domingo, 27 de outubro de 2013

Até mais ver,Ti António...





O velhote guardava numa enorme caixa de cartão muitas peças em cortiça feitas por ele próprio na sua juventude, nos tempos em que ainda tinha mãos para esculpir o "Couro das Azinheiras".
Eram Cochos e Tarros de vários tamanhos, algumas miniaturas de instrumentos agrícolas, mas o que me atraiu de imediato a atenção foram as miniaturas de carroças e churriões alentejanos, feitos com uma perfeição incrivel.
Explicou-me então que o Lar lhe ficava com o dinheirinho da magra reforma e nem para beber um copito tinha trocos no bolso: "É por caridade, amigo João, prantas isto na pratelêra, na me serveim pra nada."
"Então mas vê-se perfeitamente que isto foi feito com muito carinho, são recordações de outros tempos..."- disse-lhe, tentando dissuadi-lo de tal.
"Dás-me o que queseres, sê lá se quando morreri, isto na vai abalar prá lixêra..."
Se eu lhe comprasse aquelas obras de arte, estaria a preservá-las, assegurando-lhe alguma dignidade. E assim fiz por um preço justo.
Aquelas peças vieram para minha casa e ocuparam lugar de destaque na minha pequena colecção de objectos etnográficos.
E desde então, quando passava junto á minha porta, eu fazia questão de o convidar a entrar, beber um copo de vinho tinto e falávamos, falávamos muito de tempos idos, tempos em que ele foi jovem, típico trabalhador rural.
E os seus olhos voltavam a brilhar, deixava de ser o velhote que estava á minha frente...
Ás vezes, pedia-me para ver as suas peças. E lá ia eu buscá-las, zeloso guardião das suas recordações.
Depois de se assegurar que tudo estava como dantes, bem conservado, dizia-me satisfeito, á abalada:
" Até mais ver, João..."


Dedicado ao meu amigo Ti António do Tiro, falecido em Agosto de 2013.
 "Até mais ver, Ti António..."

sábado, 26 de outubro de 2013

Lenda da Moura Encantada (Alcácer do Sal)


 Em Alcácer do Sal, conta-se a lenda de uma bela moura encantada. Os velhos dizem que em certas noites de luar, encostados aos muros do antigo castelo, ainda podemos ouvir a triste Almira suspirar, cantando, pelo seu D. Gonçalo...

Conta a lenda que, quando Afonso II conseguiu penetrar em Alcácer, os mouros fugiram apavorados ante a sanha dos cristãos. Naquela precipitação, uns atiraram-se das torres, outros fugiram de roldão pelas portas escancaradas e alguns utilizaram antigos subterrâneos só deles conhecidos. Na debandada geral, porém, uma menina ficou esquecida, ou, quem sabe, seus pais terão perecido. Mal falava, ainda. Sabia que se chamava Almira, mas pouco mais conseguia dizer. Às perguntas que lhe faziam, esbugalhava os olhitos negros, sem compreender por que razão não estava ali a mãe ou a ama. E, de repente, virava-se de costas para aquela gente que a interrogava, escondia a cara nas mãos e soluçava baixinho, sacudindo levemente os cabelos negros de noite como um manto de veludo.

Almira foi recolhida no castelo e criada como cristã. Parecia ter esquecido a sua ascendência e provavelmente esqueceu-a, porque ninguém lha lembrava. Foi crescendo rodeada de amor e, como era dotada para a música, aprendeu alaúde, que tocava como mais ninguém. O seu espírito irrequieto e sonhador pregou-lhe a partida de a fazer poetisa. E assim, com o alaúde e a sua poesia, rivalizava com qualquer trovador que pousasse no castelo, tirando sempre a vantagem do esquisito sentir que a tornava diferente. Havia nela uma tristeza ausente, feita de saudades do que não lembrava mas amava. E essa tristeza ausente fazia do seu corpo, espiga dourada, um desejo doloroso de quantos cavaleiros por ali passassem. E Almira deixava-os ir e vir. Observava os seus feitos guerreiros com um sorriso gentil. Honrava-os nos seus poemas, mas continuava sentada no seu trono invisível, sorrindo um sorriso longínquo, intocável, sempre. Até que um dia D. Gonçalo chegou a Alcácer do Sal.

Como qualquer outro cavaleiro, chegou em busca de honra e serviço. E como qualquer outro, também, veio para conhecer Almira e o seu sorriso. D. Gonçalo era assim, nem bonito nem feio. Tinha olhos, uns olhos tais que Almira desapareceu dos salões e nunca mais voltou a sorrir a ninguém do divã onde se sentava cantando tristezas ausentes. Uma dor estranha instalara-se como uma rosa desabrochando eternamente no seu corpo, na sua alma, em si inteira. Encostada ao parapeito da sua torre, Almira soltava no ar gritos de amor em cânticos melodiosos:

Pois é mais vosso que meu,
Senhor, o meu coração
Pois vossos cativos são
Meus olhos, lembro-vos eu.

Lembro-vos minha tristeza,
Que jamais nunca me deixa,
Lembro-vos com quanta queixa
Se queixa minha firmeza.

Lembro-vos que não é meu
O meu triste coração
Pois tendes tanta razão,
Meus olhos, lembro-vos eu.

D. Gonçalo ouvia, mas não se atrevia. Bem sabia D. Gonçalo que aqueles "meus olhos" eram seus. Até que, uma noite, D. Gonçalo ouviu e atreveu-se. Almira tocava alaúde baixinho, quase em surdina, como um suspiro interior. O cavaleiro, encostado às ameias do terraço da torre, ergueu timidamente a voz e os olhos, e cantou:

Mais digna de ser servida
Que senhora deste mundo,
Vós sois o meu deus segundo
Vós sois meu bem desta vida.

Vós sois aquela que amo
Por vosso merecimento,
Com tanto contentamento
Que por vós a mim desamo.

A vós só é mais devida
Lealdade neste mundo
Pois sois o meu deus segundo
E meu prazer desta vida.

Almira ouviu. Sentiu a vida fugir-lhe por um instante sem tempo. Depois, quando conseguiu voltar a si, endireitou seu corpo de espiga, olhou o cavaleiro e, sussurrando como um vento que mal toca a copa das árvores, disse, apenas:

- Oh! Meu senhor D. Gonçalo!

O resto não conta a lenda, mas diz quem sabe que, em certas noites de luar de Agosto, se ouve os sussurros dos dois amantes, que eternamente se quiseram encantados nas muralhas da velha Salacia Romana.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Feijão com Bogango



Ingredientes:

Metade de 1 Bogango partido em cubos
Feijão manteiga
Coentros
Salsa
5/6 Alhos pisados
Azeite
Louro
Sal

Faz-se um refogado com o azeite, os alhos pisados com os coentros, salsa e o louro, junta-se os cubo de bogango e deixa-se cozer em lume brando até o bogango estar meio cozido, junta-se o feijão e deixa-se cozer o resto verifica-se o sal e junta-se água qb para ficar com caldo para se juntar às sopas de pão. Divinal…

Cá para os lados do Alentejo chamamos-lhes “bogango”, mas há quem lhe chame também de “frade”. Muitas vezes é comum ouvir ainda os mais antigos aqui em Viana do Alentejo, chamar a este prato tipicamente alentejano de “feijão com frade”.
Mas afinal de contas o que isso de bogango? É uma espécie de abóbora e graças à polinização cruzada existem muitas espécies de abóboras, que podem variar em relação à suas cores, formas e texturas. Em outros locais do país há quem lhe chame também mogango ou abóbora-menina.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Alentejo Selvagem 2011 - Ricardo Lourenço Fotografia

 


Ricardo Lourenço nasceu a 21 de Dezembro de 1982, na cidade de Portalegre, Portugal. Viveu toda a sua vida em contacto permanente com o meio natural e foi através dessa simbiose que foi construindo a sua perceção do mundo. Em 2007, pelo fascínio de querer conhecer "in loco" a vida selvagem que o rodeava e a crescente paixão pela fotografia, aliou estas duas áreas e começou por captar momentos usuais de vida selvagem. Fotografia após fotografia, começou a dar mais importância aos processos, metodologias e produtos resultantes do seu trabalho. O mundo das aves, principalmente, aguçou-lhe o apetite por imagens singulares de vida selvagem em Portugal. Neste momento, desenvolve o projeto "Alentejo Selvagem" que consiste na promoção e valorização do património natural do Alentejo, utilizando a fotografia como veículo Com os seus trabalhos espera ajudar para o crescimento desta atividade no nosso país e sensibilizar para a conservação de espécies e espaços ameaçados.

Lagoa de Melides






 A Lagoa de Melides tem cerca de 26 hectares (também dispõe de praia fluvial). É considerada uma área de valor ecológico, por albergar uma grande diversidade de fauna e de flora, característica de uma zona húmida costeira, o que se reflete essencialmente na avifauna, com mais de duas centenas de espécies identificadas. E eu, sempre que tenho algum tempinho disponível, vou até lá.
Um dia, estava eu a fotografar um barco na Lagoa, apareceu-me um cão que parecia estar-se a rir.
"Bom", pensei eu, "o diabo do cão é simpático, não me deve morder..."
Depois apareceu o dono. Do cão e do barco.
"Bom dia", ambos dissemos ao mesmo tempo.
É agradável quando encontramos outro ser humano amistoso. Eu gosto muito e fico para ali a conversar...
O velhote explicou-me que mora junto á Lagoa e utiliza o barco para atravessar para a outra margem, para a pesca. Naquele dia tinha pescado dois sargos e já tinha almoço. Estava satisfeito, regressava porque não precisava de pescar mais. Talvez voltasse amanhã.
E eu invejei-o.
Quando eu for velho, também quero ter um barco, um cão sorridente a fazer-me companhia e dar-me ao luxo de pescar apenas o que conseguir comer...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Passeio pelo Lucefécit


Estação de Cuba







Há alguns anos, quando a automotora chegava á Estação de Cuba, era vulgar que do seu interior, grupos de jovens magalas gritassem em plenos pulmões com um inconfundível tom de galhofa: "Olha a manta, olha a manta!"
Invariavelmente, gera-se logo ali uma enorme confusão com os habitantes locais, que não achavam piada nenhuma á brincadeira. Trocavam-se muitos impropérios e insultos, ás vezes até havia porrada.
E só acabava quando o comboio apitava e partia rumo a Beja ou Barreiro.
E agora, perguntam decerto os presados compadres, qual seria a razão da frase "Olha a Manta, Olha a manta" se tornar tão ofensiva?
Eu passo a explicar-vos:
Quando um cavalo suava, era costume o tratador tapar o seu dorso com uma manta ou cobertor, para que não se constipasse e morresse de febre. Os cavalos eram um bem precioso na sociedade rural alentejana do Séc.XIX e tudo se faria para o seu bem-estar.
Quando se fez a Linha do Sul, os comboios eram a vapor e devido ao calor das suas caldeiras, parecia que suavam. Conta-se que quando se inaugurou esta Linha, muito povo se juntou na Estação de Cuba para ver a chegada da locomotiva, tanta era a curiosidade para vislumbrar o progresso que se avizinhava, o transporte do Futuro.
Acontece que a máquina vinha suada, muito suada.
E uma voz surgiu na multidão, gritando: "Tragam mantas, que ela constipa-se". Correram ás casas ali próximas, trazendo inúmeros cobertores e mantas, tapando e evitando assim que a locomotiva se constipasse...

Cuba - Igreja Paroquial de São Vicente

Situada entre olivais, junto à margem esquerda de um dos afluentes da Ribeira de Odivelas, Cuba é habitada desde épocas pré-históricas. Foi conquistada aos mouros por D. Sancho I e recebeu o título de vila, em 1782. Do povoamento remoto do concelho, ainda hoje subsistem alguns vestígios da cultura megalítica, nomeadamente duas antas nos arredores de Vila Alva, e o menir da Água.

Do património arquitectónico merecem especial referência a Ponte Romana, na freguesia de Vila Ruiva, que ligava Beja a Évora, a quinhentista Igreja Matriz de Cuba. Em redor, pequenas vilas e aldeias preservam a arquitectura tradicional, patente nas características casas brancas, caiadas, de um só piso, com as típicas barras coloridas, de que Vila Alva é o exemplo mais interessante. Guarda além do casario imaculado e capelas seculares, a Igreja de Nossa Senhora da Visitação, do século XVII, integrada na original Rota do Fresco - itinerário turístico destinado a divulgar a pintura mural religiosa alentejana. É que se no norte de Portugal, a decoração das igrejas é feita de talha dourada e de azulejos, a sul estas são caiadas de branco e pintadas com os pigmentos da natureza - azul cobalto, magenta e amarelo ocre.

Nomeadas, ainda, por Terras do Pão e do Vinho, todas estas freguesias de Cuba são marcadas - tanto ao nível da paisagem, como dos modos de vida -, pela produção vitivinícola e do azeite. Existem vários percursos organizados em torno do tema, proporcionando aos visitantes um périplo pelas adegas e lagares mais significativos da região.