quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Pão da nossa terra...


O pão é elemento essencial na gastronomia alentejana, faz parte da identidade cultural do nosso povo.
Ainda antes das planícies alentejanas se encheram de searas douradas e do Alentejo ser o celeiro de Portugal, já o pão era sustento destas gentes.
Feito para durar mais de um dia, ele basta para surgir uma cozinha rica, saborosa e acessível. Com um fio de azeite, coentros ou poejos surge um dos pratos mais característicos e variado desta zona, a açorda.
A ocupação moura em Portugal influenciou nestas paragens a forma de comer o pão. Uma das mais antigas receitas muçulmanas - o tharid ou târida - já fala do pão mergulhado num caldo aromático e temperado com azeite, ao qual ainda se podia juntar carne ou vegetais. É o primórdio das açordas, migas ou ensopado alentejano.
Mesmo antes da refeição o pão é o rei da mesa acompanha os queijos, os enchidos e as azeitonas e é um óptimo companheiro do vinho. No final pode ainda ter a sua versão doce numas saborosas fatias douradas.
O pão alentejano é entrada, prato principal, sobremesa e coisa indispensável para a bucha de toda a hora.
                                              -Texto do compadre Luis Lobato de Faria.


Na minha terra cheira a terra: molhada depois da chuva ou seca a abrir caminhos que não existiam. Na minha terra cheira à palha seca, ao estrume que é morte e vida e tudo de novo. Na minha terra cheira à lareira apagada, a cinza habitando as paredes à sua volta. 

Nesta terra que é a minha e de quem eu sou no avesso de mim, cheira às boninas do campo, as mimosas, as chagas de cristo, as papoilas em fogo, beijadas pelo sol de Agosto. Na minha terra o cheiro é de gente, de corpos suados, colarinhos sujos, botas enlameadas. Cheira a queijarias e cabras e ovelhas nos quintais.

Deito-me e acordo na minha terra com o fundamental cheiro do pão. De noite, tapado, abafado em mil panos quase o ouço crescer, fazer-se grande no breu e no silêncio. De manhã desperto com o sopro vital nas narinas vindo desse deus maior que o tempo: o pão que coze e estala e abre fendas no seu rosto perfeito.

Com o dia a fazer-se pequeno o pão vai operando os seus milagres e multiplica-se para alimentar todas as bocas que se abrem para ele. O pão que é hóstia sagrada e que também se banha despudoradamente em caldos salpicados de ervas cujos nomes se vão perdendo nas idades do mundo. O pão onde se derrama o azeite quente, luxuriante, dando-se ainda por vezes requintes de polvilho de açúcar.

O pão cheira a pão e só quem sabe o que isto é pode dizer que viveu verdadeiramente. Porque é na lenha do forno, qual útero fértil, que se gera a vida, que se alimenta a Humanidade antes mesmo que ela se lembre.

A minha terra é célula apenas, de uma vida bem mais complexa. No entanto, para mim, é só dela este cheiro do pão que me acolhe, me mima, me alimenta, muito antes de viajar dentro das minhas entranhas.

Cheira a filhos paridos com dor, cheira a caminhos longos, a paisagens desoladoras, cheira a ocasos roxos, cheira à pólvora dos foguetes em dia de procissão, cheira a paredes caiadas de branco. cheira a porcos enfrentando o digno destino final sob o fio da faca, cheira a lajes lavadas com água, a dias quentes e a noites geladas.

Na minha terra, o pão cheira à minha memória e leva-me a ela, onde quer que me encontre.

Ana Terra- " O Pão Da Terra"