terça-feira, 5 de maio de 2015

A labuta do Boieiro... (By Luis Manuel)

 
 

O principal serviço do boieiro era lavrar e tratar do gado. Lavrava para fazer o alqueive para semear o milho, atalhar o alqueive e os agros do milho. Perto do fim do ano, fazia a sementeira do trigo e os outros cereais. No tempo do carreto, carregava a seara para a eira, onde era debulhada por uma ceifeira fixa.
Nesse tempo, ainda não havia ceifeiras-debulhadoras. Era uma vida dura de sol a sol a daquele tempo. Mas a vida de boieiro, julga-se, ainda conseguia ser mais dura, pois era um horário de dia e de noite na sua vida. Boieiro que pelas três da madrugada que se levantava para tratar dos bois, isto na hora solar. Seis horas da manhã, animais saíam da arramada para irem beber ao poço. Depois de beberem iam para a lavoura. Tabalhava todos os dias até ao Sol se pôr, isto como todas as profissões no campo e naquele tempo. Mas a do boieiro continuava ainda durante a noite. A noite ceava e voltava para o Monte. Em seguida, ia com os bois beber água ao poço e depois os metia na arramada, onde tratava deles, aí umas duas horas e meia. O gado, na arramada, depois ponha-se assim numa “esquarda”. Assim formada por duas filas de manjedouras, uma de cada lado, formando um corredor onde andava o boieiro com uma golpada cheia de comida.
E compadres e minhas comadres e vejam lá quantas passadas não tinha de dar o compadre todas as noites, para encher a barriga dos bois de trabalho, touros de reprodução e alguns bezerros mais cansados. Eram à volta de uns vinte a trinta, dando uma manchinha de comida de cada vez a cada animal até os fartar todos. Acontecia muitas vezes, quando chegava a tratar dos últimos bois, já os primeiros estavam a bater na manjedoura a pedir mais comer. Tinha ele de andar sempre ligeiro e a correr de uma ponta a outra. Ai mas não estais entender mes compadres e minhas comadres. Não podia por muita comida ou muito de cada vez, porque, se os animais babassem a comida, mesmo que tivessem fome já não a comiam. E era sempre este fardo todos os dias.
Passavam muitas semanas em que os boieiros dormiam só umas três ou quatro horas, e mesmo assim estavam sempre com o ouvido à escuta, com medo de um boi se enlear nas cordas das prisões e partir uma perna. Estes cuidados obrigavam o boieiro a dormir na arramada, ao pé do gado, mesmo que tivesse família e casa sua.
Os bois começavam a dormir na arramada logo em Setembro, no tempo em que se principiava o atalhar o alqueive e os agros de milho. A 15 de Março de cada ano, o gado saía para a rua ou, melhor dizendo, saía para a pastagem onde andavam de dia e de noite. E o boieiro sempre atrás deles. Quando os bois passavam a andar na pastagem e deixavam a arramada, o boieiro dormia atravessado nas margens feitas quando se semeava o trigo, com a água da chuva a correr pelos regos abaixo dele, como acontecia nos meses de Março ou Abril. É que, com o gado solto na relva, se o boieiro se deixasse adormecer bem e ele fosse fazer mal, era uma carga de trabalhos e uma vergonha para o maioral.
Portanto, quando o boieiro dormiam na relva, a cuidar do gado, só passam pelo sono durante a noite. Vá lá que dormisse uma hora ou uma hora e meia, nesses dias que conseguia adormecer. E depois durante o dia ía amansar novilhos. Era uma das obrigações do boieiro, era amansar novilhos, que eu me estava esquecendo de vos dizer…
Luis Manuel (15/03/2015)