domingo, 15 de maio de 2016

Crónicas do Alentejo (By Fernando Máximo)




A esplanada da paragem das camionetas estava deserta. Melhor, quase deserta. Aquela manhã de meados de Abril amanhecera solarenga mas fria, por mor de um vento que vinha lá dos lados de Espanha. Sentado a uma das mesas da esplanada, Manuel Gonçalves, o Potro, envergava um capote coçado de velho, botas cardadas com protectores e salto de prateleira e enrolava calma, paciente e metodicamente uma mortalha de cigarro. Ficara-lhe aquele vício desde o tempo da tropa, que cumpriu lá em Beja, já há uma boa mão cheia de anos. De olhos perdidos no descampado que dali se avistava, Manuel só acordou daquela sonolência quando ouviu o roncar do motor da camioneta que subia a barreira que conduzia ao cimo da vila e à paragem. Manuel sabia de cor o horário de todas as carreiras que ali passavam, tão bem como em tempos soubera o horário dos comboios e automotoras que passavam na Vargem Larga a caminho de destinos que apenas sonhara mas nunca experimentara. Trabalhando na Vargem Larga dobrado ao suor dos dias, Manuel Potro ouvia sempre com certa nostalgia o silvo agudo que os maquinistas dos comboios faziam lançar por aquele Alentejo esbrasiado. A seguir ao guincho estridente, o fumo perdia-se lá longe, onde a seara apenas era tão-somente uma mancha amarelada pela distância. Agora conhecia o horário das camionetas porque elas passaram-lhe muitos anos por perto, quando, após a reforma, ainda podia trabalhar na horta que ficava bem rézinho à estrada de macadame. Restava-lhe a saudade. A camioneta chegou conduzida por um moço ainda novo. Vinha cheia de estudantes pois que começavam precisamente naquele dia as férias da Páscoa e muitos havia que regressavam a suas casas para descansar depois de uns meses de estudo. O Potro olhou aquele “monstro” de quatro rodas que vomitava gente e mais gente. Tanta gente! Mais gente do que aquela que vivia no Monte das Alabaças, no ano em que para lá foi trabalhar por conta do patrão Lopes. Hoje o monte está a cair, deserto, sem gente. Semicerra os olhos e lembra-se como todos aqueles campos eram trabalhados. Lavrados pelos homens com a ajuda dos animais. Como as searas eram semeadas, à mão. O talêgo às costas, à tiracolo, e toca a espalhar a semente. Depois o adubo. Quando as primeiras chuvas chegavam logo se começavam a ver os campos até ali amarelo-torrados, mudar de cor. O verde era rei. Chegava a Primavera. Os gados eram conduzidos por guardadores e ajudas. Mais os cães. Ele tivera um que valia uma fortuna: o Tejo. Morreu de velho. Hoje os campos do Alentejo estavam ao abandono. Ninguém semeava. Ninguém! Os gados pastavam sozinhos em prados aramados, sem guardadores, sem ajudas, sem cães. Olhou de novo para a camioneta e lembrou-se do ano em que foi às sortes. Ele e mais treze da sua idade. Foram todos na carreira mais o acordeonista. A camioneta tinha uma forma esquisita: parecia uma bota …da tropa. Era da “Setubalense”. Além da rapaziada das sortes iam passageiros ditos “normais” que levavam galinhas e até um “pirunito” dentro de cestos. As malas iam lá em cima no tejadilho, amarradas com uma rede. Era desse tempo o seu Alentejo. Apesar da miséria. Apesar da fome. Apesar da repressão, tinha saudades desse Alentejo. Este Alentejo desprezado, não era o seu. Lembrou-se do Tejo, cão de guarda que morreu de velho. Não, não era este o seu Alentejo…


…António Albuquerque, só deixou de ser o Tonho da Adélia depois de ter ingressado nas camionagens, como condutor. Estudou, e tirou um curso de Sociologia na cidade de Évora. Depois enviou mil e um currículos sem obter qualquer proposta de trabalho. Os pais, trabalhavam como assalariados num monte que virou Turismo Rural e ganhavam mal. O Tonho da Adélia pensou que viver à custa dos pais não era solução. Era o que acontecia à maior parte dos licenciados do seu Alentejo (e não só) mas ele tinha que dar a volta por cima. Um Alentejano não se pode acomodar, costumava dizer. Por isso tirou a carta de profissionais e num golpe de sorte viu-se ao volante de um autocarro da Rede Expressos. Todas as semanas atravessava Portugal de lés a lés, com especial incidência na zona Alentejana. Naquela manhã de meados de Abril, o condutor António Albuquerque, condutor por profissão e Doutorado em Sociologia por formação académica, olhou uma última vez para a esplanada semi-deserta, meteu a marcha atrás e, enquanto tirava a camioneta da gare onde parara há cerca de quinze minutos, pesquisou aquele vulto de alentejano idoso, de fartas suíças brancas e pensou que aquele teria sido talvez um dos bravos alentejanos que fizeram florescer este Alentejo em tempos de Reforma Agrária. Não a vivera mas sabia-a quase de cor. Lera muito acerca do tema. Sabia que tinha sido uma época de fartura, com o controlo das terras a pertencer aos próprios trabalhadores que, senhores do saber e senhores dos terrenos se organizaram em cooperativas agrícolas onde os direitos de todos os eram igualmente salvaguardados. Nesse tempo trabalhava-se com gosto, com alegria. Havia trabalho para todos e a comida não faltava à mesa de ninguém. Absorto nestes pensamentos, o Dr. Albuquerque fazia deslizar agora o autocarro por entre a planície onde se perdia a vista em campos a precisarem de serem lavrados e onde as silvas cresciam em círculo em volta de árvores secas ou em redor de montes abandonados e a cair de velhos. Absorto nos seus pensamentos, pareceu-lhe ver o ancião da esplanada conduzindo uma dezena de pessoas de enxadas às costas rumo ao tomatal que tão bem se deveria desenvolver ali, onde as águas da barragem que se avistava (fruto de algum subsídio mal atribuído) deveriam inundar e transformar aquela terra abandonada em riqueza para uma nação que se tornou dependente de tudo em relação ao estrangeiro. Sentiu revolta pelo rumo dos acontecimentos. Chegou à última paragem do seu “Expresso” a matutar de que algo havia que ser mudado. Não era este o Alentejo que ambicionava. Não era este o seu Alentejo e iria lutar por ele. Só não sabia ainda bem como. Iria falar com a sua mulher…

…Sentado no banco imediatamente atrás do condutor, o jovem Tomás teve tempo para ver o modo como este olhou de soslaio para o homem idoso que estava sozinho na esplanada quando o autocarro chegou e que agora sozinho ficava quando o autocarro arrancava em direcção ao seu destino final. Não conseguiu perceber o pensamento daquele “cota” que embrulhava qualquer coisa acastanhada num papel branco, e muito menos percebeu o pensamento daquele condutor que, pelo seu trato fino e atencioso, lhe dava a perceber de que se tratava de um condutor especial. Não sabia era porquê. Tomás recostou-se bem no assento, fez descer os óculos de sol da cabeça para a cara, fechou os olhos e começou a divagar. Há uns anos atrás nunca pensaria poder um dia vir para o Alentejo. E ainda por cima para curtir. Mas desde que a Micas o convidara, há dois anos, para vir ao festival da Primavera, o Party White and Blue, lá para os lados de Serpa (achava que era Serpa…), sempre que as férias da Páscoa chegavam aí vinha ele em busca de novas sensações lá bem para o fundo do Alentejo mais profundo. Nunca sentiu o chamamento da terra, nem percebia para que se havia de trabalhar tanto a terra se tudo o que lhe fazia falta se encontrava lá no Hipermercado, dois quarteirões ao lado da sua casa na cidade. Alentejo para ele era curtir, era a tenda de campismo, eram as cervejas, as bandas, as “gajas” e a animação que o festival da Primavera lhe proporcionava. Queria lá ele saber que os campos estivessem abandonados, que se tivesse que importar muito mais do que a terra produzia por má gestão dos solos; queria ele lá saber que houvesse já gente a passar fome, por falta de trabalho devido em grande parte às erradas políticas emanadas da capital; queria lá saber que o Alentejo estivesse cada vez mais desertificado por total transferência dos jovens para o litoral em busca de melhores condições de vida. Esse Alentejo não era o dele…estava noutra…
Setembro de 2011
Fernando Máximo

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