quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Portugal aqui tão perto...



A vida faz-se a cada gesto, a cada passo, a cada atitude. A agricultura de subsistência e a criação de animais nas aldeias portuguesas é esse gesto, esse passo, essa atitude. Há um lugar onde o trabalho do campo dita o modo de vida das pessoas. Esse lugar são muitos lugares, nesse Portugal esquecido por muitos que está tão vivo como as industrias, o comércio e as cidades.
            A vida na aldeia começa cedo, quando os primeiros raios de sol perdem a timidez e se mostram à povoação e termina quando estes decidem repousar por de trás dos montes que a vista alcança. Os afazeres são muitos. Há animais para acomodar, há terrenos para lavrar, quintais para cuidar, lojas para estrumar, lenha para acartar.
            Aos setenta e poucos anos de idade, o tio Herculano recorda os tempos de mocidade quando levava as ovelhas de monte em monte, serra em serra, fizesse chuva fizesse sol. Os animais precisavam de pasto e era ao seu encontro que guiava o rebanho acompanhado pelo cão. Por caminhos lamacentos, ingremes, mal formados, desbravava mato e chegava a ficar dias até regressar a casa para devolver os animais à corte para a ordenha. Palhoça e polainas impermeabilizavam-no das chuvas invernosas da montanha. Histórias de tempos idos, difíceis de acreditar e que hoje não se repetem na mesma medida. Apesar de confirmar tempos difíceis, a tia Albertina recorda com saudade os tempos das desfolhadas, das escanadas, da apanha da batata. Eram dias compridos de trabalho árduo é certo, mas também eram dias de reencontro e convívio. A aspereza do trabalho era afugentada pelos cânticos em coro que levantavam o ânimo e davam forças para continuar a jornada. Forças que também recebiam do farnel que partilhavam levado a horas certas por quem ficava em casa a prepara-lo e palmilhava quilómetros por caminhos serranos de cabaz na cabeça ao encontro aos merecedores destinatários. No final do dia carregava-se a carroça das vacas unidas por um jugo e que à força das patas percorriam caminhos por vezes difíceis de volta à povoação.
            É certo que os tempos são outros. A evolução varreu o país de norte a sul, do litoral ao interior. No entanto, em milhares de locais por esse Portugal a fora, a agricultura e a criação de animais continuam a fazer parte do quotidiano de povoações inteiras. Apesar de haver cada vez mais terrenos agrícolas abandonados, principalmente os de difícil acesso, assiste-se a uma resistência de quem depende desta actividade para viver o seu dia-a-dia.
            Gostava que aceitasse o meu convite e viesse comigo conhecer pessoas que fazem da sua labuta diária a bandeira das suas vidas. Pessoas que limpam o suor do rosto para voltar a erguer a enxada, que ensopam os pés na lama abrindo labirintos hídricos com o sacho por entre canas de milho e estacas de feijoeiros, que acomodam o vivo que cresce nos corrais. Venha comigo conhecer pessoas que fazem do nosso país, Portugal.





































 
Copiado integralmente do blog do nosso compadre Bruno Andrade, http://portugalatp.blogspot.pt/