sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Portas e Janelas do Alentejo







Andando eu a passear pelas ruas do Alentejo, ouvi um sussurrar!
Que será, Pensei ......?
Eram as portas e janelas a contar as suas memórias, suas tristezas e alegrias....
E sussurrando, contavam:
- Em tempos que vivemos, passaram por nós muitas gerações, vimos crescer pais e filhos, vimos os que partiram, vimos os que chegaram, fomos portal de boas e más notícias, fomos o assento nas noites quentes de verão, ouvimos histórias de encantar, de moiras, fadas e príncipes.
Mas esses tempos foram morrendo aos poucos e hoje já não se ouvem histórias de encantar, de moiras, fadas e príncipes.
Pois, respondi eu, como se com elas conversasse comigo!
- Sabem, é que os espaços de sociabilidade alteraram-se : as fortes relações de vizinhança, demonstradas pela entreajuda, do que necessário fosse, como, no verão, por exemplo, no arranjo da lã lavada, no seu “escarameio”, as vizinhas juntavam-se à porta daquela ou daquelas que precisavam de ajuda, ao mesmo tempo que as mães iam deitando um olhar para a janela, aonde decorria o namoro e enamoramento das suas filhas, acabou.
Como diz Isabel Freire,( Amor e Sexo no Tempo de Salazar, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, pp. 121 e 123-124): “Namorava-se um ano, mais coisa menos coisa. E namorava-se à porta ou à janela do rés-do chão, se a houvesse. Enquanto o rapaz não pedisse a rapariga em casamento não entrava lá dentro. Ficava ela do lado de dentro e ele do lado de fora. Depois do pedido, sim, já podia entrar, sentar-se ao lado da moça, e conversarem os dois. Mas faltava ainda os pais do noivo virem pedir a rapariga aos pais da noiva, escolher a data do casamento e entregar as prendas. Eram coisas muito sérias!” Todas estas práticas sociais foram alteradas.
- Outros espaços de sociabilidade, foram criados e a evolução tecnológica fez diminuir as relações de entreajuda da vizinhança e, também, alterou as práticas sociais da vida quotidiana que usavam a oralidade como forma de entretimento e de transmissão de tradições e conhecimentos, fazendo com que se fosse perdendo um bem cultural, que faz parte da nossa identidade sócio -cultural.
Sussurrando, responderam:
- Mas, se não há histórias de encantar, se deixámos de ser o palco do contador de histórias e lendas, continuamos a ser porta de casa de abrir e de fechar, porta de casa onde há vida, onde há viver.
- E eu janela sou o palco donde se avista a planície, as suas cores, e donde se ouve o trinar dos seus rouxinóis e por onde entra o doce cheiro do alecrim, da esteva e do rosmaninho, continuo a ser um dos símbolos do namoro e enamoramento de antigamente.
- O que não perdemos, sejamos porta ou janela, foi a importância relevante que temos porque somos o testemunho das diferentes gentes, e sua arquitectura, que foram antepassados da Pátria Alentejana e que por aqui viveram; e somos, também, testemunhos da história da arquitectura de Portugal e, por conseguinte, da do Alentejo, bem como da arquitectura tradicional alentejana.

Texto da autoria da nossa comadre Ana Maria Saraiva, copiado do grupo do Facebook: https://www.facebook.com/groups/imagensdoalentejo/