quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Funcheira

A linha de caminho de ferro do sul, partindo de Lisboa, descansa por uns minutos na Funcheira. Quase não há casas aqui. Foi construida de raíz para servir como entroncamento da linha que segue para nordeste, para Beja. Há uns edifícios desgastados e uma velha e enferrujada torre de água, não longe. A paisagem em torno está batida pelo sol e nada parece acontecer. Os sobreiros inclinam-se com o vento, a palha brilha e a terra rochosa das trincheiras da linha enferruja.
Desenho e texto do compadre Pedro Loureiro.

E, no seguimento do tema, "Encerramento das Linhas de Caminho de Ferro", partilhamos o texto do compadre Santiago Macias, publicado no seu blog: http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/ 

Em agosto de 1984 assisti a um curioso episódio no ramal de Montemor-o-Novo. A automotora parou no meio de um descampado. O maquinista desceu e foi fechar a cancela da passagem de nível. Regressou à automotora. Avançámos mais um pouco. Nova paragem. Nova saída para abrir a cancela. O veículo retomou a sua marcha.
Esta cena, quase neorealista, pertence a um passado esquecido.

A violenta redução da rede ferroviária de passageiros (v. imagem) reflete
o abandono a que o interior do país foi votado. Entretanto, veio aquele
papo fino europeu (programas integrados, nuts, interreg, investimento
elegível, etc). Depois, o interior continuou a envelhecer e a despovoar-se.
Sem retorno nem esperança. Hoje estamos como mostra o mapa.
Daqui a uns anos, e a não haver investimento sério nestes territórios,
estaremos pior. Nessa altura, virá, (aposto), a proposta de supressão/agregação
de municípios. Para otimizar, outra palavra corrente no burocratês...
É só uma questão de tempo. E do habitual conformismo, e da habitual
falta de coragem, do "arco do poder"...