segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sopa de poejos com queijo de cabra


Junto aos ribeiros e riachos que transbordam de águas invernosas e cantantes ou nas terras planas alagadas de chuva cresce agora em abundância o poejo (Mentha pulegium L.). Pleno de virtudes, há muito que, nestas paragens do sul, ele é usado na medicina popular, na culinária ou na destilaria, quer como condimento, quer como ingrediente principal. Fresco ou seco é de uma paixão que aqui falo e que, em mim, só tem rival no oloroso coentro: pelas plantas silvestres e pela planície que as gera espontaneamente.

Esta aventura começa geralmente pelo desafio de caminhar pelos campos à procura da própria planta - rasteira, espontânea, vivaz, de aparência discreta, mas com um aroma intenso e único que o olfacto detecta à distância - sem que à partida haja qualquer garantia de a encontrar, menos ainda de a poder colher na quantidade necessária para fazer dela a base de uma refeição. É que a natureza tem às vezes os seus caprichos (ou talvez a inépcia dos recolectores de ocasião, pouco familiarizados com os segredos da terra) aumente o grau de dificuldade da tarefa. Claro que, em caso de dúvida, ou sobretudo de preguiça matinal, uma ida ao mercado resolve este problema a contento de todas as partes…

Em favor dos mais inexperientes na matéria ressalve-se ainda que, com um ingrediente tão intensamente perfumado como este, a little goes a long way, sob pena de tornar a refeição intragável. Aliás, a sábia alquimia dos aromas é, justamente, o mais bem guardado segredo da cozinha alentejana, o qual, não sendo indecifrável - bem longe disso -, requer contudo uma adequada iniciação, feita por mãos experientes, seguida, claro está, de prática recorrente. Pode mesmo dizer-se, sem grande receio de errar, que o sabor e o saber andam por aqui longa e pacientemente misturados.

Vamos então à sopa, que o estômago já começa a dar sinal de fraqueza. Começamos por seccionar e lavar cuidadosamente os caules tenros, escolhendo apenas as folhas mais verdes e saturadas do óleo essencial que perfumará a sopa. Sobre um fundo de azeite, laminam-se grosseiramente dois ou três dentes de alho e uma cebola de bom tamanho. Leva-se a mistura ao lume para suar um pouco e adiciona-se uma folha de louro, pimenta preta a gosto e uma pitada de sal. Logo se juntam dois terços dos poejos previamente arranjados e lavados a esta mistura, deixando-se suar para libertar os intensos aromas que constituem a base da sopa. Quando a cebola se apresentar já amolecida e mais translúcida, acrescenta-se água a ferver e deixa-se cozer a mistura que depois se emulsiona cuidadosamente.

Começamos por seccionar e lavar cuidadosamente os caules tenros, escolhendo apenas as folhas mais verdes e embebidas do óleo essencial que perfumará a sopa. Sobre um fundo de azeite, laminam-se dois dentes de alho e corta-se em gomos uma cebola de bom tamanho. Leva-se a mistura ao lume para suar um pouco e adiciona-se uma folha de louro, pimenta preta a gosto e uma pitada de sal. Logo se juntam dois terços do total dos poejos arranjados e levados a esta mistura, deixando-se suar para libertar os intensos aromas que constituem a base da sopa. Quando a cebola se apresentar já amolecida e quase translúcida, acrescenta-se água a ferver e deixa-se cozer a mistura que depois se emulsiona cuidadosamente.

Acrescenta-se mais alguma água (apenas a necessária para cozinhar o resto dos ingredientes) e leva-se de novo ao lume para recomeçar a fervura. Acrescentam-se duas batatas médias cortadas em rodelas não muito grossas e os restantes poejos picados grosseiramente, prosseguindo a cozedura suavemente. Quase no fim da cozedura, retira-se a folha de louro, acrescenta-se um sopro de vinagre para aprofundar os sabores e escalfam-se tantos ovos quantos os comensais. Mesmo antes de desligar o fogão, verifica-se e acerta-se o tempero de sal e pimenta, juntando-se então um queijo de cabra (ou dois) curado e cortado em quartos.

Mesmo antes de desligar o fogão, verifica-se e acerta-se o tempero de sal e pimenta, juntando-se ainda um queijo de cabra curado e cortado em quartos*.

Serve-se bem quente sobre fatias muito finas de pão de trigo, ligeiramente tostadas no forno, acompanhada de umas boas azeitonas 'arretalhadas' para um sabor ainda mais genuíno. O sabor leve e frutado de um branco alentejano, acompanham na perfeição esta sopa que, pelas suas qualidades sápidas e rusticidade integra sem esforço algum a categoria das “comidas para a alma”, a que alguns também chamam confort food.

* Sei que a presença de queijo, tanto nesta sopa de poejos, como na de beldroegas, causa alguma estranheza, até a muitos alentejanos. Contudo, o queijo de cabra curado é aqui o ingrediente que confere a esta sopa a complexidade e a harmonia de sabores que a tornam única. Por isso, vale a pena ultrapassar o preconceito. Verá que não se arrepende.
Texto da comadre Francisca de Matos
Copiado do Blog: http://imenso-sul-alentejo.blogspot.pt/