domingo, 23 de junho de 2013

Serra de Monfurado a preços de saldo.

Serra de Monfurado a preços de saldo
Serra de Monfurado - Fotografia de Joan Villaplana

 Um projecto mineiro que poderá arrancar brevemente na aldeia de Nossa Senhora da Boa Fé ameaça o equilíbrio ambiental de uma das mais belas e paisagisticamente intactas serras alentejanas, Monfurado, situada a poucos quilómetros de Évora. Os impactes previstos são de múltipla ordem, afectando gravemente, para lá da saúde pública, as águas, a flora, a fauna e o património. Apesar de boa parte da população local estar a oferecer, de forma muito organizada e fundamentada, resistência ao projecto – o que, não sendo inédito em Portugal, é sintomático da gravidade dos impactes –, o poder central e local deu mostras públicas de estar decidido a dar-lhe luz verde. Curiosamente, até o presidente da Junta de Freguesia da Boa Fé, do Partido Comunista, se aliou aos promotores de um projecto que materializa os interesses do capitalismo mais especulativo, selvagem e irresponsável para com o meio ambiente e a saúde e o bem-estar das populações.

A enorme mina prevista para a aldeia da Boa Fé representaria apenas o início de um colossal projecto de exploração de ouro, ao nível dos maiores do mundo, que iria perpetuar a destruição da Serra de Monfurado durante décadas. O principal destino a ser dado ao minério, como confessou a uma rádio local o director da empresa promotora do projecto, é a criação de barras para alimentar as reservas de ouro de alguns países. Outra parte teria como destino a indústria internacional da joalharia. É para isto que paisagens muito valiosas do ponto de vista ambiental e cultural serão arrasadas e profundamente contaminadas.

O abate de árvores (sobreiros e azinheiras) previsto apenas para esta primeira fase abrange uma área de cerca de 100 hectares. A desflorestação massiva de 6 952 sobreiros e azinheiras adultos iria ocorrer no seio de um sistema agro-florestal singular, porque produzido e mantido ao longo de centenas de gerações pelos agricultores. Este sistema, perfeitamente adaptado às condições edafo-climáticas do Sul do País e com grande aproveitamento agro-silvopastoril, é conhecido por ‘montado’ e está cada vez mais ameaçado. Constitui um dos biótopos portugueses mais relevantes em termos de conservação da natureza e uma prova (infelizmente cada vez mais rara) de que as práticas agrícolas podem conviver com a manutenção da flora e fauna autóctones.

Quem desejar obter mais informação sobre este projecto ou contribuir para a resistência ao mesmo pode visitar a página: http://projectomineirodaboafe.wordpress.com/

Pedro Duarte, morador em N. Sra. da Boa Fé

(Texto publicado originalmente no blogue da Árvores de Portugal.)