quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Do coração da Terra...


"Loucos ou sábios, como o saberemos? Consolávamos o inquieto coração pousando os olhos na linha imaginária do horizonte, e vivíamos."

                                                   in Uma Pescaria (conto), Agustina Bessa Luís

O toque é estranho aos que por debaixo dos panos, das vergonhas e pudores diários, trabalham a Terra. São elemento quente, apontamento suave no solo frio e duro que se rompe dia após dia para dele retirar vida e sustento. Estremece-se o corpo, aos dedos que deslizam discretamente por um braço, que por sua vez mal os sente fisicamente, tal é a profusão de camadas com que se cobre. 

Mas o coração, oh esse sim, tem terminais nervosos muito mais sensíveis que os da epiderme. O vento morno de um murmúrio soprado numa nuca, ali bem a rasar a linha onde termina o nó do lenço ou o roçagar leve de um joelho noutro em dois corpos sentados em cadeiras à beira do lume e que mal se podem olhar. São toques, pormenores que não se podem perceber senão com um sentido que não é o sexto ou sequer o último, mas o primeiro de todos.

O sentido das coisas em que tudo encaixa, se ajeita, se compreende sem a necessidade supérflua de palavras, sons, diálogo nenhum ou entendimento racional de qualquer espécie. O coração dos que se tocam sem precisar de o fazer, não tem limites humanos ou naturais. Vive muito para além das fronteiras desta Terra: galga os cursos de água, pisa os poejos e a hortelã-da-ribeira deixando o rasto e o cheiro da memória no ar pelo caminho; voa por cima dos telhados de telha marselha; bate asas acima do branco dos rostos das casas e chega exactamente onde tem de chegar, no momento exacto para que o outro coração que o espera, saiba que o caminho é menos que nada, obstáculo ridículo entre um e o outro.

A pele de dois corações que se fazem corpo tem rastilho, pavio curto. Incendeia-se constantemente ao toque, à presença apenas- real ou imaginada- da sua metade fundamental. Nos bailes de Verão, sobre o chão escuro de tacos da Sociedade Recreativa ou na terra batida do largo, enfeitado de luzes foscas, em tom amarelado, ao som de uma qualquer moda argentina, que poucos parecem realmente escutar, sobressaem não raro, um par de pés que não tem duas vontades. São desses que falo. Os corpos agarrados, viajam muito acima de qualquer som, de todos os elementos físicos na Terra: eles já se encontraram num qualquer plano divino em que viveram muito antes dos se pés se encontrarem num fim de tarde em Agosto.

E quando a tela dos corações se cose, reúne, fica una de novo, então não há maneira de o ignorar, de lhe voltar as costas humanas. Na Terra chamam-lhe bem querer, ou só querer. Tanto, tanto que em breve os homens terão de erigir a casa, as mulheres terão de cortar e coser os tecidos que servirão de abrigo para guardar este coração novo, reunificado, esplendoroso, que vai viver num tão simples corredor da Terra.

Porque dizem os antigos, que o Amor é simples e que é só assim que ele vive. E que dá testemunho. E que toca sem tocar os que a ele acorrem e que por ele vivem.

Copiado do blog da nossa comadre Ana Terra: http://aterradaana.blogspot.pt/