sábado, 18 de outubro de 2014

Fotografia Noturna (By Gonçalo Lemos)

 Noudar
Durante este verão, voltei a uma zona que, continuo a dizer, possui dos céus mais escuros no nosso País: a zona de Barrancos na margem esquerda do Guadiana. Fiquei alguns dias no Parque de Natureza de Noudar, onde o céu é fantástico e onde a Via Láctea domina o céu nocturno. Estou habituado a identificar todas as constelações no céu mas com tanta estrela tornava-se difícil distinguir até as mais comuns. Desloquei-me até ao Castelo de Noudar para o usar como 1º plano enquanto fotografava a Via Láctea. A iluminação foi feita com vários flashes. Esta é uma imagem panorâmica obtida a partir de 7 imagens verticais.
O céu de Barrancos faz parte da reserva Dark Sky Alqueva desde Dezembro de 2011 e possui dos céus mais escuros que já vi em Portugal. Apenas como nota de rodapé, estive uns dias depois na Dark Sky Party em Monsaraz, onde o céu era absolutamente decepcionante. A poluição luminosa era tal que usando os mesmos parâmetros que usei em Barrancos, a imagem mostrava um laranja dominante, originado pelas lâmpadas de sódio de alta pressão da iluminação pública. Não basta ser reserva Dark Sky. É necessário igualmente preservar o céu e procurar maneiras de reduzir ao máximo a poluição luminosa. 
 Já por várias vezes aqui referi que a altura que mais gosto para fotografar a Lua é quando esta tem apenas dois dias de idade. Não é só por motivos fotográficos mas igualmente porque quando se aponta o telescópio, conseguem-se observar com muito mais nitidez todos os detalhes de crateras e outras características, principalmente na zona do terminador, a zona de transição entre a luz e a sombra.
Dá-me imenso prazer fazer rastos de estrelas mas um rasto de Lua oferece uma dificuldade ainda maior. Uma imagem deste tipo, demora algum tempo a planear. Desde a busca do local até à hora exacta, falamos de vários dias de planeamento. O local tem de ser calculado ao metro, porque mais um metro ao lado e a composição não resulta como queremos, invalidando toda a preparação feita. A escolha da lente, da abertura, do ISO e da distância focal precisam de ser feitas cuidadosamente para que nada falhe. Uso esta técnica à já alguns anos, 9 para ser mais preciso, e custou um pouco a desenvolver. Foram muitas tentativas, com muitos insucessos e alguns resultados satisfatórios. A fotografia em si, tem uma exposição de 55 minutos num único frame mas o tempo total de execução tem mais de 3 horas, desde a preparação, deslocação, montagem do equipamento e afinação dos parâmetros da máquina mas o mais curioso é que nada disto seria possível sem um simples chapéu!
 Quando me iniciei na fotografia de mamíferos nocturnos, tinha algumas ideias do que podia correr mal (geralmente, são as primeiras coisas em que se pensa!) mas ideias muito concretas sobre o que queria fazer: fotografar Gineta com grande angular e em especial a Gineta que eu ocasionalmente via nas minhas incurssões nocturnas pela Mata Nacional de Leiria. No total, passei quatro meses no mesmo local. Bem, não dormi lá mas deslocava-me todos os dias para ver, estudar, alimentar e fotografar um dos mamíferos mais discretos da fauna nocturna nacional. Durante esse tempo, identifiquei a hora de passagem  e qual o percurso que o animal fazia todas as noites, montei o equipamento e esperei a cerca de 70m com um sistema de visão nocturna para perceber se o animal entrava por onde queria. Durante essas esperas tive situações hilariantes e outras em que ao desmontar o equipamento, ficava perto de mim, a cerca de 3m a observar os meus movimentos.
As primeiras fotos são sempre uma grande emoção mas regra geral, são lixo. Havia que insistir e a práctica faz a perfeição. Consegui o que queria ao fim de um mês e embora o objectivo tivesse sido alcançado, queria ir um pouco mais além e saber o quão próximo me conseguia aproximar do animal. Agora o objectivo era um retrato com grande angular, a cerca de 20cm da Gineta. Fui na noite seguinte, fiz duas fotos e nunca mais lá voltei. Se calhar tive sorte!
Depois de vários dias no Alentejo onde o céu apenas se apresentava limpo e sem nuvens, o que até era bom para a fotografia nocturna, apareceram algumas nuvens a alegrar os céus alentejanos. Depois de estudar um acesso a um dos muitos braços de água criados pela barragem do Alqueva, desloquei-me antes do pôr-do-sol para tentar fazer algumas imagens de paisagem. No fim fui presenteado com um céu fantástico como não via há muito!
Barragem do Alqueva, Mourão

Copiado do blog do nosso compadre Gonçalo Lemos : http://goncalolemos.blogspot.pt/