sábado, 24 de agosto de 2013

Cappas Insectozoo (Vila Ruiva)



Quem passa junto ao número 40 da rua 5 de Outubro, em Vila Ruiva, dificilmente imagina o que se passa por trás dos muros e das janelas da antiga casa agrícola de dois andares, grades nas janelas e barras vermelhas. Palco de guerras civis e regicídios, o museu vivo de insetos sociais, Cappas Insetozoo, funciona naquela freguesia do concelho de Cuba. Um verdadeiro mundo de insetos que vivem em sociedade e que são o universo do criador do espaço.

Na rua do museu, não fosse o silêncio profundo da tarde quente e um sinal daquilo que estaria para vir passaria despercebido: o zumbido de algumas abelhas ouve-se no meio da calmaria, voando em torno dos carros estacionados à sombra. Estes insetos, a par das vespas, formigas e térmitas, são as principais estrelas do museu criado em 1998 por João Cappas e Sousa. A particularidade do espaço está na observação de espécimes vivos destes insetos sociais, com regras, comportamentos e hierarquias perfeitamente definidos nas colónias onde vivem.

Quem entra no quintal traseiro da casa, guiado pelo mentor do espaço e investigador autodidata, tem logo a primeira lição: as árvores e flores estão colocadas para servir as abelhas e vespas, proporcionando-lhes, junto às colónias, tudo o que precisam para viver. E, assim, voltarem sempre às colmeias que servem de estudo e exposição. "Tudo o que está aqui não é por acaso, apesar de parecer uma mata desorganizada: tem tudo plantas específicas para ter flores próprias na altura certa". A flor de maracujá é uma delas porque é visível às abelhas, que percecionam entre o azul e o ultravioleta. "É uma cor chamativa", afirma João Cappas e Sousa, importante no processo de polinização. "Tenho plantas do mundo todo de forma a assegurar as necessidades dos insetos durante todo o ano". Insetos sociais que são a base para o equilíbrio ecológico envolvente.

O Cappas Insetozoo, museu vivo de insetos sociais, surgiu há 13 anos visando vários objetivos: a educação ecológica dos visitantes; a divulgação dos insetos sociais; a preservação de espécies em extinção; o proporcionar de material para investigadores; ou o resgate de conhecimentos antigos sobre os insetos sociais. E surgiu pela vontade de João Cappas e Sousa, estando hoje registado como centro de pesquisa de insetos sociais, algo "único no mundo". Colaborando frequentemente com universidades, o conhecimento autodidata do investigador não o fragiliza entre os académicos. A justificação é dada pelo próprio. "Tenho tanta base científica como os outros ou não conseguiria fazer isto. Chego ao pé de um e digo que está errado por isto ou por aquilo. Não é dizer que não concordo, mas que não bate certo com uma série de coisas porque há muitas falsas verdades na ciência".

A visita continua. A primeira sala tem três expositores de abelhas, ligados ao exterior por orifícios através de uma parede permitindo aos insetos a sua livre circulação. Nada mais do que baldes ou caixas de madeira cobertos de terra (por se tratarem de espécies subterrâneas), que acolhem as abelhas, desenhados pelo proprietário, designer de formação. "Um investigador não consegue desenhar um modelo. Um designer faz um projeto todo bonito mas desadequado aos fins. Juntar os dois é uma guerra". As abelhas subterrâneas e sem ferrão, espécie extinta na Europa e presente noutros pontos do planeta como África ou Índia, entram e saem das suas colmeias de cativeiro sem o saberem. Os potes cheios de mel, os favos estratificados e construídos por camadas são bem visíveis. E a labuta das abelhas também, indiferentes a quem as observa.

As abelhas sem ferrão assumem algum protagonismo no estudo do investigador, no sentido de garantir a flora natural portuguesa. "A nossa abelha está em perigo e a desaparecer. Sem abelhas não há polinização, sem polinização não há comida e este centro de pesquisa está a estudar abelhas sem ferrão que possam viver em Portugal". Para João Cappas e Sousa, o uso sistémico de inseticidas nos campos é a principal causa do desaparecimento, por atacar o sistema nervoso dos insetos. Assim, para além do aspeto lúdico da exposição, o insetozoo tem muitas espécies de abelhas estrangeiras servindo de base de estudo, passando-se o mesmo com os restantes insetos.


Motins e regicídios Na sala seguinte está o projeto que esteve na origem da criação do museu de insetos vivos em Vila Ruiva. Apesar da presença de abelhas e vespas solitárias, é o Formigueiro Messor que chama a atenção de quem entra no espaço. O tamanho do expositor e a complexidade de túneis e canais do formigueiro traduzem-se no projeto mais notório do espaço museológico. Em 1988, dez anos antes da inauguração do museu em Vila Ruiva, João Cappas e Sousa começa a construção do Formigueiro Messor, a pedido da Fundação Calouste Gulbenkian, para integrar o Centro Artístico Infantil, inaugurado em 1989 e onde esteve durante 12 anos. "Como o formigueiro tinha que ter uma série de requisitos, tive que encontrar, antes de mais, uma espécie que se adequasse ao pretendido. Depois passei uma tarde inteira para encontrar a rainha, que foi capturada em Lisboa, entre as Olaias e o Areeiro, num formigueiro com dois anos de idade. E a última a apanhar foi a rainha".

A rainha morreu em 2010 com 25 anos de idade e a colónia está em declínio. Neste momento quem comanda o grupo é um soldado, que chegou ao poder através da decisão da elite das formigas. "É a elite que comanda a colónia. Se entender que a rainha se está a portar mal, mata-a". Ideia que contraria um pouco o mito de que existe uma rainha e as trabalhadoras, quando na verdade "há uma elite e uma classe trabalhadora". Para além da estratificação em classes, as formigas vivem numa sociedade muito parecida com a humana: comunicam, transmitem conhecimentos, cumprem regras, fazem guerras civis ou regicídios, têm zonas distintas onde comem, bebem, onde fazem o "pão de formiga" (sementes humedecidas e mastigadas em conjunto) ou cemitérios, onde depositam as formigas que morreram.

Subindo ao primeiro andar e deixando o piso térreo, uma espécie de antecâmara do museu propriamente dito, os visitantes chegam às salas principais. Dois espaços repletos de formigueiros e termiteiras, espécie de aquários onde se podem observar os comportamentos dos inseto no exterior e no interior dos formigueiros. Lateralmente, encontra-se um género de biblioteca do museu. As estantes dos móveis estão repletos de livros, revistas, brochuras e imagens de insetos ou plantas. Bichos-Pau ou Baratas de Madagáscar observam a partir dos seus expositores e de forma estática o ambiente que os circunda. As baratas estão na origem das térmitas. Já as abelhas, vespas e formigas tiveram como antepassado uma vespa primitiva. Todo o espaço é sobre insetos e os insetos dominam todo o espaço.

Quase ao final da tarde chega um primeiro grupo de visitantes, de seis pessoas: duas senhoras e quatro jovens. Passados alguns minutos chega um segundo grupo de mais cinco pessoas, pais, avó e dois filhos. João Cappas e Sousa explica com entusiasmo o relacionamento social dos insetos, mostra as colmeias e os formigueiros. Visivelmente contente e bem-disposto, vai avançando com os visitantes entre os expositores e as espécies, desfiando curiosidades. Lá fora, a tarde já vai mais fresca e as abelhas vão entrado e saindo do museu, explorando as ruas de Vila Ruiva.
http://www.cappas-insectozoo.com.pt/index1.html