domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Choça do Pastor (By Manuel Manços)

Estátua de Homenagem aos Pastores (Beja)
Foto: Dália Pinto Pinho
A CHOÇA 
A choça, erigida pelo pastor, era formada por duas placas de razoáveis dimensões que tinham, na sua constituição, ervas e caules macios de cereais secos, que por sua vez se mantinham unidas na parte superior, formando um enorme triângulo, com o vértice virado para cima, e alguns paus, com função de barrotes sustinham, e mantinham de igual modo as ervas bem unidas. Serviam tanto na parte exterior, como na parte interior do abrigo, de suporte para colocarem e pendurarem os mais variados apetrechos que o pastor utilizava no dia a dia. Enquanto na parte exterior se podiam ver, por exemplo, um machado, uma fouce entre outros objectos, no seu “interior” havia outros barrotes de sustentação, teria que os haver também, que costumavam ser utilizados na suspensão de outros objectos, como por exemplo, toalhas de rosto, um espelho para o Pastor poder recordar a sua imagem, quando lhe chegasse a nostalgia de outros tempos, e para cortar a barba; duas candeias alimentadas por azeite, que costumavam fazer despontar duas pequenas chamas, cada uma, que combatiam a negrura total das noites, e aliviam tréguas enquanto lhe emprestavam a pouca luminosidade que lhes seria permitido oferecer, mal se pusesse o sol, e em outros dias até mais cedo, quando o céu ficava carregado de nuvens e se impunha a presença das quatro pequenas e débeis chamas, nos ares daquelas “charrabumbas” que o sol apenas visitava a determinadas horas do dia, por andar arredado, em outros locais. Os tachos, as panelas e os talheres costumavam ser arrumados sobre o tampo duma pequena mesa de madeira, próxima doutra mesa maior, onde eram servidas as sopas, em pratos rústicos, de louça alentejana, do Redondo. Também lá se encontravam três “burros” feitos de madeira, que deviam a sua origem a duas pernadas, cortadas dum chaparro, para que o Pastor e as suas visitas se pudessem sentar.

Por falta dum aparelho de televisão, e duma telefonia, para entreter e quebrar a nostalgia que a passagem do tempo lhe causava, o Pastor, observava a fantástica magia que o nascer e o pôr do sol exerciam, ainda que não fosse a mesma coisa, nem surtisse o mesmo efeito, “o astro rei” quase que os substituiria, quando decidia “banhar a terra”, com os seus mortiços raios de lume, e caminhava, a “passo lento”, para fazer despedidas e a depois desaparecer, mansamente, por detrás dos altos cabeços que os rodeavam, como se levasse com ele muitas saudades, para outras paragens, de outros Países distantes, e materializar-se nas sombras das árvores, que se agigantavam em imagens fantasmagóricas, para que ele, o Pastor, pudesse escolher livremente, na sua imaginação, para o seu “teatro de rua” as personagens e os cenários que mais lhe aprouvesse.

Mais de metade do espaço ocupado por aquele “palácio” ambulante, era substituído por palha, que se amontoava no chão, em alta camada, com a finalidade de formar um colchão fofo, onde o Pastor “armava” a sua confortável cama, e normalmente cobria com cobertores, mantas e lençóis. Ali se deitava só, ou acompanhado, consoante tivesse, ou não, os seus familiares, como visitas, depois de ter vigiado e tratado da melhor forma que sabia, o seu rebanho, sob a luminosidade dum manto infinito de estrelas, e ouviria, com a nostalgia dum poeta, o piar das aves noctívagas, e os ruídos naturais que o campo emitia, logo depois do galo cantar.
Cautelosa, a lua, por vezes, também aparecia, para lhe fazer uma visita. Primeiro espreitava por detrás dos cabeços, para depois se abalançar, ganhar confiança e caminhar vaidosa, sem nada ter que temer, pelos outeiros abaixo, e descansar, apenas, na planície, a seus pés, enquanto atirava parte dos seus raios luminosos para o interior da choça, que se tornariam rivais das fagulhas que a fogueira emitia, sem controle. Estes, por sua vez, ofereciam-lhe uma claridade relativa, que era acompanhada por invulgar poalha prateada, onde se poderiam até distinguir os rostos das pessoas e dos animais, assim como os contornos de alguns objectos que se encontravam, expostos, no interior da singela cabana.

A maior parte das noites, quando, por qualquer razão não se podia deslocar à sua residência, era ali que ele se deitava, como um triste e desolado eremita, em companhia dos seus fieis amigos, os seus cães, e dos animais que constituíam o rebanho, de que ele reconhecia a sua individual fisionomia, se estava só, ou em companhia da sua esposa e dos seus filhos. Era ainda naquela cama que ele recuperava forças e até chegaria a conceber a vida, que se materializaria na fisionomia de um ou de dois dos seus descendentes.
Também, em algumas noites, carregadas de breu, que teriam a particularidade de rechear os ares e os campos por fortes tempestades, tocadas por aguaceiros e ventos ciclónicos, que fariam estremecer e perigar a constituição e a segurança da choça rudimentar, como se andassem por ali mãos de titãs, e obrigavam os objectos, pendurados no seu interior, a dançar como simples penas de aves.

Por vezes, lá longe, encavalitados nos rochedos, avistavam-se raposas, e lobos até, que pretendiam visitar o rebanho, os últimos muito raramente, porque os cães, sempre atentos e vigilantes, quando lhe pressentiam o cheiro, espetavam o focinho no ar, davam dois uivos que ecoavam nos cabeços e até se enfiavam nos buracos dos barrancos, e eles, como que por magia, desapareciam das vistas de quem ali se encontrasse, levando a mesma fome de volta que tinham trazido.
Também era costume aparecerem, sem aviso prévio, como se houvessem saído do fundo dum buraco, no subsolo, velhas andrajosas e velhos famintos, que constituam os exércitos de bruxas e de lobisomens, de que tanto se falava, e muito assustavam os mais fracos e sensíveis. Esfomeados e sequiosos, no seu humilde olhar, pediam ao Pastor, uma esmolinha, um bocado de pão com toucinho, ou com azeitoninhas, que eram os “condutos” mais baratos, tudo “pla mor de Deus” e o Pastor, “raso de pena”, dava-lhos, porque também gostava de os ter ali com ele, sempre teria com quem falar, para além da companhia que eles lhe faziam, enquanto ali permanecessem. Mas de que poderia falar a “gente velha, e escaqueirada”, se não das suas mazelas, da fartura das suas fomes e dos farrapos que vestiam…? Até abrigo eles pediam, porque, normalmente, se lhes tornaria impossível dar um passo, no breu da noite, fosse para onde quer que fossem, devido à terrível fúria dos elementos, que costumavam andar por ali à solta, e com que a natureza os castigava, na sua passagem… e porque os castigaria ela assim, se o seu único e real pecado, era serem velhos, não terem um naco de pão, para comer e vestirem tanto no verão, como nos Invernos rigorosos, o mesmo figurino, de farrapos andrajosos?
O Pastor condoía-se da sua sorte, que não tinha sorte nenhuma, costumando desviar uma porção de palha, à palha da sua cama. A seguir e sem temer os seus “poderes sobrenaturais”, deitava-os numa cama, a seus pés, feita só para eles, depois de os ter obrigado a enxugar, a eles, e aos seus farrapos, em redor do lume. E quando ele lhes oferecia um dedal de vinho…? Era do céu que “aquela fartura” caía, como enorme felicidade, que não estavam à espera, e ele gostava de lhes ver aquela alegria estampada nos rostos mirrados e sujos. Depois, bêbedos de sono e cansaço acabavam por sonhar… Sonhavam sempre com a felicidade que não tinham, nunca tinham tido e jamais poderiam vir a ter.
Na sua solidão, restaria ao Pastor, ver o sol declinar, e encaminhar-se para outras paragens, como a azafama que observava nas ruas dos Montes, que se encontravam erguidos nas proximidades, onde os assalariados entravam e saíam, com a satisfação estampada no rosto, e se pressentia ao longe, para se encaminharem para as suas residências, que se encaixavam numa rua, em alguma das aldeias limítrofes, deixando-lhe ficar por companheira, a nostalgia, por ele não ter anoitecido, também, na sua aldeia, nem ter dormido na saudade da sua cama.
Manuel Manços