domingo, 28 de abril de 2013

Ti Zé Pingalho


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Neta de Mineiro, a Mina nunca foi nada de escabroso para mim. O meu avô tocava bandolim, fazia armadilhas e piões. Tinha dezenas de gatos a chamava "seus" e os chamava para comer as sobras das refeições. Oferecia uma música de banjo a quem lhe comprava um pião ou armadilhas para os pássaros.
 Mas conheci o meu avô já quase reformado e coxo por uma vagoneta lhe ter despedaçado uma perna. Para mim, criança, era algo normal e via-o fazer piruetas mesmo assim. Não percebia que ele já tinha sido diferente... ele tinha uma casinha onde guardava os instrumentos da horta, fazia os piões, as armadilhas e tocava "banjo". Bebia como todos os mineiros e muitas vezes levava-me ao seu escritório: o "polvarinho", onde apesar de expressamente proíbido de fumar, fumava atacando os barrenos, aquelas coisas que tinham um cheiro tão cativante para mim. Eu ficava lá com ele, dentro daquela barraca escura, húmida, vendo as movimentações das máquinas e das pessoas, enfiando a cabeça nos braços ou correndo desalmandamente quando ouvia o aviso de que iria haver explosão. O Velho Pingalho ria-se com os seus dentes certinhos. Aquele sorriso era um sol a brilhar no escuro, a promessa de que estava tudo bem. Com dois anos eu via os homens empurrarem as vagonetas poço acima, poço abaixo e ele contava-me que tinha feito aquilo, que era muito forte e que antes também tinha andado no fundo da Mina, quando era novo. Eu pensava: também quero ser mineira!
 Nas horas mais paradas ele lia-me o seu eterno Lunário Perpétuo que ainda conservo com as suas anotações em linda caligrafia. As datas de nascimento, morte, casamento, dos entes queridos e até algumas datas de sementeiras boas.
 O meu avô foi um Mineiro até morrer no verão de 1976. Passou dias deitado numa agonia terrível, comigo por companhia. Numa tarde em que me pediu que lhe enrolasse um cigarro da onça Águia, disse-me gemendo de dores: " O avô morre, mas a vida continua, deixa-me fumar". Os seus olhos estavam muito pequeninos. Dei-lhe o cigarro. Puxou uma baforada e falou de novo: " Fiz disto a minha terra, não faças dela a tua, Joana". Levou a mão ao coração, um gemido mais forte e o cigarro caiu ao chão. Uma lágrima deslizou no seu rosto já sem cor. O meu avô, Zé Pingalho, foi um duro, um herói...um ser humano, apenas um ser humano... um entre tantos.
 Se entrar naquele quarto que ainda deve existir, vou ver-me a dizer-lhe baixinho: "Não morras, avô, não morras ainda. A Joana ainda não veio, espera por ela".
 Vou ver uma criança atarantada procurando o tabaco para ver se ele ainda queria fumar, para lhe prolongar a vida mais um pouco, só mais um pouco... a vida ignorada do Ti Zé Pingalho, meu avô mineiro.

Texto gentilmente cedido pela comadre Maria João Gomes



    Blog dos compadres de Grândola: http://juntarforcasgrandola.blogs.sapo.pt/3264.html?page=2

A Mina do Lousal (ou Louzal) e a respectiva aldeia mineira correspondem a um antigo couto mineiro explorado desde o final do século XIX. Localiza-se na freguesia de Azinheira dos Barros e São Mamede do Sádão, concelho de Grândola, distrito de Setúbal, Portugal.
A mina tinha ligação, desde 1915, ao designado Ramal do Sado, actual Linha do Sul.