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terça-feira, 17 de março de 2020

Nada de bejos...

Prantem-se quedos !...
E nada de bejos...
Tal moenga, héin ???

Cancele tudo e fique em casa. Por aqueles que fizeram tanto por nós. Por Portugal. Por todos nós. Temos de ficar um passo à frente do Coronavírus. Cancele tudo. 
Fique em casa.
 #Coronavirus #COVID19‬ #UmPassoàFrente

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Expressões Alentejanas (Letras B e C)


Terra de fortes tradições e de gente com muita alma dentro, o Alentejo tem ainda um número infindável de expressões típicas. Algumas delas acabaram, com o tempo, por se generalizar e são hoje usadas em todo o país, embora a sua origem continue a ser marcadamente alentejana. Divirta-se com a lista e dê-nos a conhecer mais algumas que você conheça!


Barriga de almece = Barriga grande/comilão
Bater o almoço/jantar =Almoçar/jantar
Bater uma sorna = Dormir a sesta
Bátega de água = Chuvada forte
Bem esgalhado = Bem feito/jeitoso
Bem falante = Educado/que fala bem
Berra com sal = Muito salgado
Boca do corpo= Vagina
Boia de carne = Pedaço de toucinho ou de enchidos de porco
Borregas nas mãos (pés) = Bolhas
Borregos do almece = Requeijão do atabefe


C
Cabras nas pernas = Manchas avermelhadas
Cada cabeça sua sentença= Cada pessoa com opinião diferente
Cheio de nove horas = Cheio de manias/miudinho
Cagou-se nisto ou naquilo = Desistiu de fazer algo
Cagar postas de pescada = Opinar sem fundamento
Chorar de rijo = chorar com força/alto
Chorar sobre o leite derramado = Lamentar-se por algo que não é recuperável
Chover a cântaros = Chover torrencialmente
Cai daí abaixo = Cai na patetice de
Cair de pantanas = Cair desamparado
Caíu ali = Foi ali parar inesperadamente
Caíu-se com = Atirou-se a algo
Cravou comigo no chão = Atirou comigo ao chão
Criança rabina = Criança traquinas
Campo da bola = Estádio de futebol
Céu cavado = Astro, com pequenos e muitos castelos de nuvens
Com fósquinhas = Hesitante/cerimonioso
Compor a casa = Decorar/arranjar a casa
Corela da avó = Expressão de desagrado
Corta Línguas = Tradutor

Copiado do site:  http://ncultura.pt/

sexta-feira, 14 de abril de 2017

"O Baile" - Crónica de Manuel Manços





Lentamente, a noite aproxima-se da aldeia, que depois envolve nas suas asas de azeviche enquanto, os rapazes, deixam a taberna para se dirigirem às suas habitações, e vestirem o melhor fato e o capote, porque a noite vai ficarfresca, e parados às portas, ou às janelas das namoradas, não será agradável, eles usarempouca roupa, enquanto as raparigas, impacientes vão deitando o olhar para rua, a ver se eles aparecem.
Os adolescentes, que já “olham para a sua própria sombra” e para raparigas,com o intuito de se fazerem insinuar e lhes agradarem, formam um pequeno grupo que vai de porta em porta, convidá-las para o baile, como é tradição, normalmente organizado por eles, mas instigados pelos mais velhos que comentam, que eles precisam de organizar bailes, para arranjarem namorada.
Sempre que entram numa habitação, os organizadores do baile falam com os pares de namorados e convidam-nos para a dança, sugerindo-lhes que fechem a “velha”, na despensa, para não serem incomodados por ela.
- Vocês sã todos iguais! Só querem estar à vontade com as raparigas. Para quêi…? Nã pensam senã nas poucas vergonhas!
- Vá lá, não se zangui..., a vida é assim. Não tem ouvisto aquele ditado antigo, que diz: “em que pensas tu porco?” Ele responde: “Na boleta!”. A gente semos a mesma coisa.
A tia Maria, com um sorriso nos lábios, responde, de imediato:
- Cabrão do rapaz, que me fizestis rir... mas tem cuatela com as bofatadas, porque elas nã tão pr’os aturar.
- Dexe isso com a genti. Elas até gostom...! Bem, a genti vem convindar a su Inácia p’ro balho de logo `noiti, dexá ir?
- Se ela quiser e o pai dela dexar... Mas onde éi o balho?
- Ela queri e o pai dela dexá ir, com certeza! O balho é no Monte das Serranas -
E saiem, satisfeitos. Casa onde haja raparigas solteiras, lá estão eles a bater-lhes às portas, a convidá-las para irem ao baile e a falar-lhes com malícia, principalmente quando elas ainda não têm namorado, provocando-lhes algum rubor que as deixa, por vezes, atarantadas. Depois, a meio das conversas, pedem mais um copo, do tinto, ou do branco, tanto faz.
As mulheres e os jovens que ainda não tenham ceado a tradicional salada de alface com chouriço assado, iriam faze-lo para, de seguida se dirigirem ao Monte das Sarranas.
A rua da aldeia, que dá acesso ao Monte, no Inverno é um autêntico ribeiro onde as águas correm por regatos sinuosos, em determinados locais, e noutros fica parada, originando poças e lameiros.
A pouco e pouco começam-se a ouvir as vozes das mulheres que saem de casa, “banhada de luz”, para a escuridão e iniciam uma sessão de pragas, porque não vêem onde colocam os pés. Se não fosse a porcaria do baile, estariam sentadas no sossego da lareira, e não tardaria a hora de irem saborear o quente dos seuslençóis – pensavam e comentavam elas.
Parece uma procissão, a caminho duma romaria: todas levam a sua cadeira enfiada num braço, ou às costas, enquanto os malandros dos gaiatos fazem corridas e, propositadamente, colocam os pés dentro das poças de água, e salpicam tudo o que se encontra nas imediações, provocando ainda mais ralhos às mulheres, porque ficam molhadas e desgostosas, por verificarem que os sapatos e os vestidos novos, de suas filhas, ficam, também eles, molhados e sujos de lama – provavelmente com menos brilho que os das suas vizinhas.
Durante o trajecto amaldiçoam, também, os rapazes, por que se lembram de organizar bailes numa época daquelas, com frio e ruas lamacentas,e o inconveniente de, no dia seguinte, terem de levantar-se demasiado cedo.
Mas o pior ainda estará para chegar, porque vão ter de atravessar um caminho velho, fora da povoação, ladeado de sobreiros e de oliveiras, onde se sucedem, também, as poças de água suja e sem uma luz, sequer, será uma aventura atravessá-lo.
Os gaiatos, mais uma vez “vão fazer das suas”. Juntam-se em grupos e escondem-se atrás dos troncos das árvores e quando elas passam,por perto, saltam-lhes na frente, e assustam-nas. Jamais elas terão imaginado que passeiam “almas penadas”, por aquelas bandas, por isso, saltam e gritam lívidas de espanto ede medo. Depois, quando reconhecem as crianças vem a risota juntar-se aos mais variados comentários, e só passados instantes, as mais velhas, arranjam forças para vencer o susto e o ataque de riso, inesperados, e tornam a pôr-se a caminho do Monte das Sarranas.
Entretanto, se algum gaiato tiver a pouca sorte de se deixar apanhar, leva uma tareia, ou um puxão de orelhas e elas continuam a dar pontapés nas pedras e a encostar-se umas às outras, porque levam as mãos ocupadas pelas cadeiras não se podendo equilibrar.
Inesperadamente, ouve-se o toque da concertina e toda aquela gente se alegra,e apressa o passo, para ver quem chegará primeiro ao Monte e entrará em primeiro lugar no recinto do baile, a fim escolher o melhor lugar mas, até lá, ainda uma ou duas mulheres vão varrer o chão molhado e lamacento da estrada, com o seu próprio corpo.
O tocador é o tio Ramalho, homem “a rondar os setenta anos”, considerado o melhor dos seus tempos e já se encontra sentado com a concertina sobre os joelhos, abrindo e fechando o fole harmonioso, de onde se escapa o maravilhoso som duma melodia, tão parecidaa outras que ele interpreta, que todas elas se confundem e, põe a cabeça daquela gente em polvorosa. O sexagenário segue com a cabeça, e de olhos fechados, o movimento que faz com os braços e imprime ao instrumento musical, como um sonâmbulo, ou talvez por estar já mecanizado, devido ao hábito, que nem a agitada e barulhenta entrada das primeiras mulheres o fazem mudar de posição.
Elas arrumam as cadeiras, e sentam-se, de imediato, ao longo das paredes da cozinha, reservada para “sala de dança”. Nas outras duas divisões da habitação ficam os homens, enquanto não dançam.
A iluminação é feita pela fraca luz de três candeeiros, a petróleo, e há grande sarilho quando o vento sopra mais forte e os apaga.
As raparigas “abrem o baile” formado, apenas, por pares femininos, até que os rapazes decidem entrar na dança e os apartam. Depois, pouco a pouco, o número de dançarinos aumenta e quase não há espaço, para se dançar porque, os gaiatos, “bailam” no meio dos pares, adultos. Surgem os primeiros conflitos: há três rapazes que querem namorar a mesma rapariga. Ela dança um bocado com um, mas surge logo outro a tocar-lhe num braço e a pedir: “A menina dança?”. Para não o magoar, ela aceita, mas dá duas voltas no recinto, com o novo par e aparece outro perguntando: “A menina dança?” e logo a seguir aparece o outro e assim sucessivamente, durante toda a noite. Por vezes há ciúmes e discussões, que se tornam desagradáveis e em problemas difíceis de solucionar.
Os namorados dançam tão agarradinhos e falam tão baixinho que os gaiatos, não lhes tiram os olhos de cima, e comentam entre si. “Olha pr’aqueles, andom mesmo agarrados e ele disse que lhe dava um bejo”; “Olha, ele tem a cara mesmo em cima da dela e ê vi-lhe dar um bejo”; “Olha, e ê tamém. Tomara já ver grandi...”.
São tantos os gaiatos a dançar e a pisar os adultos, comentando depois o que ouviram dizer aos pares de namorados, que são vistos pelos organizadores do baile e são expulsos para outra divisão.
- Vá lá, gaiatos. Vão lá para dentro e façam pouco barulho. Senã, vã já pro olho da rua. Sempre a fazerem barulho e a contarem o que vêem e o que ouvem. Se os vejo a fazer a mesma coisa, nã põem cá mais os péis.
Contrariados eles dançam à roda, ou formam pares, imitando os pares de namorados. As “velhas”, sempre de olhos postos nas filhas, discutem qual das raparigas usa o melhor e mais bonito vestido e qual é a mais jeitosa. De vez em quando uma adormece e ressona de boca aberta, provocando o riso geral.
O baile ficou animado, há já cerca de duas horas que principiou, quando se ouve o bater das palmas dum dos organizadores, referindo, simultaneamente: “- Gravâncio!”
Os pares separam-se e abandonam o recinto ondeantes haviamdançado. Algumas raparigas sentam-se no colo de suas mães, ou nas poucas cadeiras vagas e as namoradeiras isolam-se com os seus pares, junto das paredes que ainda têm espaço para os acolher e comentamos seus problemas amorosos, enquanto os organizadores do baile distribuem bolachas às mulheres e bagaço,misturado com muita água, aos homens, que os pagam por bom preço. A receita, apurada, fará parte das despesas do baile e a restante que faltar, será reposta por eles.
- Raparigas..., vomos balhar à roda? - propõe uma jovem, enquanto se ergue da cadeira, onde havia estado sentada, sendo imitada pelas outras, que saltam para o meio da divisão, dando as mãos, e vão formando uma “roda humana”, que se põe em movimento. Cantando:
Olha a triste viuvinha,
ela aí vem a chorari.
Aposto que nã há-des achari,
nã há-des achar com quem casari.
Ó Zéi aperta o laço.
Ó Zéi apert’ó bem.
Depois do laço apertado
Olha, ó Zéi, fica-te bem.
A seguir os rapazes entram na roda, dando as mãos às raparigas. Agora sim, o baile de roda irá aquecer. Vai começar o despique, enquanto os homens e as mulheres apuram o ouvido, para ouvirem e depois comentarem sobrequem cantará melhor, e o que se canta.
- Quem é que começa? – pergunta uma jovem, enquanto a “roda gira calada”. Ninguém quer ser o primeiro a cantari?
- Começa tu Zefa, que cantas tam bẽi!
- Porque é que he-de ser sempre a primera?
- Vá lá. Tu é que sabes cantari!
- Não! Hoje nã he-de ser a primera. Comecem os homens!
- Ai sim! Pensas que a gente não é capaz de cantari? Tão lá vai - respondeu o Zé Manel:
Nã julguis que por ti morro.
ou por ti estrago sapatos,
ó minha boneca de cera,
minha ratada dos ratos.
- Pr’a cantaris essa parvoera, mais valia estares calado. Mas espera, ê respondo-te doutra manera - comenta uma rapariga:
Tu dizes que nã me queris,
Eu dou-te toda a rezão.
Como é que tu há-des quereri,
aquilo que te nã dão?
O desafio, começou e as cantigas dirão tudo o que eles e elas pensam e doutra forma não seriam capazes de referir.
Os homens comparo eu
com a zunida do vento.
Andom de namoro com uma,
E trinta no pensamento.
Ó amori tu não te alembras,
do dia do vento rijo,
quando estavas agarrada,
ao canudo por onde ê mijo.
- Malcriado! Nã se envergonha de cantari estas parvoeras, aqui,na frente de toda a genti - protestaram as mulheres, corando, enquanto se levantam das cadeiras, e simulam uma saída, do recinto.
A animação e o entusiasmo crescem. Toda a mocidade quer cantar a sua quadra. A princípio, faltou-lhes o tema, mas as quadras são como as cerejas, quanto mais se fazem e cantam, mais elas surgem de improviso, num rimar que parece não ter fim.
O tio Ramalho, sem lhes dar tempo de tornarem a cantar, começou a agitar o fole da concertina e os jovens voltaram a formar pares, reiniciando o baile, que pouco mais tempo poderá durar. Já se nota impaciência nas mães das raparigas porque sentem, simultaneamente, sono e frio, o último devido ao vento que sopra um pouco mais forte, àquela hora, já tardia da noite, e se intromete passando através dos intervalos das telhas, e gera um ambiente desagradável, lá dentro.
Ainda há gaiatos e homens que vão à rua, abrindo e fechando a porta, constantemente. De repente o vento sopra mais forte e apaga a chama dos candeeiros, “provocando uma desgraça”.
Os velhacos, que não dançam, imitam o estralejar dos beijos, e criam uma confusão diabólica, enquanto as mulheres pensam que os namorados se estão “a atirar” e a beijar as raparigas, ficam como loucas, e derrubam tudo o que encontram pela frente, procurando-as por todos os lados.
Acesos, os candeeiros, verificam que os jovens conversam, indiferentes ao que os rodeia. Elas amaldiçoam tudo, mas ficam radiantes por verificarem que as suas filhas não foram “engolidas pelo papão”.
Pegam nas cadeiras e saem sempre a resmungar. As filhas que vão atrás delas, senão, em suas casas, será pior…
Já na rua, formam pequenos grupos, sempre com os namorados na frente e bem à vista, enquanto escutam o coaxar das rãs, o cantar das corujas e dos mochos, dos grilos e dos ralos e iniciam o “perigoso” caminho de regresso,à aldeia,e comentam as “odisseias” do próximo dia, que será de trabalho, e os “extraordinários” acontecimentos do dia que passou, reparando, em simultâneo, na grande bola amarelada queque a lua cheia forma, acabadinha de nascer, por entre os chaparros, num horizonte longínquo e, de vez em quando, fica semicoberta por espessas nuvens negras, que escondem a fraca luminosidade que ela irradia.
Manuel Manços
https://www.facebook.com/groups/imagensdoalentejo/
Fotos retiradas da Internet, em pesquisa Google.

terça-feira, 12 de julho de 2016

No "Pulo do Lobo", onde o Guadiana se engasga... (By Nuno Ferreira)


É sábado, em Vale do Poço, concelho de Serpa. Venho do cenário pós-industrial das Minas de São Domingos e pretendo seguir para o Pulo do Lobo, as tais quedas de águas no Guadiana que caem de mais de 20 metros de altura entaladas numa garganta tão apertada que até «um lobo as transpõe de um salto». Mas sábado é sábado, dia de confraternização, do não se fazer nada, de minis (essa instituição alentejana) e conversa entre secretos de porco preto. Entabular conversação nestes dias de gargantas oleadas é mais fácil. Pergunta um aldeão: «Atão e tu estás andando a pé? Senta-te homem, que não ficas pagando mais...Queres beber o quê?» Cria-se um círculo de cadeiras em meu redor. Um idoso com evidentes deficiências auditivas pergunta: «O que é que ele está dizendo?» O outro explica tão alto que dir-se-ia possuir um megafone na laringe: «Este homem é jornalista e está andando a pé...não é isso? E atão agora, vais para onde? Pulo do Lobo? Home, isso ainda é longe...Deixa-te estar aqui descansando. Bebes mais uma mini?»

Entre o Vale do Poço e o Pulo do Lobo, em plena primavera de 2008, benigna e precoce, a luz do sol abençoa os campos que ondulam ao sabor do trigo, pintalgados aqui e ali por manchas erráticas de papoilas e oliveiras. Serpa, a branca, aparece e desaparece ao longe, numa miragem. Bandos gregários de porcos pretos povoam os montes juntamente com os abrigos metálicos para as porcas parirem.

Uma carrinha de caixa aberta por momentos interrompe a solidão da estrada. Desaparece na curva mais próxima. Junto a uma exploração solitária, o moinho de vento faz um «vxxxxxzzzzz...»metálico sobre a minha cabeça. Uma ovelha e dois ou três cães saltam ao caminho. Querem ver-me, seguir-me. Na ausência de seres humanos, os animais acompanham-me: porquinhos pretos mamando nas tetas da mamã porca junto a abrigos metálicos preparados para estas parirem, vacas e bois especados do lado de lá da vedação metálica ao ver aparecer do nada um ser de mochila às costas, um rebanho de ovelhas debandando assustado.

Por ali, cada monte tem um nome: O Passa Leve, o Pena Ventosa. De há uns tempos a esta parte, existem quase mais montes que pessoas. Manuel Cavaco, 48 anos, é um dos últimos. Vive em Cabeceira de Vale Queimado, a dois quilómetros do Pulo do Lobo, numa pequena e humilde casa branca. «aqui já não há quase ninguém, a maioria dos montes estão abandonados», comenta de sorriso envergonhado nos beiços. Um pequenino cão preto segue-lhe as pisadas até à fornalha onde faz carvão para vender. Nos bons velhos tempos, ainda pescava sável e lampreia no Pulo do Lobo, uma corda grossa atada a uma rocha, uma rede com um gorro. «Em descendo lá baixo, não há medo. Nunca escorreguei. E nesse tempo, vendia-se bem a lampreia. Agora já não se apanha nada».

Em descendo até ao Pulo do Lobo pela margem esquerda, a de Serpa, sou surpreendido por um casal estrangeiro pedalando furiosamente uma bicicleta dupla encosta acima. Não lhes invejo a sorte.

Do lado do concelho de Mértola, uma estrada desemboca num miradouro sobre as rochas, permitindo observar o repelão das águas em fúria em segurança. Do lado de Serpa, a amálgama de pedras em erosão, a miríade de pequenas entradas e saídas nas rochas, buraco aqui, buraco ali, transforma a aproximação às águas revoltosas do engasgado Guadiana muito perigosa. «A maioria das pessoas fica lá em cima e acaba por não ver nada», explicaram-me mais tarde em Serpa, «não há condições de segurança para andar lá em baixo».

Insisti comigo mesmo que não podia largar o Pulo do Lobo sem uma foto. Conseguia ouvir o turbilhão da torrente de água a cair mas não enxergava quase nada porque existia sempre mais uma rocha para trepar. A determinada altura, larguei a roupa num local seco para tentar chegar o mais perto possível da queda de água em calções. Em boa hora, dei-me conta do perigo estúpido da situação. Tirei uma foto e vim embora.

Mais tarde, em Serpa, António Mestre, conhecido por «Pinta Xarolas», ex-pescador de sável e lampreia no «Pego dos Sáveis», a parte inferior da queda de água onde paravam os pescadores, contou-me que um dia ia lá ficando: «Pescávamos a lampreia com uma vara que segurava um arco de madeira com um gorro de rede lá dentro. Ia a puxar a vara para tirar um peixe, escorreguei, fiquei balançando preso à corda».

O «Pinta Xarolas» atava a corda a uma rocha de 15 metros. Descia. «Se calhava não chegar à água, voltava a atar a corda a outra rocha até chegar à pilheirinha onde me sentava», contou. Dos que ali pescavam com cordas como ele, contou os vivos pelos dedos: «O Ti Beatriz, o António Neves...o Zé Pelica já morreu...morreram quase todos».

Com as barragens, acabaram-se o peixe e as noites de 50 a 60 lampreias, a fogueira lá em cima, nas rochas cimeiras, preparada para o convívio. «Tenho muitas saudades. Se ainda houvesse lampreia, mesmo com esta idade, era capaz de descer essas rochas más outra vez», sonhava em voz alta o «Pinta Xarolas».

Do Pulo do Lobo a Serpa corre uma estrada desolada, os campos vedados de um e do outro lado das bermas. Numa herdade, leio numa placa: «É permitido até 14 de Março apanhar cogumelos às quartas e domingos». Sucedem-se as grandes herdades de caça turística. «Os ricos de Lisboa caçam aí perdizes, lebres, até veados...» explicam-me. À porta de uma herdade, um homem de colete à Coronel Tapioca encosta-se a um jeepe fala ao telemóvel: «O engenheiro que venha cá ver isto. Temos de resolver a situação até ao fim de semana».

A luz enviesada do fim do dia surpreende-me a dois quilómetros das imperiais da Cervejaria Lebrinha e de uma boa cabeça de borrego assada quando um homem numa Renault me oferece boleia: «Aguentas aí um bocadinho, estou cortando erva para as minhas duas éguas e já abalamos». Deixa-me à porta da cervejaria - «Bebe duas por mim»- e convida-me para a partida de futebol no dia seguinte. Resultado: Futebol Clube de Serpa-4; São Marcos da Ataboeira-0.



(*) Nuno Ferreira nasceu em Aveiro em 1962. Licenciou-se em comunicação social na Universidade Nova de Lisboa. Foi colaborador permanente do semanário Expresso de 86 a 89, ano em que ingressou nos quadros do jornal Público (até 2006). Nos últimos 20 anos fez reportagens de cariz social. No Jornal Público manteve uma crónica satírica intitulada “Ficções do País Obscuro” e escreveu sobre música popular americana. Recebeu, entre outros, o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube de Jornalistas do Porto com o trabalho «Route 66 a Estrada da América» (1996). No ano seguinte recebeu o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube Português de Imprensa com o trabalho «A Índia de Comboio». Em 2007 publicou conjuntamente com Pedro Faria o livro «Ao Volante do Poder».

domingo, 3 de julho de 2016

Abalei...


Abalei...
Eu - Abalei às 15h…
Ele - Tu o ...quê??
Eu - Abalei…...
Ele - O que é isso?
Eu - Ora, fui-me embora…
Todo o bom alentejano “abala”, para um sítio qualquer, que normalmente é já ali. O ser já ali é uma forma de dizer que não é muito longe, mas claro que qualquer aldeia perto aqui no Alentejo está no mínimo a cerca de 30km. Só um alentejano sabe ser alentejano!

Um alentejano “amanha” as suas coisas, não as arranja, um alentejano tem “cargas de fezes”, não tem problemas, um alentejano vai “à do ou à da…” não vai a casa de…, um alentejano “inteira-se das coisas” não fica a saber… No Alentejo não há aldrabões há “pantomineiros” e aqui também não se brinca, “manga-se”.
No Alentejo não se deita nada fora, “aventa-se” qualquer coisa e come-se “ervilhanas” ou “alcagoitas” (amendoins) e “malacuecos” (farturas). Os alentejanos não espreitam nada nem ninguém, apenas se “assomam”… E quando se “assomam” muitas vezes podem mesmo ter dores nos “artelhos” (tornozelos)!
As coisas velhas são “caliqueiras” e muitas vezes viaja-se de “furgonete” (carrinha de caixa aberta), algo que pode deixar as pessoas “alvoreadas” (desassossegadas). Quando algo não corre bem, é uma “moideira” (chatice) e ficamos “derramados” (aborrecidos) com a situação, levando muitas a vezes a que as pessoas acabem por “garrear” (discutir) umas com as outras e a fazerem grandes “descabeches” (alaridos).
“Ainda-bem-não” (regulamente) as pessoas tem que puxar pela “mona” (cabeça) para se desenrascarem quando muitas vezes a solução dos seus problemas está mesmo “escarrapachada” (bem visível) à sua frente.
Não estou “repesa” (arrependida) de ter escrito esta pequena crónica, com vista a lembrar detalhes do património oral que nos é tão próximo e muitas vezes de “bradar” aos céus. “Dei fé” (pesquisei) a algumas expressões e tentei não vos criar, a vós leitores, uma grande “moenga”, apenas quero que guardem algumas destas expressões na vossa “alembradura” (lembrança)...

Copiado do grupo do Facebook : "Alentejanando"
https://www.facebook.com/groups/406671799368836/

domingo, 17 de abril de 2016

Expressões Alentejanas (Letra A)

Terra de fortes tradições e de gente com muita alma dentro, o Alentejo tem ainda um número infindável de expressões típicas. Algumas delas acabaram, com o tempo, por se generalizar e são hoje usadas em todo o país, embora a sua origem continue a ser marcadamente alentejana. Divirta-se com a lista e dê-nos a conhecer mais algumas que você conheça!
Letra A: 
Abusou da rapariga = Teve relações sexuais com a rapariga e deixou-a
A dormir e a caçar ratos = Diz-se de que finge dormir
A dar as ultimas = Dar os últimos sinais de vida
Ajunto de pessoas = Muita gente junta
A feria/receber a feria = Receber o vencimento/ordenado
Agarrei nos quatro arrátes = Pus-me a caminho
Agarrei em mim = Decidi ir a qualquer lado
Água-chilra = Bebida fraca
Ainda bem não = De vez em quando
Ainda não bateu por aqui = Ainda aqui não apareceu
Ainda rompe meias solas = Mulher madura atraente
Alcará Maria = Expressão de desagrado/exclamação
Amigo de Fulana (o) = Amante de fulana (o)
Anda arredio = Anda desviado/isolado
Amolar o próximo = Tramar o próximo
A modes que = Parece que
Anda aluada= Anda com o cio
Anda de trombas = Anda Zangado
Anda numa tráita = Anda habituado
Andar aos caídos = Andar à mercê  de esmolas
Andar à cata da rolha = Andar à procura dum objecto
Andar à unha= Andar à briga
Andar à malta = Andar à revelia
Andar mal achado = Andar adoentado
Andar com a mosca = Andar arredio/Zangado
Andar com o benfica = Andar menstruada
Andar à pendura = Esperar que alguém pague por ele
Andar numa fona = Andar atarefado
Andar inchado = Andar vaidoso /gordo
Animal traçado = Mestiço/origem de duas raças
Apanhou um ralo = Apanhou uma inquietação
Apanhou um escalda rabos = Assustou-se bastante
Apanhar a lebre = Quando alguém cai
Apára cristas = Pára Quedistas
À paz das tantas = À páginas tantas
Armou uma tourada = Provocou desacatos
Armou um escabeche = Armou grande confusão
Arranjou uma titaráda = Arranjou problemas/confusão
Arranjou lenha para se quemár = Prejudicou-se a ele próprio involuntariamente
Arrebenta bois = Tubérculo não comestível
Arreganhar os dentes = Mostrar-se zangado
Assentou-me mal = Não gostei do que me foi dito
Às tantas nã sabe ler = provavelmente não sabe ler
Assobia-lhe às botas = Deixou fugir algo sem o conseguir apanhar
Atirar gafanhotos para cima= Quando alguém fala e cospe ao mesmo tempo
À ultima hora retratou-se = Desistiu do compromisso no ultimo momento
À vara larga – À solta/sem limitação
Para continuar a ler, basta clicar no link:

sábado, 19 de setembro de 2015

Compadre Alentejano



MESTRE ALENTEJANO
"Terra de grandes barrigas,
Onde há tanta gente gorda,
Às sopas chamam açorda
E à açorda chamam-lhe migas;
Às razões chamam cantigas,
Milhaduras são gorjetas,
Maleitas dizem maletas,
Em vez de encostas, chapadas,
Em vez de açoites, nalgadas
E as bolotas são boletas.
Terra mole é atasquêro,
Ir embora é abalári,
Deitar fora é aventári,
Fita de couro é apero;
Vaso com planta é cravêro,
Carpinteiro é abegão,
A choupana é cabanão
E às hortas chamam hortejos
Os cestos são cabanejos
E ao trigo chama-se pão.
No resto de Portugáli
Ninguém diz palavras tais;
As terras baixas são vais
Monte de feno é frascáli
Vestir bem parece máli
À aveia chamam cevada
Ao bofetão orelhada
Alcofa grande é gorpelha
Égua lazã é vermelha
Poldra “isabel” é melada.
Quando um tipo está doente
Logo dizem que está morto.
A todo o vau chamam porto
Chamam gajo a toda a gente
Vestir safões é corrente
Por acaso é por adrego,
Ao saco chamam talego
E, até nas classes mais ricas
Ser janota é ser maricas
Ser beirão é ser galego.
Os porcos medem-se às varas,
O peixe vende-se aos quilos
E a gente pasma de ouvi-los
Usar maneiras tão raras;
Chamam relvas às searas
Às vezes, não sei porquê
E tratam por vomecê
Pessoas a quem venero;
“não quero” dizem “na quero”
“eu não sei” dizem “ê nã sê”!"
de António Pinto Basto, Rosa Branca

domingo, 26 de julho de 2015

O Futuro do Alentejo... (By Ribanho)







Quando foi construida, a Barragem do Alqueva representou uma enorme esperança no futuro do Alentejo.
Pensámos que finalmente teriamos água com fartura para abastecer novas culturas e a população local não teria necessidade de emigrar, pois haveria decerto emprego para todos...
Mas depressa se compreendeu que o progresso não era para os alentejanos, mas sim para as grandes empresas e multinacionais que trazem mão de obra barata e que entretanto se dedicaram a vedar todo o espaço, até caminhos rurais que sempre foram utilizados pela população local...
Assim, cercados por todos os lados, resta-nos não desistir...
O Alentejo precisa de projetos que incluam também empregos para as pessoas que aqui vivem...
Tiras retirados do blog dos nossos compadres Luis Afonso e Carlos Rico, http://ribanho.blogspot.pt/

quinta-feira, 4 de junho de 2015

RIbanho







Retirado do Blog http://ribanho.blogspot.pt/
                                                 Retirado do Blog http://ribanho.blogspot.pt/
RIbanho nasceu no início de 2003 a partir de um convite feito por António José Brito (então director do Diário do Alentejo) a Luís Afonso e a Carlos Rico para desenvolverem uma tira para a última página do jornal. Surgiu assim o pseudónimo LUCA, com as duas primeiras letras dos primeiros nomes dos autores.

Depois de terem criado as personagens em conjunto, dividiram tarefas: Luís escreveu semanalmente os textos, Carlos fez os desenhos e a tradução para alentejano (ainda que se exprima facilmente no alentejano falado, Luís Afonso tem alguma dificuldade em escrevê-lo).
Passados quase dez anos, a série terminou. Para evitar o fim definitivo deste projecto, os autores decidiram criar o Blogue do RIbanho, onde publicarão (por ordem cronológica) todas as tiras de RIbanho e muito material extra e inédito!
LUCA

sexta-feira, 1 de maio de 2015

1º Maio, Dia do Trabalhador


Hoje é o Dia do Trabalhador.
Uma Nação forte precisa de todos os seus cidadãos para a desenvolver com o seu trabalho e dinamismo.
Um país pequeno como o nosso precisa de todos os seus filhos e não pode dar-se ao luxo de exportar os seus jovens, muito menos os que têm mais estudos...
Portugal precisa de gente para consumir o que a terra dá e precisa de gente para habitar as terras do interior.
Um país só é grande quando os seus filhos não querem ou não precisam de partir. E isso só é possivel quando todos têm um salário que lhes permita viver com dignidade...
Ainda temos um longo percurso a percorrer ...

Em homenagem aos trabalhadores, partilhamos aqui convosco um texto do nosso compadre Milheiras Cortiço, sobre os antigos trabalhadores rurais do Alentejo:

Migrações eram deslocações de gentes dos seus locais de origem para outros, à procura de melhores proventos para desafogo da sua vida.
Hoje, lembrei-me de ir ao encontro dos ratinhos, trabalhadores rurais, vindos das Beiras, que demandavam a minha região na época das “assêfas”(1), período que abrangia sobretudo os meses de Junho, Julho e Agosto, no tempo em que os campos se doiravam de espigas e o Alentejo se intitulava o “celeiro de Portugal”.
Lembro-me muito bem de os ver nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado, formando “camaradas”(2) que se distribuíam pelas herdades dos grandes latifundiários, conforme já fora combinado, antecipadamente, entre aqueles e o respectivo manageiro, seu representante. Eram homens simples, laboriosos, humildes, francos, fraternos, pobres de bens materiais, mas ricos de valores éticos e comportamentais. Viajavam de comboio até Ponte de Sor e, se o contrato não se formalizara com transporte, iam a pé para os montes de acolhimento, só descansando para consolar o estômago com bocados de broa e vinho envinagrado.
Ao passarem pelas Galveias (minha terra), formavam colunas ao descerem a estrada macadamizada até ao alto da Azinhaga de Avis, embrenhando-se depois por caminhos de pé posto. Por vezes, surgiam alguns cachopos mais atrevidos que, com o intuito de os ridicularizar, diziam:
– Ratinhos da Bêra,
Cómim pão e dêxam a farrenhêra!
                        e
– Ó ratinhos, rátim o pão,
Rátim o quêjo e o focinho do mê cão!
Eles, serenos, não lhes ligavam ou, a rir, respondiam-lhes:
– Olhem que não!
Comemos a farrenhêra e dêxamos o pão!
                         e
– Somos ratinhos, ratamos o pão e o quêjo,
E às meninas, pedimos um bêjo.
Chegados aos montes, ocupavam as camaratas que lhes estavam destinadas, arrumavam os sacos com os poucos haveres que traziam e, enquanto descansavam, esperavam pela papança a que ferravam o dente para enfiar na tripa. Alguns dos mais velhos garganteavam lamentações sobre o raio da vida que lhes coubera.
Assim que o sacristão do céu acendia as primeiras estrelas, iam deitar-se em cima de esteiras de bunho e, cansados, dormiam a sono solto. No dia seguinte, antes do Ti Manel(3) nascer, estavam preparados para enregar a safra.
Habitualmente, os ratinhos comiam e bebiam por conta dos lavradores à “boca livre”(4), cujos comeres, substanciais, à base de feijão frade, feijão catarino, grão, batatas, sopas de pão “todo um”(5) e bóias de toucinho e enchidos de porco, eram levados por um criado da lavoura designado por mantieiro. Sendo assim, recebiam pouco dinheiro que forravam para governo da família. Porém, a maior parte das “camaradas” trabalhava a seco, isto é, só por dinheiro, sendo responsável pela sua fraca mantença, não abdicando cada um dos seus membros, de poupar, poupar, chegando até à sovinice.
Normalmente, as “assêfas” começavam pela aveia, depois o centeio, a cevada e por fim o trigo.
Era um trabalho árduo! Feito de sol a sol, debaixo de um calor tórrido, desempenhado corajosamente, encharcava-lhes o corpo de suor e, eles, com ansiedade, esperavam, de quando em vez, a vasilha de água que emborcavam com sofreguidão, para se dessedentarem. Mesmo assim com o sol em brasa, algum dos mais afoitos interrompia o trabalho, erguia a cabeça e, com voz vibrante, desabafava:
Fui ao livro do destino,
Minha sorte procurar.
Em todas as folhas li,
Que nasci p`ra trabalhar.
Chegados ao pôr-do-sol desapegavam do trabalho e, se as noites estivessem quentes, estendiam uma manta sobre o restolho e ali mesmo se entregavam a Deus para que lhes desse um santa noite e forças para o dia seguinte.
Concluídas as “assêfas”, faziam as contas. Desta vez, o manageiro oferecia uma boa pinga, cujo efeito se notava na algazarra que alvoroçava os montes por meio de cantos, choros, gritos, agradecimentos e vivas.
No dia seguinte, tocava a reunir e faziam-se ao caminho do regresso. Chegados a casa, tinham caloroso acolhimento, sendo recebidos com gritos de júbilo e lágrimas de saudade.
As minhas raízes ruralista e campesina de que me orgulho e nunca esquecerei, levaram-me com este pequeno texto, a perpetuar o trabalho destes homens “d`uma cana” (6) que, de pé firme e mão vigorosa, ceifavam o pão que nos matava a fome.
_________________________
(1) – as ceifas ● (2) – Ranchos ● (3) – Sol ● (4) – Barriga cheia ● (5) – Escuro ● (6) – Rijos

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Évora







Eu não sei que tenho em Évora
Que de Évora me estou lembrando
Ao passar o rio Tejo
As ondas me vão levando.
Abalei do Alentejo
Olhei para trás chorando
Alentejo da minh'alma
Tão longe me vais ficando.
Ceifeira que andas à calma
À calma, ceifando o trigo
Ceifa as penas da minh'alma
Ceif'as e lev'as contigo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Vamos ó Balho ?

Nos anos 50 do passado século, Entradas registava o seu maior crescimento demográfico, havia por essa altura perto de 2000 pessoas a residirem por estas bandas.
As famílias eram invariavelmente numerosas e a vila transbordava de juventude. A maioria destas famílias tinha na sua prole 4, 5 ou mais filhos para sustentar, tarefa difícil de levar a cabo em terra de paupérrimos recursos e onde os trabalhos eram quase sempre de carácter sazonal, logo, com largos períodos de carência onde a imaginação era levada ao limite para alimentar tanta boca ávida de pão.
Os moços e moças assim que ganhavam corpo eram encaminhados para trabalhos que não eram proporcionais às suas fracas figuras. No entanto, e como é próprio da juventude, a diversão e o catrapisco namorativo, davam-lhe ânimo para depois de longas jornadas de trabalho, ainda irem arrastar os pés cansados nos bailes tradicionais que por aqui se realizavam. Estes bailes eram realizados em casas particulares com duas intenções: uma para aconchegar o parco orçamento familiar através das entradas e das vendas de petiscos, outros com uma intenção mais hábil que consistia em “ fazer solo” ou seja; como o chão das casas era em terra batida, estes ocasionais “ balhos” serviam para calcar o chão da divisão pretendida, matando-se assim, dois coelhos de uma só cajadada.
Nesse tempo haviam dois bailes com garantia de casa cheia, eram os “ balhos da Patanisca” e os “ balhos da Torradinha” assim conhecidos, porque durante o serão dançante havia um convite formal ao consumo, aqui chamado de “ garvanço” que consistia em comer pataniscas, ou torradinhas consoante o organizador da função.
Como a electricidade ainda era coisa de que nem se ainda ouvira por aqui falar, a “ balhação” era feita à luz de candeeiro a petróleo, o que presumo que daria ao ambiente um certo toque romântico, propicio à troca de olhares mais cúmplices ou ao jogo das sombras decalcadas nas paredes. Quando não havia flautista, ou acordeonista, os bailes eram cantados, ou seja; bailava-se, ria-se e cantava-se ao mesmo tempo, e segundo testemunho dos que me são próximos, a diversão não deixava de estar garantida por tão importante falha.
Por esse tempo, moço que se prezasse trazia nos bolsos dois objectos importantes, navalha e “ flaita”. Navalha porque faz parte da indumentária de qualquer alentejano que se preze, e “flaita” para animar musicalmente bailes ou mesmo outros períodos de ócio, nomeadamente na pastorícia onde o tempo abunda e o bulício da solidão convidam ao pincelar de sons a paisagem transtagana.
Por essa altura havia em Entradas um acordeonista de três acordes, de seu nome Manuel do Carmo, que animava os “ balhos” de então. Este músico taberneiro, percursor da música brejeira hoje tão em voga, vincava no fole do seu instrumento letras que ainda hoje em Entradas são recordadas e de que vos deixo breve exemplo, para que possam aquilatar da veia poética deste taberneiro, músico e poeta:

Minha sogra é forneira
Meu sogro vai à lenha

Minha vaca já pariu
E a minha mulher está prenha


Ou então o seu grande sucesso que ainda hoje é cantado:

Balhem putas, balhem putas
Balhem putas dum cabrão
Quanto mais vocês balham

Mais putas vocês são...

Texto copiado do blog do nosso compadre Napoleão Mira, http://pulanito.blogspot.pt/
A foto foi retirada do Blog http://memoriacomhistoria.blogspot.pt/ e é datada de 1935...

sábado, 4 de outubro de 2014

Alentejo do mê Coração....

 
Alentejo do mê coração!!!
Eu - Abalei às 15h…
Ele - Tu o quê??
Eu - Abalei…
Ele - O que é isso?
Eu - Ora, fui-me embora…
Todo o bom alentejano “abala”, para um sítio qualquer, que normalmente é já ali. O ser já ali é uma forma de dizer que não é muito longe, mas claro que qualquer aldeia perto aqui no Alentejo está no mínimo a cerca de 30km. Só um alentejano sabe ser alentejano!
Um alentejano “amanha” as suas coisas, não as arranja, um alentejano tem “cargas de fezes”, não tem problemas, um alentejano vai “à do ou à da…” não vai a casa de…, um alentejano “inteira-se das coisas” não fica a saber… No Alentejo não há aldrabões há “pantomineiros” e aqui também não se brinca, “manga-se”.
No Alentejo não se deita nada fora, “aventa-se” qualquer coisa e come-se “ervilhanas” ou “alcagoitas” (amendoins) e “malacuecos” (farturas). Os alentejanos não espreitam nada nem ninguém, apenas se “assomam”… E quando se “assomam” muitas vezes podem mesmo ter dores nos “artelhos” (tornozelos)!
As coisas velhas são “caliqueiras” e muitas vezes viaja-se de “furgonete” (carrinha de caixa aberta), algo que pode deixar as pessoas “alvoreadas” (desassossegadas). Quando algo não corre bem, é uma “moideira” (chatice) e ficamos “derramados” (aborrecidos) com a situação, levando muitas a vezes a que as pessoas acabem por “garrear” (discutir) umas com as outras e a fazerem grandes “descabeches” (alaridos).
“Ainda-bem-não” (regulamente) as pessoas tem que puxar pela “mona” (cabeça) para se desenrascarem quando muitas vezes a solução dos seus problemas está mesmo “escarrapachada” (bem visível) à sua frente.
Não estou “repesa” (arrependida) de ter escrito esta pequena crónica, com vista a lembrar detalhes do património oral que nos é tão próximo e muitas vezes de “bradar” aos céus. “Dei fé” (pesquisei) a algumas expressões e tentei não vos criar, a vós leitores, uma grande “moenga”, apenas quero que guardem algumas destas expressões na vossa “alembradura” (lembrança)...
Copiado do Facebook da comadre Elsa Martins...




Fotos gentilmente cedidas pelo compadre José Manuel Costa e tiradas em Marvão...



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

De regresso á Taberna da Mariana da Estação

Num destes passados fins-de-semana em que o Entradense não jogava em casa, portanto com o programa domingueiro assim para o limitado, desafiei o meu amigo António José brito para uma mini á da Mariana da Estação.
Não é tarde nem é cedo, vamos embora - disse ele – e assim nos fizemos á estrada.
Aí chegados ficámos momentaneamente aliviados por ver a porta aberta, sinal que a "brigada dos costumes " ainda deixa respirar a pobre da Mariana.
Entrámos e pedimos duas minis ao inenarrável taberneiro, neto de Mariana Maria.
Olhámos ao redor e vislumbrámos na penumbra a personagem que nos havia feito deslocar de Entradas à Estação de Ourique.
Sentámo-nos á conversa junto ao lume onde a nossa "Calamity" se aquecia; ao ouvirmos uns ruídos estranhos que nos despertaram a curiosidade abri um saco cujo movimento ondulante, denunciava alguma criatura no seu interior.
É um bacorinho que ando a criar – respondeu-nos Mariana matando de vez a nossa curiosidade.
O bicho não teria mais que 3 ou 4 dias e o calor emanado da lareira substituía na medida do possível a falta da mãe porca.
Junto a uma das paredes da dita lareira (assim a amornar) estava uma garrafa de mini meia de leite e com uma tetina de borracha que fazia de biberão. E assim, num ambiente surreal - maternal, temos uma taberna onde a estalajadeira no mesmo espaço onde cria o porquinho também vende as suas minis.
Não sei se Kusturika teria a ousadia de se lembrar de um cenário deste gabarito!
A conversa decorreu sobre as maleitas que a apoquentam, a gripe que não a larga vai para dois meses e pelo meio, estórias ingénuas, deliciosas, que bebemos de forma sôfrega.
Deixo-vos duas.
Mariana Maria ainda é assídua ouvinte do programa “ Património” da Rádio Castrense (programa de índole cultural de grande longevidade e de enorme implantação junto da comunidade rural da região). Ouvinte e participante ( conforme fez questão de mencionar), mas ultimamente não tem conseguido ligação apesar do muito tentar.
Conclusão de Mariana Maria:
Isto nã tá bein. Antão aquelas maganas lá da serra conseguem a ligação, e pra mim que tô aqui a dôs passos o telifone está sempre impedido. Só pode ser avaria. Tenho que dezêr ô mê Sérgio para ligar pra companhia dos telifones pra ver o que se passa.
Doutra vez adquiriu um lote de pacotes de lixívia que podia vender mais barato que os vendedores ambulantes que visitavam a aldeia. Apesar da lixívia ser muito mais barata que aquela que os vendedores ocasionais vendiam, as mulheres da aldeia não arrimavam à sua porta. Mariana ferida no seu orgulho fechou de vez a mercearia que a custo mantinha aberta. - Agora mesmo que queiram uma lata de conserva emprestada, não lha empresto. Tenho ali mas é para os meus fregueses. Às vezes pode aparecer aí alguém para almoçar ou jantar e assim já os posso servir, tá a perceber?
Rematou, despeitada a nossa anfitriã daquele tarde de Domingo.

Copiado do blog do nosso compadre Napoleão Mira: http://pulanito.blogspot.pt

sábado, 17 de maio de 2014

Ó mei' tostão...

Ó mei'tostão,
deixa lá passar a gente!
cada vez tenho mais notas,
cada vez 'stou mais contente!

Ó mei'tostão,
deixa lá passar quem passa!
cada vez tenho mais notas,
cada vez tenho mais massa!



A Troika vai hoje deixar formalmente Portugal! Já era hora!...
Vão e nunca mais voltem...
Para acompanhar esses senhores na sua viagem de regresso, dedicamos a essa gente, embora não o mereçam, esta letra que em tempos não muito distantes, os trabalhadores alentejanos cantavam para alegrar a sua dura labuta diária...

Desenho e letra retirados do blog do nosso compadre José Rabaça Gaspar:
http://www.joraga.net

sábado, 22 de março de 2014

O Oliventino, o dialeto escondido de Olivença ...

Mistura de português arcaico, de dialeto alentejano, de castelhano arcaico e espanhol corrente, o dialeto Oliventino é uma lingua muito rica, mas que corre o risco de desaparecer se não fôr protegida e incentivado o seu uso junto dos mais novos.
Olivença foi uma importante Praça-Forte portuguesa, tendo sido perdida na célebre Guerra das Laranjas, aquando das invasões napoleónicas. Deveria ter sido entregue a Portugal, mas isso nunca aconteceu. 
Depois de quase 200 anos de anonimato, surge agora a esperança que o Oliventino seja recuperado, reconhecido como dialeto e acarinhado...

Exemplo de Oliventino escrito e falado:
     
A 5 km da Vila, em direcção a aldêa de S. Jorge da Lori constitui um núcleo urbano de muito interesse por a personalidade que lhe conferem as suas monumentais chunés. Assentada no sopé da Serra da Lôri, a 5 km. da Vila, constitui um conjunto marcadamente ruráli, com a fisionomia tradicional pouco alterada, destacando-se a sua arquitectura popular alentejana.

Transcripció fonètica en el parlar oliventí

[a siŋku ki'lometruḥ, da'bila, eŋ diresaw a-al'dea de sawžorž da'lori kosti'tuj un 'nukliur'banu de muitu iŋte'reḥ pora personali'da ke je con'fereŋ la'suaḥ monumen'taliḥ t​ʃu'neḥ. aseŋtada nusu'pe da'seRa da'lori, kosti'tuj uŋ koŋ'žuntu markada'mente Ru'rali, kuŋa fisjono'mia tradisjo'nali 'poku alte'ra, desta'kandose laswarkite'tura pupu'lari aleŋtežana]

Informação recolhida do blog: http://alemguadiana.blogs.sapo.pt/

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Da azeitona ao azeite...


De Outubro a Janeiro, com os campos cobertos de geada, faz-se a apanha da azeitona. Ranchos de mulheres saem de casa antes do nascer do sol e começam a apanhar o "restelo" do chão.
Sob um frio de cortar, os homens sobem ás oliveiras através de escadas e, ripando ou varejando, fazem a azeitona cair sobre o "panal" previamente estendido em volta das oliveiras, donde é apanhada por mulheres. Estas, vergadas sobre si mesmas, apanham o fruto que no final do dia é "cirandado" ou "padejado", dando-se ao vento para separar as folhas da azeitona, que assim fica pronta a ser ensacada e transportada em carroças puxadas por "muares".
A azeitona nova é retalhada, temperada com sal e orégãos e conservada em "tarefas", enquanto a madura é enviada para os lagares, onde lhe é extraído o óleo que será transformado em azeite...

Texto copiado do folheto gentilmente disponibilizado pelo Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro.

domingo, 27 de outubro de 2013

Até mais ver,Ti António...





O velhote guardava numa enorme caixa de cartão muitas peças em cortiça feitas por ele próprio na sua juventude, nos tempos em que ainda tinha mãos para esculpir o "Couro das Azinheiras".
Eram Cochos e Tarros de vários tamanhos, algumas miniaturas de instrumentos agrícolas, mas o que me atraiu de imediato a atenção foram as miniaturas de carroças e churriões alentejanos, feitos com uma perfeição incrivel.
Explicou-me então que o Lar lhe ficava com o dinheirinho da magra reforma e nem para beber um copito tinha trocos no bolso: "É por caridade, amigo João, prantas isto na pratelêra, na me serveim pra nada."
"Então mas vê-se perfeitamente que isto foi feito com muito carinho, são recordações de outros tempos..."- disse-lhe, tentando dissuadi-lo de tal.
"Dás-me o que queseres, sê lá se quando morreri, isto na vai abalar prá lixêra..."
Se eu lhe comprasse aquelas obras de arte, estaria a preservá-las, assegurando-lhe alguma dignidade. E assim fiz por um preço justo.
Aquelas peças vieram para minha casa e ocuparam lugar de destaque na minha pequena colecção de objectos etnográficos.
E desde então, quando passava junto á minha porta, eu fazia questão de o convidar a entrar, beber um copo de vinho tinto e falávamos, falávamos muito de tempos idos, tempos em que ele foi jovem, típico trabalhador rural.
E os seus olhos voltavam a brilhar, deixava de ser o velhote que estava á minha frente...
Ás vezes, pedia-me para ver as suas peças. E lá ia eu buscá-las, zeloso guardião das suas recordações.
Depois de se assegurar que tudo estava como dantes, bem conservado, dizia-me satisfeito, á abalada:
" Até mais ver, João..."


Dedicado ao meu amigo Ti António do Tiro, falecido em Agosto de 2013.
 "Até mais ver, Ti António..."

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cantadores




O Cante Alentejano é uma forma de expressão popular. Os seus cantadores são oriundos das aldeias e vilas caiadas, gentes de trabalho que se juntam
nas horas de lazer e cantam as arrastadas melodias, heranças intemporais dos pais e avós e que sempre ecoaram na planície de Montado, que sempre se fizeram ouvir nas noites alentejanas.
Quando cantam, levam-nos numa viagem ao passado rural do Alentejo.
O Cante merece ser Património Imaterial da Humanidade.
 
 
 
 
Consome Portugal, Respira Portugal, desperta o Tuga que há em ti...