quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Comadre perdiz


Nome comum: perdiz-vermelha
Nome científico: Alectoris rufa
Outras designações: perdiz-comum
Peso: Aproximadamente 500 g.
Comprimento: 34 cm
Fenologia: Residente
Estas duas espécies são as presas principais da maioria dos grandes predadores da Península, sendo por isso a sua gestão essencial, não só para o futuro da actividade cinegética (no que à caça menor diz respeito), mas também por complementar os esforços de conservação que têm vindo a ser realizados em Portugal e Espanha.
A perdiz é uma ave terrestre de aspecto arredondado. O cimo da cabeça é cinzento com uma faixa branca comprida que passa por cima dos olhos e listra ocular que se estende pelo pescoço até à barra peitoral malhada, envolvendo o mento e a garganta. Tem os pés e bico vermelho. A garganta, de cor creme, tem uma faixa branca marginada de preto.


Espécie gregária, podendo também ser avistada em grandes bandos, especialmente no fim do Inverno, bandos esses que são desfeitos no início do período reprodutivo. Pode ser encontrada em quase todas as regiões do nosso país, preferindo zonas mais abertas com parcelas de culturas agrícolas e outras de mato mais denso, em que existam pontos de água durante o período mais quente do ano.


Alimenta-se preferencialmente de sementes e rebentos de plantas bravias e agrícolas, consumindo também insectos (componente principal da alimentação dos perdigotos), moluscos e outros invertebrados.
Tem no mimetismo a sua maior defesa, tanto no caso dos adultos como dos perdigotos, e geralmente não usa o voo como meio de fuga, preferindo correr e esconder-se. O voo é normalmente utilizado como último recurso de fuga, voando poucos metros até uma zona com mato mais denso o­nde se possa esconder. O voo da perdiz é geralmente curto e pesado, mas rápido e direito, emitindo um som muito característico (uma das maneiras de a distinguir da perdiz-cinzenta, Perdix perdix).


Aos machos cabe a escolha do território, a sua defesa (são bastante agressivos e não toleram a presença de outros machos). As fêmeas são atraídas através do chamamento característico. A escolha do local para o ninho é normalmente também da responsabilidade do "perdigão".
A dimensão do território varia consoante a disponibilidade de alimento, água e abrigo, e pode variar entre os 1-2 ha até valores acima dos 18 ha. É uma espécie monogâmica, iniciando de uma maneira geral a postura a partir de fins de Abril princípios de Maio a Junho numa pequena depressão no meio de vegetação rasteira.

O número médio da postura ronda os 14 ovos, mas esse número pode ir de 12 a 20. Nalguns casos verificaram-se posturas de mais de vinte ovos, que se pensa corresponderem a situações em que o macho acasalou com mais de uma fêmea (posturas comunais). Os ovos são incubados pela fêmea durante 23 a 26 dias. As fêmeas mais velhas tendem a realizar a postura mais cedo. É frequente a construção de dois ninhos consecutivos (duas posturas sucessivas) em que o macho fica encarregue da incubação de um ninho.


A percentagem de ninhos bem sucedidos andará à volta de 45%, fruto da destruição de ninhos por predadores ou pela acção do Homem (e alguns abandonados, dada a sensibilidade da perdiz na altura do choco). Se esta destruição for precoce, a fêmea pode construir outro ninho (postura de substituição) sendo a produtividade desta menor.


A percentagem de ovos eclodidos é em regra geral elevada (sendo menor nas segundas posturas, normalmente devido ao calor).


Na altura da incubação, o efeito de uma população excessiva (principalmente um elevado número de machos) pode ter como consequência uma diminuição do sucesso reprodutivo, pois os machos comportam-se de forma agressiva com as fêmeas chocas, levando-as a abandonar o ninho.
Como é uma espécie nidífuga, os perdigotos abandonam o ninho à nascença, permanecendo a ninhada junto da fêmea. O primeiro voo ocorre normalmente por volta das seis semanas de idade, estando nesta altura os juvenis menos dependentes da progenitora. Nesta altura a fraca disponibilidade de pontos de água e abrigos naturais pode diminuir a taxa de sobrevivência, pois obriga as ninhadas a percorrer maiores distâncias.


O sucesso reprodutivo pode ser avaliado através do índice jovem/adulto no fim do Verão (Agosto). Este índice pode variar desde os 0,5 até valores superiores a 4. Em Portugal são comuns valores entre os 2,5 e os 3,5. Contudo este índice varia muito de ano para ano (por exemplo devido a condições climatéricas adversas – verão mais quente e seco), e por isso a sua análise tem de ser cuidada.


No início do Outono poderão ser vistos grupos com 5 a 6 indivíduos (ou seja, dois progenitores e a sua prole), grupos estes que formarão os grandes bandos, que podem ter mais de vinte indivíduos, que se avistam no Outono e Inverno.


A densidade de perdizes depende das características do habitat, do clima, da predação e da pressão cinegética. Em Portugal são normais os valores desde os 0,01 até 1 perdiz por ha (situação excepcional pois foi verificada na Tapada da Ajuda em Lisboa). O valor médio andará por volta das 0,1 a 0,2 perdizes por hectare. Conhecem-se contudo situações em Espanha o­nde foram caçadas cerca de 5000 perdizes num couto com 1600 ha.
Os principais predadores são a raposa (Vulpes vulpes), o ginete, o gato-bravo, alguns rapináceos, o javali (Sus scrofa) e os corvídeos, estes últimos predando principalmente os ninhos e perdigotos. É de salientar ainda o efeito predador de alguns animais domésticos e assilvestrados, que muitas vezes são responsáveis pela destruição de ninhadas inteiras, especialmente os cães e gatos, causando prejuízos avultados.

A actividade do Homem pode também ser a causa da diminuição da densidade de perdizes num dado local, e mesmo do seu desaparecimento. São frequentes situações em que os agricultores e pastores têm pouco cuidado, sendo responsáveis pela destruição de ninhos e pela morte de ninhadas provocadas por máquinas agrícolas e pela perturbação causada pelos rebanhos. Estas situações podiam ser muitas vezes evitadas, bastando para tal manter a tranquilidade de zonas com elevada densidade de perdizes na altura do choco, atrasando alguns dias as práticas referidas.


Esta espécie gosta de zonas sem grande coberto para caminhar, pois conseguem assim detectar a presença de predadores, são por isso avistadas com frequência nos asseiros e caminhos rurais. A existência de pontos de água (charcas, pequenas barragens e cursos de água) é também favorável à ocorrência de perdizes (bem como de toda a fauna bravia), pois ajuda as famílias a passar os meses mais quentes do ano.
Parece ter alguma preferência por zonas em que a presença de sebes, caminhos e muros é maior, pois junto a estes desenvolve-se uma estrutura de vegetação que, para além de bom local para o ninho, proporciona alimento e local de abrigo.


Para além da diminuição de habitat e da pressão cinegética (muitas vezes associada a uma gestão pouco racional) as nossas populações bravias estão a diminuir devido a repovoamentos mal feitos, muitas das vezes recorrendo a indivíduos de cativeiro de má qualidade, causando um novo tipo de perturbação, a poluição genética, pois estamos a perder as características da nossa perdiz ao cruzá-la com indivíduos de outras espécies.


Nos terrenos de regime livre, o­nde não existe gestão cinegética (para além das restrições de calendário e de exemplares caçados), esta bela ave praticamente desapareceu. Nas zonas o­nde foram implementadas Zonas de Caça (principalmente turísticas) a população de perdizes parece estar a aumentar, resultado de algumas medidas de gestão implementadas com sucesso, de uma diminuição (e controlo) da perturbação e devido a uma gestão mais eficaz da pressão cinegética.
Como exemplo de algumas medidas (umas de mais fácil implementação que outras) que podem favorecer as populações de perdiz podemos salientar:

- a manutenção de pontos de água (a construção de pequenas charcas);

- comedouros e bebedouros;

- evitar sempre que possível o corte de culturas forrageiras nos locais de maiores densidades (ou exercer uma perturbação regular entre Janeiro e Março nas folhas destinadas a serem gadanhadas, ou ainda semear com densidades elevadas;

- montagem de uma barra com correntes suspensas (espanta caça) à frente da gadanheira;

- repovoamentos;

- culturas para a fauna;

- disponibilidade elevada de locais (ou zonas) de abrigo;

- controle de predadores, principalmente a raposa e a pegas (Pica pica e Cyanopica cyana).
Assim, é uma espécie que carece de medidas adequadas a uma gestão sustentada de um recurso importante não só para a economia regional, mas também para a conservação de muitas outras espécies (não só de predadores, mas também espécies com necessidades semelhantes às da perdiz).
Texto do Compadre António Heitor - Departamento Técnico da CONFAGRI