domingo, 22 de dezembro de 2013

O Ti Domingos e o seu cão Piloto


Foi numa deslocação ao Alentejo que conheci o senhor Domingos. Conheci-o naquela tarde e nunca mais o vi. É possível até que já tenha falecido; ele era já muito idoso nessa altura, mas não consegui esquecê-lo e ainda hoje o vejo apoiado ao cajado, uma manta rota sobre as costas curvadas, o rosto magro e cheio de rugas, a barba rala e aqueles olhos encovados, muito claros, que nos olhavam com uma expressão amiga, como se nos conhecêssemos há muito tempo e entre nós não pudesse haver segredos.
 Era pastor de uma herdade onde eu estava de visita, devido a uma actividade profissional que exerci numa empresa agro-pecuária como conselheiro, e foi o acaso de uma venda de gado que proporcionou o nosso encontro. Vendedor e compradores tinham decidido ir apartar as ovelhas para uma próxima feira e lá fui com eles ao monte, onde, próximo, o gado andava na pastagem.
 Pareceu-me que ele simpatizou logo comigo e enquanto os outros foram tratar do negócio ficámos os dois a conversar, ele apoiado no cajado, eu encostado num chaparro à sombra. Ao começo pouco dissemos. Falou-se do tempo, do gado, das crias, mas a conversa parecia a cada momento emperrar. Habituado à solidão, as palavras saiam-lhe com custo e os silêncios prolongavam-se, sem que isso parecesse incomodá-lo, como me acontecia. Foi precisa a chegada de um novo personagem para tudo se normalizar entre nós e eu conhecer verdadeiramente o "tio" Domingos. Essa personagem foi o "Piloto".
 Chegou vagarosamente junto do idoso, veio depois cheirar-me e por fim sentou-se, cabeça baixa, olhos mortiços. Vi o "tio" Domingos fazer-lhe uma festa na cabeça e com tanta ternura foi feita a carícia que isso me impressionou.
 - Vá, amigo, descansa um bocado - disse ele, com voz branda.
 Depois tirou da sacola um grande naco de pão, perguntou-me se era servido e, partindo-o ao meio deu a parte maior ao cão e começou a trincar o resto.
 Tudo aquilo tinha sido feito com tal simplicidade que o gesto ficou-me nos olhos e quase me comoveu. Não que fosse extraordinária a partilha, mas ela pareceu-me vir tocada de tanta ternura que fiquei a olhar os dois com muita simpatia. Já não sei se naquele momento disse alguma coisa, ou se ele adivinhou o que se passava comigo, mas os olhos brilharam-lhe de um fulgor estranho e a expressão modificou-se-lhe.
 - O senhor gosta de cães, não gosta?... - perguntou.
Disse-lhe que sim e na cara encarquilhada de rugas vislumbrei um sorriso de compreensão.
 - Eu só gosto deste... - disse, num encolher de ombros, onde parecia haver um desalento. - Somos companheiros há dezoito anos...
 E o "tio" Domingos começou a falar. Agora já não era nada aquilo que ali via: o "Piloto" fora o melhor cão de pastor que conhecera. Era vê-lo quando era novo; não havia ovelha que saísse do rebanho, nem um palmo de terra adiante, chegava a trazê-las quase de rastos, os pelos presos ao dentes! Sim, aquilo é que era um cão pastor, fiel! E o cuidado que ele tinha com as crias?... Era vê-lo a defendê-las das marradas de alguma ovelha brincalhona... não, como aquele, não havia outro!...
 - Estamos velhos os dois... mas não quero mais nenhum... - e o "tio" Domingos limpava com a manga do blusão talvez um pingo do nariz, não sei, ou alguma lágrima indiscreta.
 Eu ouvia-o, e era comovente aquela amizade. Anos e anos, longe de tudo e de todos, o céu e a planície sempre nos olhos, e ele e o 'Piloto' juntos, como dois companheiros que se amparam na solidão. Mas havia uma tragédia. O "tio" Domingos sabia bem como o pobre cão estava velho. Mais um mês, mais dois, talvez um ano, e seria o fim: a morte. Que faria ele depois?... Não era um cão que morria, era um companheiro que ninguém podia substituir.
 - Não... o senhor não pode saber o que é... é preciso ter vivido como eu vivi com ele... e o "tio" Domingos olhava o 'Piloto', abanando a cabeça desalentado, um nó na garganta a impedi-lo de falar.
 - Ele compreende tudo o que digo, acredite... temos conversas longas os dois e eu sei que ele me entende... até adivinha que estou doente... vem para o pé de mim, lambe-me as mãos, como se estivesse a dizer-me: deixa-te estar... eu vou, eu sei que não estás bem... fica aí, eu vou. Não. O senhor não pode compreender... quando ele morrer, fico para aqui perdido, sem ninguém...
 Foi nesse momento que lhe vi uma lágrima deslizar pelas faces cansadas. Era Verdade. O senhor Domingos chorava.
 - Não. Quando ele se acabar, ninguém vai tomar o seu lugar. Não quero!... Prefiro ficar sozinho...
 E num gesto de cansaço, onde havia toda aquela ternura humana que existia dentro dele, e que era grande, fez uma festa no velho cão, que, como num mudo agradecimento, se encostou a ele.
 - Não... depois de ti, meu amigo, não quero mais nenhum... está descansado... tu sabes que é verdade...
 No rosto do "tio" Domingos havia lágrimas ao dizer aquilo...

 Nunca mais o esqueci.

Foto e história: alfobre.blogspot.pt