sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Terra. A Solidão...

Terrenos, planuras quase totalmente despidas de vegetação arbustiva e arborícola, afeiçoados durante séculos pela inclemência do clima e pelo constante rasgar do arado, trouxeram ao Alentejo a imagem do isolamento e das longas distâncias a que se encontra, lá fora, o mundo.

Descobrir, hoje, esta terra promissora, da Barragem de Alqueva e das suas subsidiárias, do Porto Marítimo de Sines, do Aeroporto de Beja, da Mineração, do Mármore, da Cortiça, dos Lacticínios e da Agro-Pecuária, do Artesanato e das Auto-estradas, além naturalmente dos empreendimentos de Turismo Rural que proporcionam bem estar a quem deles pode usufruir, é descobrir uma terra de projectos políticos, económicos, sociais, culturais e lúdicos, em constante conflito entre o que tem e o que lhe é imposto e as suas verdadeiras necessidades.



É obrigatório, como homenagem ao povo alentejano, relembrar a quem nos visita que, nesta terra agora tão procurada pelo seu pitoresco, quiçá, pelo seu exotismo, os camponeses foram mártires do trabalho árduo, e de algum modo ainda o são, nunca foram proprietários de coisa alguma, nem donos da sua própria vida e que os montes não eram de facto locais de lazer. Até de alguns lavradores se pode dizer também que a sua vida era a terra esboroada, de parca condição produtiva, de comezinho desabrochar; de outros e da sua riqueza poder-se-á dignificar a justiça do seu trato. Porém, todo esse ambiente era propício à introspecção, à intimidade com a natureza, à observação atenta –“matutada”- da contingência da vida.



O Alentejo foi e é terra de êxodo, de saudade, desamparo e solidão. Ninguém “abandona” a sua terra se a isso não for obrigado, e, saindo dela, ironicamente contribui para a melhoria dos que ficam. Não havia nem há trabalho para todos e, para a maioria daqueles que actualmente trabalham é difícil viver e expressar com ânimo um sorriso.



Do Alentejo se pode falar de tudo: de imensidão, de fartura, de desertificação, de abandono, de beleza, de sedução, de pobreza, de tradição, de história, de emoção, das coutadas, de searas e restolho, de mondadeiras e ceifeiros, de sede e fome, de terras brancas, amarelas, vermelhas e escuras, do pegajoso das estevas de frágeis pétalas brancas e do cheiro do rosmaninho, da expectativa e da frustração.



Podemos ouvir o poeta alentejano cantar o encanto e o desencanto, como necessidade e como arte, até com graça, mas nunca com ligeireza. A sua voz, em uníssono, a todos sensibiliza e nobilita, singularizando de tal modo a coisa mais simples e comum que, por artes “mágicas”, ela se torna incomparável a qualquer outra. É verdade, o alentejano tem um condão especial para considerar belas as coisas mais vulgares e perverter-lhes o sentido ao encurtar qualquer caminho: é já ali… e não há que desanimar mesmo que não seja.



Um conselho ao nosso estimado leitor: saia da cidade e ondule pelos campos o seu olhar, pare no meio deles, não precisa de guardar o rebanho, mas observe o pastor (já há poucos!) e se possível fale com ele. Verá, então, em seu redor a poesia e sentirá a solidão e o recolhimento, quase religioso, de quem sabe desde há muito o modo como o seu corpo em vida já, antes da morte, se misturou com a terra.



Publicado pelo compadre Leonel Borrela in Diário do Alentejo de 5 de Outubro de 2007

Retirado do Blog: http://paxivlia.blogspot.pt/