quinta-feira, 2 de março de 2017

Mestiços do Sado


Junto ao Sado, quando este está quase no fim do seu curso, há gentes que descendem dos antigos escravos negros que, chegados a Lisboa, foram enviados até terras mais a sul para trabalharem nos campos de arroz onde os portugueses não queriam trabalhar: chamam-nos hoje de mestiços do Sado ou carapinhas do Sado ou ainda mulatos de Alcácer.
Os Adiafa, banda alentejana que andou nas cantorias dos portugueses com a canção “As meninas da ribeira do Sado“, versavam precisamente estas pessoas. Um dos versos mais famosos fala precisamente do cabelo encrespado das mulheres desta zona: “as meninas da ribeira do Sado são com’ás ovelhas / têm carrapatos atrás das orelhas“. Toda a gente sabia a letra e toda a gente a cantava, mas poucos sabiam que existia um detalhe etnográfico por trás de tudo isto. É que as tais meninas da ribeira do Sado poderão ter, com grande probabilidade, sangue subsariano recente, vindo desse tempo constrangedor em que a África colonial servia como fornecedora de mão de obra gratuita. Outra música, esta saída do cancioneiro que o povo vai inventando, é ainda mais óbvia: “ribeira do Sado / ó Sado, sadeta / meus olhos não viram / tanta gente preta” e mais à frente sublinham “quem quiser ver moças / da cor do carvão / vá dar um passeio / até São Romão“.
A última vez que estive numa das povoações onde podemos encontrar os ditos mestiços, a aldeia de São Romão, falei com uma mulher com evidentes traços negros, já misturados com ares mediterrânicos, aqueles que são mais conhecidos no português comum. Olhando-a, sem ser preciso mais do que isso, conseguimos percebê-lo. Já não são negros, porque o melting pot já se deu. Mas os sinais estão lá todos, cabelo crespo, muito mais crespo do que é habitual, narinas mais dilatadas, lábios grossos, pele escura. São Romão e Rio de Moinhos são as terriolas onde mais nos apercebemos desta realidade histórica, ou étnica, se preferirmos, mas também em Alcácer e suas cercanias, embora mais dificilmente. Como é óbvio, a tendência é que a miscigenação vá diluindo estas características nas populações circundantes e com grande probabilidade estas diferenças vão passando a ser cada vez menos marcantes nos rostos das pessoas, mas não menos marcantes no passado que cada um deles herdou.

Copiado integralmente do site: http://www.portugalnummapa.com/

Fotos da Aldeia de S. Romão, hoje quase completamente abandonada:








No próximo sábado, o Projeto Alcáçovas Outdoor vai caminhar por estas bandas: