sábado, 10 de agosto de 2013

Caça aos Grilos...

 Gaiola paras grilos, feita de cana, cortiça e cordão (Colecção do autor).

EU E OS GRILOS
Íamos apanhar grilos cuja toca localizávamos pelo som. Feito isto, o grilo estava perdido. Obrigávamo-lo a sair à força com uma palhinha que metíamos na toca. Porém, se não saía a bem, saía a mal. Para grandes males, grandes remédios. Víamo-nos então forçados a dar uma mijadela na toca, o que tinha o condão de persuadir o grilo a sair. Apanhávamo-lo depois com as mãos postas em concha e metíamo-lo numa caixa de fósforos das grandes, nas quais previamente tínhamos feito uns pequenos respiradouros, não fosse o caso de o bicho, salvo da morte por afogamento, viesse a morrer de asfixia. Depois, já em casa, o grilo era metido numa gaiola, havendo as feitas só de cana e as de arame e cortiça ou de arame e madeira.
Alimentávamos o grilo com folhas de serralha ou de alface, que íamos renovando para o “cantor” ter permanentemente alimentação fresca.
Os grilos que cantavam bem eram chamados de “realistas”.
As gaiolas estavam geralmente junto às janelas.
Tivemos conhecimento que, por vezes, os trabalhadores rurais prendiam na camisa uma gaiola de “bunho” com um grilo lá dentro, que cantava para eles o dia inteiro.
OS GRILOS NA LITERATURA ORAL
A caça aos grilos era uma traquinice dos putos da minha laia e da minha geração. Decorridos mais de cinquenta anos sobre a última mijadela numa toca, resta a saudade dos tempos que já lá vão. Esta, aliada à memória dos nossos ancestrais, tornou-me arqueólogo da oralidade com a missão explícita de escavar os múltiplos géneros da nossa literatura popular. Daí que tenha registado a presença dos grilos no adagiário português:
-  "Anda a raposa aos grilos.“
- “Fazer punhetas a grilos.”
- “Fica melhor a mulher no seu lar, ouvindo o grilo cantar.“
- “Infeliz da raposa que anda aos grilos.“
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos e ao juiz quando vai à forca.“
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos e pior quando anda aos ovos.“
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos.” [21]
- ”Quando a raposa anda aos grilos, a mulher dama fia e o escrivão não sabe quantos são do mês, mal deles três.“
- “Quando a raposa anda aos grilos, mal da mãe, pior dos filhos.“
- “Quando a raposa anda aos grilos, vai mal para a mãe e pior para os filhos.“
- “Quando o grilo grilar, está a seara a aloirar.“
- “Se queres um grilo, vai pari-lo.“
- “Tomai a sorte do grilo, que é comer e cantar.“
Os grilos foram objecto de superstições populares. São conhecidas as seguintes:
- Na Beira Alta, os aldeãos apreciavam muito o canto dos grilos nas pilheiras das cozinhas, encarando-o como um prenúncio de fortuna para os residentes. [12]
- Nas feiras da Lixa e de Penafiel, vendiam-se outrora, canudos com um grilo lá dentro. Havia a crença de que quem metesse o dedo mindinho num dos orifícios do canudo e consentisse que o grilo lhe sugasse uma gota de sangue, ficava rico. O grilo era o Diabo. Por isso, quando alguém se referira a uma pessoa rica, dizia: “Aquele tem grilo em casa”. [6]
Os grilos estão igualmente presentes no cancioneiro popular. Sobre o canto do grilo dizia-se na Feira:

“Agora cantam os grilos,
É sinal de tempo quente.
Adeus, amor de algum dia,
Já que não foste p’ra sempre.” [12]

No Alentejo com muito humor diziam:

“Já degradaram o grillo
Para o campo da manobra,
Por dar uma navalhada
Na barriga d’uma cobra.” [18]

Em Guimarães, os rapazes quando esgaravatavam a toca com uma palhinha, diziam:

“Sai grilinho,
Sai grilão,
Que lá vem
O S. João.” [12]

Uma variante era:

“Sai grilinho,
Sai grilão,
Que andam os porcos
No teu lameirão.” [12]

Em Vouzela, os rapazes empunhavam, por vezes, uma lumieira de palha a arder ou até mesmo uma candeia, que chegavam à entrada da toca, proclamando então:

“Grilo, grilinho
Sai do buraquinho.” [12]

A presença dos grilos no reportório das adivinhas portuguesas é vasto e na maioria delas, a solução é obviamente: “Grilo”. As adivinhas têm, geralmente a ver com o canto deste ortóptero:

“Eu canto ao desafio
Como a cigarra no Verão.
Gosto muito de alfaces
E não trabalho ao serão.” [17]

Eis outra:

“Seja de noite ou de dia
um pequeno bailarino
oferece serenatas
sem guitarra ou violino.” [2]

Mais uma:

“Lá no deserto onde vivo
Me vão buscar da cidade.
Nascendo em dias grandes
É mui curta a minha idade.

Cantar sem abrir a boca
É o meu divertimento.
Como leigo que sou
Pertenço a certo convento.

Dão-me uma pequena cela
Onde só posso habitar,
E uma ração em cru
Até na cela acabar.” [10]

E ainda outra:

“Não sou frade, nem sou monge,
Nem sou de nenhum convento;
Meu fato é de franciscano,
E só de ervas me sustento.” [13]

Nas duas adivinhas anteriores há uma alusão ao Convento de S. Lourenço, no Porto, popularmente conhecido por Convento dos Grilos. Grilos foi a designação atribuída aos frades descalços da Ordem de Santo Agostinho, que vieram de Espanha em 1663, instalando-se inicialmente em Lisboa, no sitio do Grilo, onde rapidamente conquistaram a amizade da população, que os passou a designar por frades grilos, em virtude do hábito negro.
As adivinhas anteriores referiam-se apenas ao grilo, mas podem ser respeitantes a mais que um animal, como acontece nesta:

“Quem é quem é
Que canta
Sem ser com a garganta?” [4]

A solução agora é “A cigarra e o grilo”.

A adivinha pode, de resto, envolver aparentemente cálculo mental:

“Bão três grilos p’la estrada fora.
Vem um carro mata um.
Quantos ficam?” [16].

Naturalmente que a solução é: “Ficou aquele que morreu. Os outros andaram sempre.”
No âmbito das alcunhas alentejanas são conhecidas as seguintes
GRILA - A receptora, em criança, andava sempre aos pulos (Barrancos). [20]
GRILA ESPANHOLA – Alcunha outorgada a um individuo que fala muito e é espanholado (Elvas). [20]
GRILO – Designação atribuída a um indivíduo que gosta muito de cantar (Odemira, Portel, Viana do Alentejo, Santiago do Cacém, Almodôvar, Serpa e Grândola). [20]
GRILO – o alcunhado herdou a alcunha da mãe (Borba). [20]
GRILO – O receptor, em criança, tinha o hábito de apanhar grilos (Cuba e Santiago do Cacém). [20]
GRILO – O visado, em criança, sempre que via uma gaiola com grilos à porta de alguém, começava a logo a assobiar (Moura). [20]
GRILO – Os visados são de baixa estatura e muito cantadores (Alandroal). [20]
A nível de gíria portuguesa são conhecidos os termos:
“Andar aos grilos como a raposa = Ser muito pobre = Não ter com que viver” [1]
“Cebo de grilo = Excrementos” [15]
“Encangar grilos = Estar desocupado = Não ter trabalho” [22]
“Fazer ratos na grila = reflectir a luz solar com um espelho, fazendo-a incidir sobre os olhos” [8]
“Frade grilo = Frade que pertence á Ordem dos Agostinhos Descalços” [1]
“Grila = Mentirola = Peta”(Portel – Alentejo) [8]
“Grila = Órgão sexual do homem” (Alto-Douro) [8]
“Grila = Ponta de Cigarro = Pirisca” [19] [11]
“Grila = Vulva da mulher” (Chulos) [8]
“Grilada = Bolsos laterais do casaco ou das calças” [11]
“Grilada = Ordem dos frades grilos” [8]
“Grilo = Fraque” [9]
“Grilo = Jogo popular infantil” [8]
“Grilo = Órgão sexual masculino, especialmente das crianças” [23]
“Grilo = Pénis de criança” [1]
“Grilo = Relógio = Apito” [3]
“Grilo = Telefone = Relógio de bolso = Coração” [19] [15]
“Memória de grilo = Memória de pessoa muito esquecida” [22]
“Vir com os grilos = Estar bêbado” [9]
Finalmente, no sector da toponímia são de assinalar os seguintes topónimos:
- “GRILA – Lugar da freguesia de S. Pedro, concelho da Covilhã.“ [7]
- “GRILO – Freguesia do concelho de Baião.“ [7]
- “GRILO – Freguesia do concelho e concelho de Baião, do Bispado do Porto, tendo S. João Baptista por Orago.” [14], [8]
- “GRILO – Lugar da freguesia de Fornos, concelho de Castelo de Paiva.“ [7]
- “GRILO – Lugar da freguesia de S. Vicente do Paul, concelho de Santarém.“ [7]
- “GRILO – Lugar da freguesia de Vale de Figueira, concelho de Santarém.“ [7]
- “GRILOS - Lugar da freguesia Arazede, concelho de Montemor-o-Velho.“ [7]
Entre os jogos populares infantis, existe um jogo, conhecido por “Jogo do grilo”, que envolve rimas infantis e que é jogado assim:
Uma criança pede a outra, que está à frente de uma fila indiana:
— Dá-me um grilo?”
Esta, responde-lhe:
— “Vá lá atrás pedi-lo.”
— “Se o pilhar ou não
Meta a mão no caldeirão.”
O primeiro corre então rapidamente para o fim da coluna e procura agarrar o último, que por sua vez tenta alcançar a posição dianteira. Se este o conseguir, o jogo reinicia com o mesmo jogador a pedir o grilo. Porém, se for agarrado é ele que tem de pedir o grilo, enquanto que o perseguidor passa para o último lugar. O jogo que deve ser praticado com rapidez, termina quando o que inicialmente era o último, chegar a primeiro. [5]
A TERMINAR
Só os grilos machos produzem sons, o que fazem visando atrair as fêmeas para a reprodução. Para o efeito, possuem uma série de pelos nas bordas das asas, alinhados como pentes, produzindo sons quando roçam uma asa contra a outra. O som emitido tem a frequência de 4 as 5 KHz e pode ser ouvido a quilómetro e meio de distância.
Em muitos países como Portugal, o grilo sempre foi considerado como animal de estimação, sendo mantido em cativeiro dentro de gaiolas, pelo que como param de cantar quando alguérm se aproxima, funcionam como detectores de ladrões.
A Bíblia contém referências ao grilo:
- “Poderão comer toda espécie de gafanhotos e grilos.” [Levítico 11:22]
- “Aí o fogo te devorará, a espada te exterminará; ela te devorará como o gafanhoto, ainda que fosses numeroso como o gafanhoto, e te multiplicasses como o grilo.” [Naum 3:15]
Nalguns países, os grilos são criados em larga escala para serem vendidos como alimento vivo e serem usados como isca em pescarias ou consumido como iguaria em restaurantes exóticos. Pela nossa parte, habituados à excelência da gastronomia alentejana, dispensamos tais iguarias e preferimos ouvir cantar os grilos nos campos e em liberdade, o que é cada vez mais difícil, dado o uso intensivo de pesticidas e herbicidas. A vida está cada vez mais difícil no planeta Terra, mesmo para os grilos.
BIBLIOGRAFIA
[1] – ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. I Volume. Editorial Verbo. Lisboa, 2001.
[2] - ARTMUSICA .
[3] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho- Editor. Lisboa, 1901.
[4] – CARDOSO, Fernando. Novíssimas Flores para Crianças. Editora Portugal Mundo. Lisboa.
[5] - COELHO, Adolfo. Jogos e Rimas Infantis. Magalhães e Moniz Editores. Porto, 1883.
[6] - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III, 1882. Porto, 1882.
[7] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[8] – GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Vol. 12. Editorial Enciclopédia, Limitada. Lisboa, s/d.
[9] - GRANDE DICIONÁRIO. Porto Editora. Porto, 2004.
[10] - GUERREIRO, M. Viegas. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[11] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[12] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882.
[13] - LIMA, Fernando de Castro Pires de. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[14] - NIZA, Paulo Dias de. Portugal Sacro-Profano. Parte I. Oficina de Miguel Manescal da Costa. Lisboa, 1767.
[15] - NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[16] – PEREIRA, Maria Pereira (“Maria Carpinteira”), 62 anos, Daivões.
[17] – PEQUENOS MIRANDESES.
[18] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[19] - PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[20] – RAMOS, Francisco Martins e SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[21] - ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1841.
[22] - SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[23] – SILVA, António de Morais. Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa. Vol. V. 4ª edição. Editorial Confluência. Mem Martins, 1988.
[24] - SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

     Hernâni Matos


Gaiolas de bunho, cana e arame (Colecção de Manuela Mendes).

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