficial e os seus homens também impediram as investidas dos nacionalistas que, por mais de uma vez, esboçaram a intenção de entrar em Portugal e eliminá-los. Os ecos internacionais do que acontecera em Badajoz a 14 de Agosto - o massacre de centenas de pessoas no assalto e nos dias que se seguiram pelas tropas coloniais do tenente-coronel Yagüe, testemunhado por alguns jornalistas, entre os quais Mário Neves (Diário de Lisboa) - forçaram o Governo português a promover a repatriação dos refugiados para o lado republicano.
Nos primeiros dias de Outubro 1025 pessoas fizeram a viagem de camião de entre Barrancos e Moura. Foram metidas num comboio especial que as levou até Lisboa, onde embarcaram no navio Niassa. A chegada a Tarragona foi a 13 de Outubro. Terminada a operação de salvamento, o tenente Seixas foi alvo de um processo disciplinar que se traduziu em dois meses de prisão e passagem compulsiva à reforma. O oficial recorreu da sentença e ganhou o processo. Foi reintegrado em 1938, como comandante da secção de Sines da Guarda Fiscal, passou à reserva no ano seguinte, iniciando uma nova fase da sua vida como armador. Morreu em Lisboa a 28 de Outubro de 1958.

Texto e fotos copiados do blog: http://estadodebarrancos.blogspot.pt/