terça-feira, 18 de julho de 2017

Cata-Ventos...


Muito para além da sua utilidade como orientador de práticas agrícolas e de actividades ligadas à pesca, o cata-vento incorporou, desde o primeiro momento da sua longa história, símbologias diversas, inicialmente visando a afirmação do PODER RELIGIOSO, com o galo a encimar os campanários, depois com as BANDEIRAS de castelos e palácios a afirmar o PODER TEMPORAL.
Não há, no entanto, ainda investigação feita sobre a evolução histórica do cata-vento em Portugal e no Alentejo, onde o cata-vento prolifera.
Podemos, no entanto, pressupor um certo paralelismo com o que se passou em outros países europeus, nomeadamente em França, tendo no entanto em conta o desfasamento na evolução de costumes determinada pelo atraso no desenvolvimento de ideias liberais e, obviamente, pelas alterações no tecido social determinadas pela revolução industrial.
A - Com o desenvolvimento do liberalismo no século XIX, com a perda de dinamismo e a progressiva degradação do poder económico e político da aristocracia e principalmente após a extinção das ordens religiosas, o uso do cata-vento terá começado a perder o seu carácter institucional e a ser adoptado nas casas dos estratos sociais intermédios que tinham vindo a aumentar progressivamente a sua riqueza.
B - Com a ascensão social de comerciantes, industriais e banqueiros, o cata-vento, como símbolo de poder até aí reservado ao clero e à nobreza, passou a ser utilizado por aqueles grupos sociais, inicialmente como sinal de ostentação de um poder económico em crescendo, depois como mero motivo ornamental, orientado na sua forma por determinantes puramente estéticos.
C - Com o ESTADO NOVO surgiu mais uma outra função para o cata-vento: ENCIMAR AS ESCOLAS COM CATA-VENTOS; Um caso interessante de cata-ventos, no Alentejo, aparece em muitas das escolas primárias que foram construídas na primeira metade do século XX e cujo projecto foi da autoria do arquitecto Raul Lino (Muitos Anos de Escolas, 1990: 212).
Nos anos 30 desse século, o Ministério das Obras Públicas encomendou a Raul Lino (e também a Rogério de Azevedo) a elaboração de “PROJECTOS-TIPOS REGIONALIZADOS” das escolas primárias.
Nesses projectos foram propostos determinados modelos de cata-vento de acordo com o que ele entendia ser uma simbologia das características das diversas regiões e das suas gentes .
C.1 - É assim que, no Baixo Alentejo, o cata-vento representava um pastor e um sobreiro.,
C.2 - nas escolas do Alto Alentejo, o pastor permanecia, mas agora acompanhado por uma cabra postada sobre a penedia.
C.3 - Algumas variantes foram introduzidas nestes modelos e quem se deslocar a terras alentejanas encontrará em muitas cidades e vilas os cata-ventos referidos, algumas vezes com o porco a acompanhar as restantes figuras da composição.
D - Na actualidade assiste-se a um renascer do cata-vento em casas particulares, quer com novos formatos quer com a repetição dos modelos mais antigos e generalizados mas quase sempre dentro do contexto da sua utilidade – seja ela como simples indicador da direcção do vento, seja como símbolo de hierarquia e poder : Galos, cegonhas, cães, cavalos, cavaleiros, cenas da vida rural, bruxas, dragões, tritões, setas e bandeiras são alguns dos temas que se multiplicam em chaminés e telhados de muitas regiões do país, com especial incidência e com colorido assinalável no Alto e no Baixo Alentejo.
No Alto Alentejo mantém-se a tradição dos cata-ventos escolares mas ainda evocativos das actividades económicas locais, ainda que “humanizados”

Fontes: http://descomplicadordehistoria.jimdo.com/os-cataventos/, Blog diariodebordo e advaloremportugal.blogspot.pt
Texto da autoria de Ana Maria Saraiva.