quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Crónicas do Alentejo (By Susete Evaristo)



Crónicas do Alentejo, conjunto de pequenos contos publicados no grupo do Facebook: 
https://www.facebook.com/groups/imagensdoalentejo/

2ª CRÓNICA DE SUSETE EVARISTO: "A BRUXA"
Agora que as suas mãos já não colhiam as ervas que curavam maleitas e, nem as pernas a deixam embrenhar-se pelos campos, de dia arrastava-se de porta em porta pedindo por favor uma esmola, um pedaço de pão ou uma moeda para fazer face à fome que corroía aquele corpo cada vez mais franzino dobrado sobre si mesmo, mais tarde ficava ali à porta de casa espreitando a noite.
De vez em quando levava a mão à cabeça agora aqui mais logo ali, ficando com os longos cabelos brancos desalinhados e caídos pelo rosto.
Quem à Rua dos Canos, passasse após o lusco-fusco olhava receosa a porta entreaberta e afastava-se o mais rápido que as pernas lhe permitissem
A pouco e pouco foi criando fama de bruxa ! Sim pois não era ela que vestia os mortos, não era ela a tal a quem a população, contava-se há muitos anos, recorria para que fizesse a reza ou responso a Stº António das coisas perdidas; não era a ela que recorriam também para bênçãos contra o quebranto e mau-olhado, para o treçolho ou, para cozer o nervo torcido?
E à boca pequena não se dizia que ajudava também as mulheres, mães de muitos filhos que não podendo sustentar mais nenhum, a ela recorriam para evitar novas gravidezes?
Coitada a pouca sorte tinha-a deixado sem o marido, morto nas terras de França e pouco tempo depois o único filho era levado pelo tifo.
Até o nome perdera na passagem dos anos, era agora conhecida pela “Velha Rôxa, a Bruxa”
Na rua duas crianças, as únicas a quem não causava medo, corriam para ela a quem beijava e tratava com carinho, eram a sua alegria.
Um dia a senhoria, mandou que alguém lhe tirasse os tarecos de casa (se aquilo era casa, paredes com rachas enormes e o telhado que deixava passar a chuva tantas eram as telhas que faltavam) e lhe fechasse a porta.
Ficou na rua a desgraçada a única coisa que pediu foi um pouco de água quente. Depois, depois tomou um chá e adormeceu…. para sempre!
Dizia-se na vila que tinha tomado chá de erva da bruxa (arruda).
Não recordo esse dia mas ainda hoje tenho na memória a imagem da senhora, com os longos cabelos desgrenhados sorrindo com uma boca sem dentes, mas com uns olhos risonhos e carinhosos.
Sim recordo, porque uma das crianças era eu.
Susete Evaristo (01-12-2015)



Fotos captadas na Rua de Évora, em Alcáçovas.