segunda-feira, 11 de março de 2013

A verdadeira história do Jardim Publico de Alcáçovas



A: Então o que era aqui antes de ser jardim?
Milhano: Era onde as pessoas vinham buscar a erva para os burros, para os burros, para as bestas, para as vacas…
A: O terreno pertencia a quem?
Milhano: À junta. Mas não estava aqui nada.
A: Não havia aqui casas nem nada?
Milhano: Nada, só havia o coreto.
A: Já havia o coreto?
Milhano: Sim, o coreto já é antigo.
A: E já havia também a taberna do…
Milhano: Não, não havia aqui taberna nenhuma.
A: Não havia ali a taberna do “maravilhas”?
Milhano: Havia...
A: Já havia, não era maravilhas?
Milhano: E a do… chamavam-lhe… como é que era o nome dele? O Fagulha. Onde está agora o Lopes.
A: Sim, era uma taberna também?
Milhano: Também, era uma “tascazinha”.
A: Então pronto, aqui era erva para os burros e como é que fizeram depois o jardim?
Milhano: Depois o jardim foi feito com as ajudas uns dos outros. Era a sábados, domingos e feriados é que a gente fazia isto.
A: Mas a junta pagava?
Milhano: Não.
A: Foram vocês a trabalhar grátis?
Milhano: Sim, grátis. Para fazermos o jardim.
A: Quantas pessoas eram mais ou menos? Lembra-se de alguns nomes?
Milhano: Lembro, o Júlio Isidro, António Maria, o Ciganito…
A: Ciganito? Quem era o ciganito?
Milhano: Morreu. Morava lá ao pé da igreja.
A: Qual é o nome dele de família?
Milhano: Ele era António, a gente era “ciganito”, “ciganito”…
A: Sempre o ciganito. E mais? Havia mais alguém?
Milhano: E era um “carta branca”, ele era Custódio. E então juntávamo-nos ao sábado e ao domingo, cavávamos, tirávamos pedras… e levámos isso tudo, limpámos isso tudo.
A: Não havia árvores aqui?
Milhano: Não, não havia nada. Só havia além aquelas 4 laranjeiras.
A: Ai já estavam ali?
Milhano: Já, aquelas antigas.
A: Então e quando é que começaram a fazer canteiros e a plantar coisas?
Milhano: Foi logo a seguir à limpeza da terra.
A: E quem é que fez, digamos o desenho do jardim?
Milhano: Foi um senhor que já morreu. Era o Angelino.
A: Ele é que fez o desenho do jardim?
Milhano: Sim, ele é que dava, como é que se diz?
A: O traço?
Milhano: o “orçamento”
A: E o Angelino de que família era?
Milhano: Mora ali ao pé do seu filho.
A: Ao pé da minha filha?
CATARINA (Filha do Milhano): Foi um senhor que se matou que era filho do tio André. Era Caldeirinha.
A: Então o jardim ficou logo como está hoje?
Milhano: Sim, ficou como está agora.
A: Então já era mais ou menos assim?
Milhano: Pois. Fomos a Alcácer do Sal buscar as mudas, o presidente dava-se muito bem com este presidente e fomos lá buscar plantas aos viveiros...
A: Não pagaram nada…
Milhano: Não.
A: Foi só transporte?
Milhano: Só. E então formou-se o jardim e está formado.
A: Levou quanto tempo? Levou meses, semanas? Mais ou menos.
Milhano: Pois, levou semanas. Aquilo era só nas horas vagas.
A: Pois, era um bocadinho de cada vez.
Milhano: Isto foi feito só com as ajudas, eram garotos, era tudo o que aparecia…
A: Para dar uma ajudinha.
Milhano: Sim, para fazermos o jardim.
A: E estas árvores grandes?
Milhano: Isto já foi plantado depois.
A: Já foi depois, não é?
Milhano: Todas.
A: Tem piada. E depois é que fizeram aqui a escola. Já estava aqui a escola?
Milhano: Já, já.
A: Pois. Era a única escola cá da terra, não é?
Milhano: Pois, depois é que passou para ali.
A: Isso foi mais ou menos por que anos? Mais ou menos à quantos anos?
Milhano: Há ai uns 30 anos.
A: 30 anos? Ou mais! Portanto, o coreto fez o ano passado 80 anos.
Milhano: Já foram à 40 ou 30 anos que o jardim foi formado.
A: Mais 40 que 30, se calhar.
Milhano: Então eu estive aqui 33, já abalei daqui há 10 anos. Pois, deve ser isso sim senhor.
A: Os 40 anos?
Milhano: 40 anos. Isto não havia aqui nada.
A: Agora temos aqui um jardim muito agradável. Sim senhor, muito obrigado

Entrevista feita pelo nosso compadre André Correia ao amigo Fortunato José Milhano, publicada no blog:
http://alcacovas.blogs.sapo.pt/