quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Herdade das Murteiras (S. Bartolomeu do Outeiro)





O Alentejo Central é uma das grandes regiões megalíticas da Europa, com perto de um milhar de monumentos conhecidos (sobretudo construções funerárias, de vários tipos,  para além dos menires e recintos megalíticos), alguns deles com dimensões excepcionais.
O roteiro da Herdade das Murteiras integra, num espaço muito restrito, diversos vestígios de actividade quotidiana e ritual, nomeadamente povoados e monumentos megalíticos, revelando uma dinâmica de ocupação do espaço e uma continuidade cultural – mais ou menos intermitente - que abarca vários milénios.
Contextos: o tempo e o espaço
O megalitismo é um fenómeno que, na sua origem, se relaciona com o aparecimento das mais antigas sociedades neolíticas - os primeiros pastores e/ou agricultores.

Em Portugal, as últimas comunidades de caçadores-recolectores parecem ter-se concentrado, há cerca de 8000 anos, junto aos estuários do Tejo e do Sado. Nessa época, o Alentejo Central era um território virtualmente desabitado, constituindo o hinterland, na fronteira entre os territórios dos grupos instalados junto aos estuários.
Com a revolução neolítica, que veio afectar profundamente o modo de vida das populações, instalaram-se aqui os primeiros povoados sedentários e foram erguidos os primeiros monumentos megalíticos, há mais de 7000 anos; no entanto, a maior parte deles foi efectivamente construída numa fase mais avançada, de crescimento demográfico e expansão territorial, ao longo do IV milénio antes de Cristo.
Os diversos tipos de monumentos megalíticos, funerários ou não, têm em comum o uso de blocos de pedra de grandes dimensões. São estruturas concebidas para durar e marcar irreversivelmente as paisagens e, por isso, não admira que muitas tenham sido incorporadas no universo ritual das épocas subsequentes.
A Herdade da Murteira de Cima localiza-se numa paisagem rural muito bem conservada, na fronteira entre uma mancha granítica, de relevo algo movimentado e com montado denso de sobro e azinho, a Sul, e uma área mais aberta e aplanada, geologicamente diferenciada e com maior vocação agrícola, a Norte.
Por outro lado, este território relaciona-se, de perto, com a linha que separa as bacias hidrográficas do Guadiana e do Sado e que constitui um dos principais caminhos naturais da região. Foi precisamente junto de uma dessas linhas, a que separa o Tejo do Sado, que se implantaram alguns dos mais extraordinários monumentos megalíticos do Alentejo.
Em termos de visibilidade, a Herdade das Murteiras aparece claramente virada para essa paisagem ancestral; de facto, a partir do povoado das Murteiras, o horizonte estreita-se para Sul, mas alonga-se notavelmente para Norte, incluindo, na verdade, um amplo arco que se estende de Leste a Oeste, entre a serra de Monfurado (em cuja borda se localiza o recinto dos Almendres), e a serra d’Ossa. No centro, destaca-se o povoado neolítico do Alto de S. Bento, adjacente à cidade de Évora.







Povoado das Murteiras: um miradouro natural sobre a paisagem de Évora

1. Do cimo do cabeço onde se localiza o povoado neolítico, avista-se a silhueta da cidade de Évora, centrada no horizonte distante; em redor, estendem-se os territórios de alguns dos grandes sítios da Pré-história e da Proto-história regionais.
Para Noroeste, destaca-se o perfil da serra de Monfurado, que emoldura referências fundamentais como são a gruta do Escoural, o recinto dos Almendres ou a Anta do Zambujeiro; a Norte, desenha-se o contorno do povoado do Alto de S. Bento, junto a Évora; finalmente, no quadrante NE, avista-se a Serra d’Ossa, onde sobressaem os antigos castros do Castelo, de S. Gens e de Evoramonte.
Este último é o maior povoado proto-histórico da região e provavelmente foi abandonado no contexto da fundação da cidade de Ebora Liberalitas Iulia, pelos romanos, na segunda metade do século I antes de Cristo.
2. Na área mais imediata, a Norte, o povoado domina visualmente o espaço onde se localizam os monumentos funerários neolíticos da Hortinha e da Murteira de Cima. Trata-se, por outro lado, dos terrenos com maior vocação agrícola, na Herdade das Murteiras e que, na verdade, se prolongam até aos arredores da cidade, entremeando terrenos desarborizados, e montados mistos de sobro e azinho.
No local, e na paisagem que se estende, em degraus ascendentes, para Sul, domina o montado de sobro, em simbiose com uma geologia fantástica, de enormes afloramentos granitos.
Um dos melhores troços paisagísticos da região.