sábado, 24 de dezembro de 2016

Doces de Natal, a glória do açúcar...


DOCES DE NATAL: A GLÓRIA DO AÇÚCAR
Todos os anos há quem reclame do trabalho que dá preparar o Natal. E todos os anos, com maior ou menor rigor, com maior ou menor paciência, a maioria dos portugueses não abre mão de duas coisas: do bacalhau e dos doces. E que doces são esses?
«Punha-se a toalha grande, os talheres de cerimónia, os copos de pé, as velhas garrafas douradas. Acendiam-se mais luzes nos castiçais de prata. As criadas, de roupinhas novas, iam e vinham ativamente com as rimas de pratos, contando os talheres, partindo o pão, colocando a fruta, desenrolhando as garrafas (...), as frituras de abóbora-menina, as rabanadas, as orelhas-de-abade tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas em pirâmide nas travessas grandes. Uma voz dizia: "Para a mesa! Para a mesa!".»
Passaram-se anos, e não foram poucos, e mudaram-se hábitos e tradições, muitos. Ainda assim, apostamos, a grande maioria dos portugueses, não importa a idade ou a proveniência, rever-se-á, pelo menos em parte, nesta narrativa. Foi escrita no final do século XIX por Ramalho Ortigão, numa das suas crónicas mensais reunidas sob o título de As Farpas (de que participou também Eça de Queirós) e permanece como uma das descrições mais eloquentes de que há memória sobre a essência da ceia de Consoada à portuguesa.
Maria de Lourdes Modesto, referência incontornável quando se quer falar de raízes e tradições gastronómicas, quando interpelada a falar sobre o tema, confirma isso mesmo: «O que não pode faltar na minha mesa na véspera de Natal? Uma toalha branca. Para mim ainda não é a noite da Consoada, é e será sempre a Ceia do Menino Jesus. Assim se chama a refeição que se come no dia 24. Respeita-se a liturgia, come-se magro, "Como Deus Manda". As carnes fritas, essas só se comem depois do regresso da Missa do Galo, já no dia 25.»
Certo, hoje não levaremos porventura as coisas tão ao pé da letra como a ilustre decana, deliciosamente ciosa dos seus Natais passados no Alentejo, o que não quer dizer que tenhamos perdido por completo as nossas estrelas-guias. Pelo menos em matéria de doçaria. Logo, em vez de começarmos pelo que mudou, vamos falar do que está arreigado no nosso receituário coletivo. De-lés-a-lés, sem esquecer, claro está, as ilhas.
Sobre a mesa minhota nesta quadra, o mesmo Ortigão era perentório: «Há só um banquete que desbanca todos os jantares de Paris (...), é a ceia de Natal nas nossas terras do Minho.» Por aqui, depois do bacalhau e do polvo, é da praxe seguirem-se doces como as rabanadas de leite e de vinho, os bolinhos de jerimu (pequenos doces de abóbora fritos) e de gila, os mexidos (levam, entre outras coisas, pão, leite, canela e amêndoas), a aletria, as fatias douradas, a sopa seca (fatias de pão embebidas num caldo de carne doce, servidas em camadas com açúcar e canela) e as orelhas-de-abade (massa de pão cortada em forma de orelha, frita em azeite a ferver e servida com açúcar e canela).
Há quem reclame estas últimas para Trás-os-Montes. Seja como for, a esta região não faltam outros doces como os formigos (semelhantes aos mexidos), as migas doces de Valpaços (ovos, miolo de noz e canela), as filhós de Bragança, os sonhos e o pudim de Natal. (…)
(João Miguel Simões, in «Evasões»)