domingo, 20 de outubro de 2013

Comporta


Comporta está na moda, dizem os habitantes, por tantos turistas que chegam diariamente. Os campos de arrozal continuam a ser o ganha-pão de muitos, mas há outras culturas a surgir e a terra, plantada à beira do Sado e da costa oceânica ainda é, essencialmente agrícola, mas também piscatória. E turística, claro.

Texto Bruna Soares Fotos João Mendes

Pinheiros abeiram-se à estrada. Uma reta a perder de vista. Carvalhal e depois, finalmente, Comporta. Na estrada um ou outro restaurante, com gente nas esplanadas. Campos de arroz, a cultura mais enraizada na freguesia. O ganha-pão de muitos. E turistas, tantos.
“A Comporta mudou 1000 por cento. Quando nasci não havia aqui uma pedra. Era só areia, barracas de junco e de madeira. Foi a mudança total”, afirma Albano Oliveira, sentado no seu quintal, depois do almoço e abrigado do sol. Vive em Comporta há 70 anos, nado e criado.
É do tempo em que não podia dizer que era de Comporta, porque ninguém sabia onde ficava. “Quando fui à tropa perguntavam-me de onde eu era. Dizia Comporta e ninguém sabia onde ficava. Tinha de dizer que era de Setúbal, agora não há quem não fale e venha a esta terra”, conta, entre sorrisos. “Muitos, muitos turistas. E gente com poder de compra. Não vejo passar aqui carros como o meu, passam em brutas máquinas”, completa.
Maria Fernanda, outra habitante de Comporta, não tem dúvidas: “Esta terra está na moda. Houve gente que encontrou aqui um bom cantinho e tem vindo. Antes vivia--se muito mais da agricultura, agora vive-se muito também do turismo”.
O custo de vida, porém, segundo os habitantes, aumentou. “Isto hoje é bom é para os ricos. Só há um supermercado e não tem concorrência, logo os preços são o que são, muito elevados. Depois há restaurantes, uns muito mais em conta do que outros, porque há aí caros também”, afirma Maria Fernanda.
“Há pouco tempo houve aí um espetáculo musical e foi uma loucura. As ruas estavam cheias de gente, havia carros por todo o lado, um movimento sem fim”, remata Albano Oliveira.
Em direção à praia seguem carros e uma vez lá chegados encontram dois parques, sendo que um é pago. Há quem deixe o carro cá muito atrás, por falta de melhor lugar para estacionar, e se faça à estrada, de guarda-sol ao ombro e toalha em punho.
Para os habitantes de Comporta, “a praia é uma relíquia, bem preservada”. “Para mim a praia pouco ou nada mudou. Fizeram lá uma passadeira em madeira e tem dois restaurantes. Mas continuo a dizer que a praia continua como era, está igual. Tem areia limpinha, branquinha e água boa”, conta Albano Oliveira.
E, embora com o mar aqui à porta e o Sado como cenário, os habitantes dizem que “já houve mais pescadores”. Pescadores há, sim, em grande número em Carrasqueira, que fica a escassos quilómetros e que pertence à freguesia de Comporta. “Aquilo tem um caís palafítico lindo, digno de se ver”, rematam.
“As gentes aqui dedicam-se mais à agricultura. O arroz é o forte, mas há muitas outras culturas, como os pimentos, os morangos, a vinha, o milho e até relva, embora agora esteja a findar”, avança Maria Fernanda, enquanto troca umas palavras sobre o assunto com a sua vizinha, que, entretanto, se recolhe para retomar as tarefas do lar.


Os habitantes garantem que Comporta está “bem servida” e enunciam as mais-valias. Banco, junta de freguesia, posto médico, lojas, cafés, restaurantes.
“Comporta tem cada vez mais turismo e isso acaba por ser benéfico. As pessoas já preferem isto ao Algarve. É mais tranquilo e tem uma bonita paisagem e a praia é boa”, explica, por sua vez, Maria Manuela, outra das habitantes de Comporta. E acrescenta: “O turismo é que tem desenvolvido à terra. Há gente a alugar casa, mas ainda não há grandes empreendimentos, embora estejam previstos. Esta terra tem melhorado, está mais desenvolvida. Não tinha ruas alcatroadas, não tinha nada e o progresso tem chegado por causa dos turistas. Há muita gente de fora que tem comprado cá casa”.
Junto à sociedade recreativa sentam-se vários homens abrigados pela copa larga de uma árvore. Mas a maioria das pessoas que se encontram são de fora. “Gostam disto. Caiu em graça e depois há uns que chegam e gostam e dizem a outros, fazem propaganda e Comporta cada vez parece que tem mais gente”, diz um dos homens.
A terra está ligada à história da maior propriedade nacional (herdade da Comporta) detida por privados – o Grupo Espírito Santo. “São os donos da propriedade, está em zona turística. A minha própria casa foi comprada aos Espírito Santo”, explica Albano. E conclui: “Têm um grande plano de desenvolvimento previsto. A Comporta já mudou e ainda vai mudar mais”.


Património, atividades, geografia
Ocupa uma área de 154,8 quilómetros quadrados junto à costa oceânica e ao estuário do rio Sado. As principais atividades económicas da freguesia são a pesca, a agricultura, a indústria de preparação de arroz, hotelaria, panificação, comércio, serralharia civil, construção civil, marcenaria e carpintaria. O turismo tem vindo a ganhar peso, com novos investimentos na área. Como património, a Comporta tem a igreja matriz e a capela de São Pedro e recomendam-se como locais a visitar a margem do Sado, o parque de merendas, a Fonte da Abóbada, a zona do campo de aviação, o porto palafítico da Carrasqueira e os açudes de Murta e Vale de Coelheiros.



Copiado do Diário do Alentejo, http://da.ambaal.pt/noticias/?id=3784