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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Grilos




Grilos!
Íamos aos bandos no pico da primavera, quando o calor começa a "apertar" e os grilos iniciam as suas sinfonias pelos campos floridos de malmequer, rosmaninho, lirio roxo, alecrim e outras flores silvestres, mal as aulas desse dia terminassem.
Os gaiatos andavam na sua maioria na faixa etária entre os 8 e os 12 anos, alguns até mais, nomeadamente aqueles que prolongavam o tempo de escola, pois nem todos passavam de ano quando deviam.
O objetivo da gaiatagem era apanhar o maior número possível de grilos, procurando assim obter algum rendimento que de outra forma não conseguiriam, depois de baterem à porta do Sr. João da Torrinha, ali na Rua do Paço e que era quem os comprava para comercializar em Lisboa.
Hoje poderiamos considerar que a rapaziada tinha tendência para o empreendedorismo, mas nesse tempo, empreender era fazer por ter o que comer. E claro que não seriam os grilos!
Estes por sua vez, não iriam servir de composição gastronómica em algum restaurante de chineses, porque penso, nessa altura ainda os não havia.
Eram comprados pelos "alfacinhas" e alentejanos há muito radicados e saudosos, metidos em gaiolas com uma folha de alface para sua alimentação (os grilos, não as pessoas), esperando ouvir o troar das suas asas.
O Sr. Torrinha não pagava muito por cada um, cujo preço à época equivaleria hoje a 3 ou 5 centimos por grilo, mas era "exigente" na qualidade, pois teriam de ter as 4 pernas com que se moviam.
E a falta de uma delas tornava logo ali o grilo grátis para o Sr. Torrinha, ou não ficaria com ele. E claro, para que queriam os rapazes os grilos pernetas?
A falta de uma perna não impedia o grilo de cantar, mas dava-lhe cabo da estética. Agora se os bichos cantavam ou não, era outra coisa, vá-se lá a saber, só o comprador o descobriria.
No entanto, não pensem que o Sr. Torrinha era um forreta ou mau pagador, pois quando iam miúdos daqueles mais novitos (iniciados nesta atividade sazonal) que levavam 2 ou 3 grilitos, enquanto os "matulões" batidos nisto entregavam contados e recontados 20 ou 30 grilos, ele acabava a ignorar a falta da 4a perna do grilo e pagava na mesma aos miúdos.
Aliás o Sr. Torrinha tinha uma boa perceção da dificil vida que algumas pessoas da terra tinham e sabendo que alguns dos pais desses rapazes estavam sem trabalho, muitas vezes recusava receber dinheiro pelo habitual pacote de café que lhe iam comprar com regularidade e que era outro dos seus negócios. Já que o café era uma parte essencial da alimentação, porque com ele pela manhã se tomavam as habituais "sopas de café com leite" e que regra geral alimentava os gaiatos praticamente até à hora do jantar.
Digam-mos antes, que se o Sr. Torrinha tivesse algum título social seria o de "benemérito" e muito fica por contar.
Então na "caça" aos grilos era um ver se te avias observar a azáfama dos gaiatos pelos campos, de calções e alguns ainda descalços a arranharem as pernas e a picarem os pés nos cardos e em outras plantas mais agressivas, debruçando-se sobre as "talocas" dos bichos, após a escutada sinalização sonora e a identificação do buraco, que aliás muitas vezes se dava apenas pela pesquisa deste, identificando a presença de grilo pelos pequenitos mas esclarecedores dejetos do bicho.
Onde não houvesse cagadela, grilo não haveria de certeza!
Debruçados, mas de palhinha na mão com o comprimento suficiente para chegar ao fundo do buraco onde estaria o bicho, mas flexivel e resistente o bastante para em movimentos verticais de cima para baixo, fazer sair o grilo da "taloca", incomodado pela ousadia e persistência do bate, bate, do utilizador.
Por vezes era necessária muita paciência para esperar que o grilo se chateasse e saísse, mas quando esta faltava ou grilo não haveria, porque de casa já não precisava, o rapaz sem sem saber se este estava ou não, ajoelhava-se sob o orificio, pousava a palhinha, desapertava a berguilha (carcela, para os nortenhos) subtraia o instrumentozito e "mijava" para dentro do refúgio do bichito.
Não, não era masoquismo aplicado ao grilo, era apenas outro meio de o fazer sair no imediato para que não morresse lá dentro, intoxicado pelos vapores do liquido morno.
Mas o mais certo mesmo era sair uma grila. E desculpem-me os seres femininos, as grilas ou eram ignoradas ou "chacinadas" pelos pés do rapaz, pela fama que estas tinham de canibalismo após o famoso "ato", vingando assim o sexo mais fraco!
De uma forma ou de outra, assim que o grilo pusesse toda a sua constituição fisica no exterior, o rapaz antes de o apanhar metia um dedo na "taloca" a fim de evitar a fuga do grilo novamente para o seu interior. Apanhado, era metido numa caixa de fósforos vazia, num "cartuxo" de papel ou numa caixa de sapatos sem estes, que já tinham uns pequenitos orificios feitos para evitar a morte dos grilos por asfixia.
E de taloca em taloca, quando concluíam ter o suficiente rendimento do dia ou escurecendo já, cansados de "dar à palha", lá iam os rapazes fornecer o carregamento do Sr. Torrinha para Lisboa.
Dinheiro ganho, dinheiro gasto no primeiro lugar onde se vendesse rebuçados, outras guloseimas ou cromos da bola. Era a filosofia de quem coisas destas não teria se assim não obtivesse os proventos.
Felizmente que hoje ninguém apanha grilos e ouvi-los cantar nos campos é bem mais agradável quando neles passeamos.
Não sou saudosista, por natureza, mas também porque dificilmente alguém terá saudades dos tempos dificeis que poderá ter vivido algures no passado.
Mas é pena que não se veja a miudagem de hoje a brincar ou a descobrir os segredos da vida campestre na natureza. Os pais preferem antes que estejam ociosa e permanentemente "agarrados" aos écrans dos tabletes, telemóveis ou da play stations a contribuirem para a obesidade e a diabetes infantil, com o pretexto da segurança.
A aprendizagem das competências na utilização dos equipamentos e sistemas digitais são essenciais para o futuro das crianças, mas o equilibrio entre estes saberes e o desenvolvimento fisico e intelectual, baseado no meio ambiente é que tornará a população infantil mais saudável em todos os aspetos da sua evolução.
E havendo cada vez menos inclinação para a ida aos campos ver as árvores, as flores, as aves e os grilos cantar, por troca com as idas ao "shoping", o equilibrio ecológico cederá mais facilmente às alterações climáticas!
Outros tempos, outras vontades!

Texto e fotos da autoria do nosso compadre Manuel Montemor.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Orgulho de Portugal...


Ruth Manus, é advogada e professora universitária e escreve num blogue num Jornal de S. Paulo. E escreveu isto sobre Portugal, num texto que deve ser (é !) um orgulho lermos:
«Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas:
Ingratidão e pessimismo.
Sou incuravelmente grata e optimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui, embora me pareça que muitos nem percebam.
Não estou dizendo que Portugal seja perfeito.
Nenhum lugar é.
Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém.
Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente.
Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.
Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses.
Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém.
Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata.
Os ingleses aprenderiam tudo do zero.
Bacalhau e pastel de nata ?
Não.
Estamos falando de muito mais.
Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.
Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam.
Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima.
Saber que o porco é alentejano, que o vinho do Porto é do Douro.
Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.
O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses.
A história da quinta do avô, as origens transmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó.
O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos.
E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.
O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afecto que têm os portugueses.
De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem.
O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político.
Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal .
Os portugueses - de direita ou de esquerda - não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.
Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos.
Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afecto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.
Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de Abril para celebrar.
Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia.
Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.
Todo idioma deveria conter afecto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal transporta .
Gosto de ser chamada de “miúda“.
Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de “putos “.
Gosto do uso constante de diminutivos.
Gosto de ouvir ”magoei-te ?” quando alguém pisa no meu pé.
Gosto do uso das palavras de forma doce.
O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses, embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse seu país do que costumam ter.
Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las.
A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.
O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe.
Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos.
Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece.
Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.
Ruth Manus
Fonte: Facebook

terça-feira, 9 de junho de 2020

Damascos Caninos...


Meus irmãos, o que vislumbrais nesta foto, não é mais nem menos que um damasco da variedade canino. Não porque tenha algo a ver com canídeos, mas porque é mesmo o nome da variedade, canino. Que vos garanto tratar-se de uma autêntica delícia.
O maior dos problemas, reside no facto de não ser eu o único a considerar esta fruta como delícia, pois os pássaros da minha horta e zonas adjacentes, comungam integralmente e sem reservas desta opinião gustativa.
Ora, o que a foto na realidade reproduz, é tão só e apenas a colheita referente ao meu quinhão da produção anual deste damasqueiro.
Passo então a explicar melhor, esta árvore na semana passada continha suspensos muitos frutos como este, quase se assemelhando a uma árvore de Natal. Mas hoje, inteiro apenas sobrava um, pois um gang mafioso de aves das mais diversas origens, mas liderado por Gaios e Melros, já se havia encarregado de limpar o resto. E vai lá vai, ainda tenho é que ficar agradecido por este exemplar único que por cá deixaram, porque se não deu para enjoar, pelo menos ainda chegou para provar.
Confesso, que nem consigo compreender a razão de toda esta passarada ter assentado arraias no Vale Machoso, com tantas estevas, terrenos incultos, pinhais desordenados e eucaliptos que há por aqui em volta, mas enfim, cada um é livre de tomar as suas próprias opções. Quem sabe, se não estamos perante o cenário perfeito para a realização de uma segunda versão do "Birds" de Alfred Hitchcock.
Temos de encarar estes contratempos com espírito cristão e solidário, sobretudo para com os animais que connosco partilham o planeta, pois estes também são filhos de Deus. Dessa forma, reparti irmãmente a produção frutífera de forma igualitária e justa com toda esta passarada, ao que estes, em contrapartida retribuíram dividindo as tarefas comigo, resultando daqui uma harmoniosa pareceria em que se consignou o seguinte, quanto à produção esta é repartida em partes iguais de 99 % para eles e 1% para mim e, quanto à divisão de tarefas, a minha é trabalhar e a deles comer.
Se recuássemos algumas décadas atrás, àquele tempo em que apanhar pássaros era o deporto nacional infantil, muitos destes aventureiros já estariam neste momento temperadinhos em vinho branco, sal e alho, a caminho da frigideira mais próxima.
Não estranhem este hediondo desabafo, porque eu ainda sou do tempo em que as crianças brincavam na rua e iam para o campo, não existia Internet e os canais televisivos eram apenas dois, ao que ainda podemos somar o facto dos nossos bolsos andarem constantemente cheios, mas não se iludam que não eram cheios de grana, mas sim de ar, pois nada mais por lá havia. Tudo isto, seriam alguns dos factores que nos conduziam à prática de hobbies e passatempos com recurso ao que tinhamos à mão e sem quaisquer encargos, sendo um dos preferidos a censurável captura de pássaros, o que para os padrões da época era apenas a coisa mais natural do mundo, em consonância com as tradições do Portugal rural.
Felizmente, hoje não me revejo neste tipo de práticas, as quais abomino, sendo o Vale Machoso e com orgulho pessoal também um santuário para a vida selvagem, pelo que dessa forma não me queixo da sorte, pois meus irmãos, "quem se contenta com a sorte é feliz até à morte" !!!

Texto e Foto da autoria do nosso compadre Rui Delgado.

sábado, 23 de maio de 2020

Temos de preservar o que é nosso !...







Parar é desistir e desistir é manifestamente impossível !!!
Resistência, tradição, ruralidade, regresso ao passado, nostalgia, preservação e reavivar de sabores de outros tempos, tudo isto se poderá resumir em apenas duas palavras, estas são o “ Vale Machoso ”.
O Vale Machoso orgulha-se de se distanciar da figura de estarmos perante tão só e apenas de mais uma horta destinada à mera produção e recolha de produtos hortícolas, pois tudo aqui é bastante mais complexo relativamente aos objectivos e propósitos a atingir, sendo a preservação das variedades regionais, quer sejam estas hortícolas, videiras ou árvores de fruto, sem fundamentalismos, provavelmente o mais nobre de todos os seus desígnios.
Enfrentamos hoje em dia um processo de extinção em massa e pelo qual somos integralmente responsáveis, não apenas das espécies animais e vegetais que connosco partilham o planeta, mas também das variedades hortícolas e frutícolas, as quais sofreram um processo de selecção natural ao longo de séculos, que foi desenvolvido e nos foi legado pelos nossos antepassados, cujos padrões de vida actuais ditaram a sua interrupção ou mesmo retrocesso.
No que a variedades frutícolas diz respeito, quando nos dirigimos aos hipermercados encontramos sempre as mesmas e limitadas variedades, na sua maioria estrangeiras, como por exemplo, maçãs Royal Gala, Golden Delicious ou Starking, pêras Willians ou Conference. Até as variedades nacionais são aqui diminutas, pois muito poucas atingiram estatuto comercial, como foram os casos da pêra Rocha ou da maçã Bravo de Esmolfe.
O problema estendeu-se ainda aos viveiristas, que praticamente só comercializam estas mesmas variedades, mesmo quem queira adquirir outras fruteiras para plantio encontra aqui um atroz mar de dificuldades.
Mas, o que foi então feito das centenas de variedades regionais que em outros tempos chegavam à nossa mesa, dotadas de sabores próprios e característicos, bem longe dos padrões estandardizados de hoje em dia? Uma grande parte, infelizmente, está já perdida para todo o sempre, outras apenas sobrevivem em centros de experimentação agrária tutelados pelo Ministério da Agricultura e, por fim, outras estão por aí, em hortas e terrenos ao abandono, sem que ninguém dê pela sua presença. Pois, é sobre estas últimas que o Vale Machoso tem incidido o seu trabalho, realizando a pesquisa, identificação e propagação das variedades regionais gavionenses.
Os mais velhos certamente se recordarão de ouvir falar em coisas como, pêros, maçãs de Inverno, Camoesas (que por vezes eram utilizadas na fermentação do vinho), pêssegos de sangue ou da ameixa Pechegal. Ao contrário do que acontece na vinha, em que todas as castas, apesar de por vezes diversos, possuírem designações ou nomes próprios, aqui, muitos dos nomes atribuídos ás variedades foram entretanto perdidos com a extinção das gerações mais velhas, mas ainda assim foi possível verificar que o mais recorrente eram as designações serem atribuídas pela época de maturação, como figueiras ou pessegueiros de S. João, maçãs de inverno ou ameixas de Santo António, ou ainda variedades temporãs ou serôdias, consoante as fruteiras permitissem uma recolecção precoce ou tardia. Sendo que em todas estas designações cabiam várias variedades completamente distintas, tratando-se assim de “nomes colectivos”, em que o factor dominante para a identificação ou designação seria a “época”. Contudo, incube aqui salientar, que no contexto da cultura popular caberá sempre um pouco de tudo e mais alguma coisa.
Apesar de o cenário ser dantesco, acreditem meus irmãos, ainda subsistem verdadeiros tesouros. O melhor destes cenários que na actualidade pude verificar, prende-se relativamente ás pereiras, pois são árvores de grande longevidade e por aqui com alguma hegemonia varietal, bem diferente por exemplo das figueiras, em acentuado declínio, ameixeiras ou mesmo das macieiras, na minha opinião o verdadeiro ex libris das variedades regionais de fruteiras, dotadas de ampla diversidade.
Tudo começa pelo trabalho de campo, com a procura, pesquisa, identificação e selecção, tentando sempre que possível, saber um pouco da história desta ou daquela árvore. Depois, passamos à fase seguinte e mais complexa de todas, ou seja, a recolha de material vegetativo e sua propagação. Desimaginem-se aqueles que pensam em arrancar rebentos junto ao pé das árvores ou semear caroços dos frutos, poderão a partir daí obter uma árvore 100 % fiel à planta mãe, pois se no primeiro caso tal não é garantido, diria que no segundo é de todo impossível. Dessa forma, é necessário obter o material vegetativo destinado à propagação através das copas, seja mediante a recolha de garfos para enxertia, realização de alporquias ou enraizamento de estacas lenhosas, sendo que os métodos, na grande maioria dos casos não são transversais a todas as fruteiras.
No próximo ano, o Vale Machoso irá assim realizar o plantio e enraizamento de porta enxertos com recurso a varas de marmeleiro, para posterior enxertia de variedades de pereira e macieira, bem como e para o mesmo efeito, tentar obter junto de viveiristas porta enxertos de macieira, pereira e ameixeira.
(...)
Para terminar meus irmãos, quero comunicar-vos o seguinte, para quem tiver real e efectivo interesse nas variedades regionais e antigas do nosso Gavião e, pretender assim alguma planta para o seu quintal ou horta, poderá para o efeito entrar em contacto comigo, pois no próximo ano e dentro das disponibilidades existentes, terei todo o prazer em facultar o que for possível. Pois o objectivo central de tudo isto não passa pela posse, mas sim pela preservação, a qual só será possível através da partilha e difusão no contexto da agricultura tradicional e familiar.

Texto e fotos da autoria do nosso compadre Rui Delgado, ( Vale Machoso, Gavião )

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

As Pilha-Galinhas


Era véspera de Natal e as duas velhas  não tinham nada para comer...
Para quem não sabe, o Alentejo nunca foi terra de prosperidade, até chegava a ser muito hostil para os seus habitantes, que eram na sua larga maioria camponeses que ali passavam a vida a trabalhar. Imaginem agora o que acontecia aos que já nem tinham tinham préstimo para tal, a esses restava-lhes morrer, caso ainda tivessem um pequeno vestígio de dignidade.
Ora bem: duas velhas com maleitas já deviam anos á cova, só pernoitavam no monte porque o feitor, com ordens do senhor Conde, o dono da Herdade, que vivia lá longe na grande cidade, as deixava por ali ficar...
Assim sendo, coitadas, depois de servirem como criadas na casa grande durante décadas, o patrão novo achou que  não haveria problema se acabassem por ali os dias, naquele monte longe de tudo...
Mas passavam barrigadas de fome, porque viviam de esmolas numa terra de pobres...
Mas, naquele ano, o Menino Jesus decidiu compensá-las com uma prenda: Na noite anterior, uma família de ciganos veio acampar nas proximidades do monte e por ali ficou até ser corrida pelo feitor da herdade.
Que o Patrão não queria ali Ciganos, asquerosos e ranhosos, que fossem largar as pulgas e os percevejos lá longe, na vila... Que tivessem paciência...
E que não voltassem tão depressa, porque seriam corridos á lei da bala !...
E lá partiram os ciganos, pai, mãe, três ciganitos e duas ciganitas pequenas, carroça mal enjorcada, dois cães esqueléticos e uma mula velha, trapos e tralhas...
Foi então que as comadres velhas foram á capoeira e roubaram duas galinhas bem gordinhas...
Nessa noite de Consoada, comeram as galinhas cozidas e fizeram Canja de Galinha para os dias seguintes...
Durante dias não tiveram fome, graças a Deus !...
E, quando o feitor se apercebeu da falta dos seus galináceos, foram as duas comadres velhas as primeiras a dizer aos gritos:
"Foram aqueles Pilha-Galinhas, não valem nada, Cabrões dos Ciganos !..."

Autoria do conto ( baseado em factos reais ) : Pacmen64. Todos os direitos reservados, proibida a cópia do texto sem autorização do autor.

sábado, 12 de outubro de 2019

A lenda da Princesa Atilia ( Monsaraz )








A lenda da linda Princesa Atília, no Castelo de Monsaraz
Cerca do ano de 1151 o reino Mouro de Badajoz foi conquistado pelos Almóadas, obrigando à fuga do rei e dos principes e princesas para vários lugares do reino, na esperança de um dia poderem voltar à sua Corte em Badajoz!
Um dos principes, filho do rei Sabur fugiu para Monsaraz com a família por ficar perto e, por ser um lugar seguro, não sendo fácil a sua conquista pelos inimigos!
O principe Abdalá, tinha uma filha muito linda que, o acompanhou até Monsaraz, lugar que ela muito gostava, porque, quase se avistava a sua cidade de Badajoz!
A sua beleza era tanta que, todos os principes mouros dos reinos mais próximos a pretendiam e, faziam romagem a Monsaraz, trazendo-lhe presentes valiosos para lhe conquistar o amor! A bela princesa moura, a todos atendia, tendo o cuidado de não distinguir nenhum, mantendo-lhe acesas as pretensões, pois tinha interesse em os ter como aliados na luta contra os cristãos e contra os almóadas que lhe ocupavam a sua cidade!
O tempo foi passando e, a lista de pretendentes já era extensa, começando a haver impaciência por parte dos pretendentes!
A sua cidade continuava ocupada pelos almóadas e, por outro lado, o exército de D. Afonso Henriques e os bandoleiros do Geraldo o Sem Pavor estavam cada vez mais perto, então, não podia esperar mais para dar a conhecer o principe eleito pelo seu coração!
Devido às ameaças dos inimigos em várias frentes, o seu pai decidiu pedir auxílio ao rei de Sevilha, onde se deslocou para explicar a situação e convencê-lo de que, se os cristãos conquistassem as terras da Extremadura, rapidamente chegariam ao seu reino de Sevilha, mas essa viagem, desde Monsaraz era muito longa e, a linda princesa Atília, começou a ficar desesperada devido às más notícias que chegavam a todo o momento a Monsaraz!
Quando a princesa anunciou que, ia decidir quem era o escolhido, os pretendentes dirigiram-se a Monsaraz, com luxuosas embaixadas, porque, todos ansiavam por esse momento decisivo, cada um albergava dentro de si a esperança de ser o eleito, sabiam que, o mesmo, seria invejado e admirado, ao conquistar o coração daquela mulher que, todos enfeitiçava com a sua beleza!
A princesa era informada de tudo o que se passava, quem chegava, o que trazia, transmitiam-lhe todos os pormenores, porém, estava a chegar a hora da sua decisão e, não lhe anunciavam a chegada daquele que ela tinha escolhido para seu noivo! A princesa chamou a ama e perguntou-lhe:
Princesa: Oh Samira, porque motivo ainda não me anunciaram a chegada do principe Saíd de Myrtilis (Mértola)?
Samira: Minha princesa, ainda não anunciaram a chegada do principe Saíd, porque ele ainda não chegou e dizem-nos que, ainda não está por perto, ou então, pode ter sido apanhado pelos cristãos que andam por perto!
Princesa: Alá o ajude! E nós o que podemos fazer para o ajudar?
Samira: Minha princesa, sabemos que ele vem de Sudoeste, de Myrtilis, pode sempre enviar alguns bons cavaleiros ao seu encontro, ou a saber o que lhe aconteceu! Talvez se tenha atrasado!
Princesa: Então, transmite isso ao mestre de guerra, capitão Almir, para organizar um bom grupo de guerreiros e ir ao seu encontro, porque, sem a sua presença eu não vou anunciar o escolhido!
Decorria, então, o ano de 1167 e, quis o destino que nessa manhã em que a princesa mandou os emissários ao encontro daquele que seria o noivo, a região de Monsaraz já estava cheia de cristãos disfarçados de mercadores e infiltrados nas embaixadas dos visitantes! Quando o grupo de guerreiros mouros saíram do Castelo de Monsaraz foram travados pelos homens de Geraldo Sem Pavor e envolveram-se numa sangrenta batalha às portas de Monsaraz!
Os príncipes visitantes com os seus homens, acorreram em seu auxílio, mas os guerreiros de Geraldo Sem Pavor pareciam cães derramados e, os mouros começaram a fraquejar perante a sua furiosa investida! A luta já durava há longas horas, a princesa acompanhada por alguns atléticos guardas mouros dirigiu-se à Torre para dali observar a batalha ficando cheia de orgulho e alegria quando reparou que não só estava lá o seu preferido na peleja, como se destacava em atos de valentia!
O exército cristão, não parava de crescer, ao contrário dos mouros que cada vez eram menos, estavam a cair por terra a todo o momento, até que chegou a vez do seu escolhido, caiu sobre a espada de um homem de Geraldo Sem Pavor e morreu, imediatamente! A princesa Atília, adivinhou o seu fim às mãos daqueles cães, recolheu aos seus aposentos muito desgostosa, sabia que a tomada de Monsaraz estava por horas, bastava os cristãos encostar as longas escadas e subir as muralhas onde não existiam homens para as defender, então, a princesa mandou retirar a bandeira em sinal de derrota, apanhou um punhal de estimação, com o cabo em prata e ouro e crivado de pedras preciosas e cravou-o no seu coração! Os guardas, nada puderam fazer, deitaram-na no túmulo de pedra e cobriram-na com a bandeira do Castelo de Monsaraz!
Logo a seguir, os cristãos entraram no Castelo de Monsaraz, cansados, mas vitoriosos, os guerreiros saquearam a Vila, mas não foram autorizados por Geraldo Sem Pavor a entrar nos aposentos da princesa Atília! Depois de se informar do sucedido, deu ordens aos criados da princesa, para que fosse sepultada ali nos seus aposentos, com todos os costumes da sua crença, ficando, assim, a linda princesa Atília, sepultada no Castelo de Monsaraz com o punhal cravado no seu peito, o qual, parece que, até este momento, ainda não foi encontrado.

Texto da autoria do nosso compadre Isidro Pinto, Dinamizador do Grupo de Caminheiros "Caminhar em Monsaraz"

domingo, 25 de agosto de 2019

Alentejo Vivo

Já todos percebemos que os serviços, seja a DRAP – Direção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo ou a APA/ARH – Agência Portuguesa do Ambiente/Administração de Região Hidrográfica do Alentejo ou não vêm ou não atuam em situações onde está em causa a conservação do solo, as linhas de água, a biodiversidade, preocupadas mais em apresentar gráficos e estatísticas de crescimento produtivo e muitas autarquias assobiam para o lado ou pelo menos têm-no feito até agora.
Quanto às implicações na saúde das populações, que possam resultar dos pesticidas usados neste modelo de produção, compreendendo eu que é um tema tecnicamente difícil de abordar, mas necessário, até parece ser um incómodo falar do assunto.
A EDIA por seu lado parece por vezes mais uma agência imobiliária que tenta “vender” o mais rapidamente possível os terrenos dos blocos de rega, interessada como está em fornecer depois o seu produto, a água.
O ritmo a que se instala este novo modelo de produção, torna difícil que alterações legislativas de monta que venham a ser introduzidas produzam efeito atempado que possam “limitar os estragos” previsíveis. Por tudo isto a mobilização dos cidadãos como a que queremos protagonizar através deste movimento tem cada vez mais sentido de ser.
José Paulo Martins
Movimento Alentejo VIVO
Foto retirada da Internet

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Gentes de outra estirpe...









Pessoas habituadas a comer o "pão que o Diabo amassou", os alentejanos estão a ser cercados na sua própria terra por gentalha sem respeito pelos seus costumes, pelos seus hábitos ou seja, pela sabedoria ancestral aqui existente.
Entristece-nos muito quando vemos o eco-sistema de Montado a ser substituído por enormes áreas onde só se vêem plantações de crescimento intensivo e as águas dos nossos poços a serem inquinadas por venenos oriundos dessas explorações, que se estão a infiltrar lentamente nos lençóis freáticos.
Doí-nos muito quando sabemos que aqui existe gente escrava, pessoas vindas de paragens tão longínquas como o Bangladesh ou a Moldávia para substituírem a mão de obra alentejana, porque esta agora pede direitos consagrados pela nossa Constituição, chama a atenção quando vê alguma coisa mal feita e pede para ser paga a tempo e horas..
Será que nós, habitantes do Alentejo, pessoas que aqui vivemos, trabalhamos, criamos os nossos filhos e que sofremos as agruras de povoar uma parcela de um Portugal esquecido, que temos de aturar elites citadinas endinheiradas que aqui vêm espairecer, mas que não nos resolvem os nossos grandes problemas sociais de sempre, tais como o crónico desemprego, a solidão das pequenas aldeias, a enorme desigualdade entre ricos e pobres, os péssimos cuidados de saúde, a inviabilidade dos pequenos negócios locais e a deficiente rede ferroviária, precisaremos de elementos de "outra estirpe social"  para nos vir explorar, gozar com a nossa cara e ainda por cima, ser muitíssimo bem paga pelo suposto trabalho que faz em prol do progresso alentejano ?
O que ganhamos afinal com esta gente ?


" Não hão-de tardar muito, afianço-te, a dar cabo deste vale fértil e a transformá-lo num inferno.
É isso a que chamam progresso...
Nunca ouviste essa palavra?
Pois fica a saber que quando alguém te falar de progresso, é porque quer escravizar-te... "
Albert Cossery ( 1913-2008 )

Fotos: Arquivo Digital " Memórias ancestrais alentejanas" ( Colecção Digital de fotos antigas da Associação dos Amigos das Alcáçovas, autores desconhecidos )

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Volta a Portugal... a Pé...




Isabel Pessôa-Lopes planeou uma volta a Portugal continental a pé, em solitário, passando por todas as fronteiras, marítimas e terrestres. No final desta odisseia de 80 dias e mais de 2000 km, recorda a beleza e as gentes de um país que "desperdiça metade do seu território"
Ao longe, pareciam dois rochedos, negros, imóveis. E então começaram a mover-se. Cada vez mais depressa. E tinham cornos. "Desatei a correr, larguei tudo e subi a uma árvore. Tive de lá passar duas horas, porque os touros decidiram ficar a descansar na sombra..." Isabel Pessôa-Lopes, de 44 anos, traz muitas histórias da sua odisseia de 80 dias a caminhar por Portugal, algumas delas assustadoras, outras divertidas, quase todas profundamente marcantes. Descobriu um país "muito mais belo do que estava à espera", mas a viver num "tempo esquecido".

A missão era dar uma volta a Portugal continental, sozinha e a pé, passando por todos os pontos fronteiriços marítimos (fortes, faróis, cabos de mar) e terrestres (castelos, fortificações, linha da raia). Caminheira por devoção, Isabel enfrentou o desafio físico e mental com a determinação que lhe está no ADN - e que a levou, no passado, a ser piloto dos Asas de Portugal e candidata a astronauta. Hoje consultora de riscos na área aeroespacial, saiu do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, a 4 de Julho e regressou ao ponto de partida a 21 de Setembro, mais de 2000 km depois.

Não foi fácil. Mas foi muito gratificante, explica, agora que passaram alguns dias sobre o final da odisseia e já começa a readaptar-se ao ritmo da vida normal. Ri-se quando tenta descrever a sua imagem física durante a viagem, mostra as botas quase desfeitas, apesar de sete "curas" com cola, assume que ainda lhe é difícil passar muitas horas em sítios fechados. Durante mais de dois meses, calcorreou caminhos e estradas municipais, enfrentou os rigores do clima, fintou animais selvagens e habituou-se, gradualmente, à ideia que agora lança sem hesitações: "O perigo é quando há pessoas!"

Estamos a falar de uma mulher, sozinha, a caminhar por locais ermos onde já (quase) ninguém põe os pés. É um cocktail potencialmente perigoso, mesmo se ela carregava consigo apenas "alguns euros e um telemóvel já muito velhote". Mostra o aparelho, os sinais óbvios da idade e do uso a desactivarem cobiças. Só que, isso, ninguém sabia. E alguns encontros ao longo do trajecto acabaram mesmo por ser preocupantes.

"Ir a caminhar por uma estrada secundária e sentir que me estão a puxar pela mochila para cima de uma camioneta não é agradável", recorda. Na verdade, os homens que seguiam a bordo juntamente com uma carga de melões só queriam dar-lhe boleia. Nada feito. A missão era para cumprir a pé e na totalidade. Qualquer risco que, em nome de facilidades passageiras, pudesse hipotecar o objectivo final tinha de ser afastado. "E, muitas vezes, as pessoas não percebiam isso... Com boas intenções, claro, mas acabavam por me desviar do caminho, fazer-me gastar energias que me viriam a ser preciosas lá mais para a frente."

O som da Natureza

E foram. Ao cabo de 80 dias a caminhar, com esporádicas pausas de 36 horas em não mais de dois ou três sítios, Isabel tinha resvalado para um mundo paralelo, um universo onde as vivências se faziam a dois tempos e em dois registos diametralmente opostos: "Caminhava sozinha, mas nunca experimentei solidão. A Natureza, quando se sente protegida, ou seja, quando sabe que não há presença humana, faz muito barulho! E o nosso país tem paisagens belíssimas! Depois, chegava às terras e as pessoas queriam receber-me o melhor que podiam e sabiam..."

Recolhimento e diplomacia, em doses diárias... Chegar a um sítio e os presidentes da junta organizarem uma recepção, por exemplo. Como dizer que é fantástico um espectáculo de boas-vindas, mas que o corpo grita de cansaço e só quer cair na cama? "Numa terra, à noite, tinha o meu lugar reservado na primeira fila. Não sei como não adormeci..." Mas, também, como levar a mal? Como separar estes episódios do apoio incondicional das juntas e dos bombeiros, principalmente nas terras junto à raia, apoio sem o qual, garante Isabel, "tudo teria terminado logo no Baixo Alentejo"?

E estaríamos aí ainda nem a metade da expedição. Isabel saiu de Lisboa e palmilhou o litoral oeste rumo a sul, beneficiando da autorização "especialíssima" concedida pela Direcção de Faróis da Autoridade Marítima Nacional, da Marinha Portuguesa, para poder pernoitar nos faróis ao longo da costa. "Sem ela, esta viagem teria ficado muito aquém do que queria", assume. A mochila, que à partida pesava "15 ou 16 quilos", depressa se viu aligeirada para perto dos dez - os itens em excesso ficaram em casa de amigos, no Rogil, costa alentejana.

Isabel levava consigo três t-shirts de manga comprida, duas calças, três pares de botas (para enfrentar diversos tipos de piso) - "nada mau para uma mulher, não?!", ironiza. Cordas, lanternas, medicamentos (que acabou a distribuir por pessoas do interior que não tinham acesso a eles), água. Às vezes muita água. "No Baixo Alentejo, cheguei a carregar sete litros, porque sabia que não iria encontrar povoações pelo caminho."

Foi, provavelmente, a fase fisicamente mais exigente da caminhada. Apesar das espantosas trovoadas que enfrentou, em Agosto, no Parque de Montesinho, Trás-os-Montes, ou das chuvadas violentas e sucessivas com que foi brindada nas jornadas minhotas. Foi na zona de Barrancos e Amareleja (estatisticamente, as mais quentes do país) que a meteorologia se mostrou mais inclemente. "Tenho a tensão baixa e, em Safara, dirigi-me ao posto de saúde, porque me sentia a desfalecer. A senhora que me atendeu avisou-me logo que também ela estava a pontos de desmaiar. Lá dentro, com tecto alto e ventoinhas, estavam 42 graus..."

Nessas situações, valem o planeamento (ter sempre bastante água) e alguns truques, como molhar o chapéu para manter a cabeça fresca e colocar um pequeno seixo debaixo da língua, o que estimula a salivação e impede a boca de secar. Protector solar factor 60, mesmo com calças e manga comprida, também deu muito jeito. Mas o essencial é mesmo manter a determinação e ter capacidade de sofrimento.

Mas adiantamo-nos. Antes de chegar a este país esquecido da raia, Isabel cumpriu a costa algarvia. Desilusão. Emigrante há duas décadas, fazia ainda mais tempo desde que esta filha de uma família lisboeta visitara a zonal mais a sul de Portugal continental. "Há 27 anos que não ia ao Algarve. E não tenciono voltar. Sagres e Lagos, tudo bem, mas daí para a frente é tudo uma "Torremolinos low cost", à excepção das ilhas da ria Formosa. Felizmente, tinha os faróis para pernoitar, o que me servia de escape mental..."

As jornadas começavam a ser mais curtas. Ao princípio, Isabel calcorreava perto de 40 km por dia, depois o cansaço foi-se acumulando e as distâncias diminuíram. Lá mais para o fim, a média andava por metade da distância. Complicava-se o calendário da chegada, mas ganhava-se tempo para apreciar paragens completamente desconhecidas. "Na raia, de Castelo Branco para cima, não conhecia nada."

Em Lisboa, membros do CAOS, Círculo de Actividades Oxigénio e Sol - a organização com a qual Isabel faz as suas caminhadas quando está na cidade -, comunicavam com todo o país, tecendo uma teia protectora... Contactavam os núcleos regionais, e estes, calculando os ritmos de progressão (muitas vezes não havia, sequer, possibilidade de falarem por telemóvel), iam avisando as juntas de freguesia da região da possível chegada da caminheira. "A partir de meio do caminho, mais ou menos, quando as forças já faltavam, era-me completamente impossível cumprir as jornadas e, depois, ainda andar à procura de alojamento ou serviços", reconhece Isabel. Não era necessário. Havia sempre alguém à sua espera.

Toda a gente queria ajudar. Às vezes "até de mais", ri-se Isabel. Foi, para ela, também uma viagem recheada de ocorrências bizarras, tantas vezes a exigirem uma abordagem "à Monty Python", com o sentido de humor a funcionar como válvula de escape. "Num posto da GNR, não me abriram a porta porque tinham sido assaltados duas vezes há pouco tempo..."

Afinal, é preciso ter em conta que ela visitou terras onde era "nítida a sensação de que não passava ali gente há muito tempo". Terras onde se viam "velhotes com pensos feitos por um profissional, mas que não eram mudados há meses..."; terras onde não há um café, um posto médico, rede de telemóvel, um Multibanco, TV em condições. "Sítios que eu conhecia dos anos 80 estavam na mesma, excepção feita ao facto de haver agora melhores estradas. Estas pessoas vivem no abandono. O país que lhes aparece na televisão é-lhes completamente estranho!"

Bons e maus momentosDessas visitas, de passagem ou pernoita, ficam tantas histórias que é difícil enumerá-las em uma hora de conversa. Não é só a imagem do caminheiro a distribuir medicamentos pela população local que nos remete para o imaginário de aventuras noutro continente. São as dormidas em sítios "onde ninguém entrava há 20 anos", as torneiras que se abriam "e saíam lá de dentro bichos vivos"... África? Não, Portugal. "É incrível como um país tão pequeno desperdiça assim metade do seu território."

Mas nem tudo foram espinhos. Para lá da intensa, e marcante, interacção com as populações da raia - "gente que pouco tem mas tudo reparte; nunca vi fome e nunca ninguém me faltou com ajuda" -, houve momentos em que a dureza da viagem foi temperada com pormenores de luxo. No Hotel Rural da Herdade da Poupa, Rosmaninhal, por exemplo. "Nem queria acreditar! Nesse dia, tinha fugido da camioneta dos ciganos, indo para uma herdade onde me apareceram cães ferozes, e depois ainda tive o episódio dos touros, mais uma subida infernal para Cegonhas, ao final do dia..."

Isabel vai recordando tudo isto enquanto folheia os mapas e o livro onde guardou carimbos e recordações dos sítios por onde passou. Ainda hoje, mais de uma semana depois de terminada a sua rota pelas fronteiras de Portugal, tem dificuldade em identificar os maus e os bons momentos. Lembra-se de ser seguida por um lobo no Parque de Montesinho, de pensar que algum dia teria de magoar um cão que a ameaçasse, da tensão sempre que se deparava com gado bravo. Mas mau, mesmo, "foi encontrar quilómetros e quilómetros de prostituição feminina à beira da estrada".

Foi sempre uma interacção "muito dura": "Elas enxotavam-me, diziam que lhes estava a estragar o negócio se parava para beber água. Outras pensavam que lhes fazia concorrência, coitadas, eu vestida da cabeça aos pés, com sacos e mochilas, o cabelo a parecer um porco-espinho..." Mesmo com este visual propositadamente andrógino e anónimo, Isabel também teve de enfrentar automobilistas masculinos que a confundiam. "Uma pessoa tolera este tipo de situações um número limitado de vezes! A certa altura, tive mesmo de refrear o meu mau feitio, porque as coisas podiam acabar mal."

Estas cenas ocorreram já na zona da raia minhota e ao longo do Litoral Centro. Não se esqueçam, podíamos estar em África: "Em S. Pedro de Muel, convenceram-me a não fazer a estrada secundária até Quiaios, porque eram frequentes os assaltos e, até, homicídios. Adorava ter feito este troço pelas dunas da costa, mas um homem chegou a dizer-me que, na estrada, se tivesse uma avaria, sacava logo da espingarda, porque as pessoas que passam ali ou levam peixe para o mercado ou dinheiro para o irem buscar e, portanto, os assaltos são comuns."

Faltam palavrasMaus momentos, também, aqueles em que percebeu como o interior do país está negligenciado, esquecido, votado ao abandono. "Até as próprias famílias... Vi velhotes com fotografias dos netos em bebés, alguns agora já têm mais de 20 anos. Estão no estrangeiro, nunca mais os visitaram. Esses velhotes são a nossa memória colectiva, mas ninguém quer ouvir o que eles têm para contar. É gente que trabalhou toda a vida, de sol a sol, e agora ninguém quer saber deles."

A viagem, que começou como uma homenagem a todos os que deram o seu sangue para forjar as fronteiras nacionais mais antigas da Europa, acabou por se transformar numa romaria ao chamado país real. Ficou a passagem pelos sítios, a constatação de que, genericamente, "o legado histórico está muito mal preservado". "Dá dó ver sítios como o castelo de Noudar ou o forte da Juromenha, por exemplo. Mas também há exemplos positivos: os castelos de Chaves, Bragança, Sabugal, Monsanto."

Era para ser essa jornada pelo passado e tornou-se uma campanha no presente? Seria fácil dizer que sim, mas também que não. "A minha vida profissional faz-se em cidades como Londres, Nova Iorque, Hong Kong... Comparado com esses sítios, Portugal está todo em ritmo de férias, para mim todo o país é passado. Mas a raia, então, é impossível ser presente. Quanto mais nos afastamos das cidades e das vilas, mais as pessoas vivem num tempo esquecido."

Mas este, para o bem e para o mal, é o seu país. Em duas décadas de diáspora, Isabel Pessôa-Lopes já abriu e fechou onze casas: Japão, França, Alemanha, Inglaterra, República Checa... Conhecia o mundo e não conhecia o seu país. Agora conhece-o. E admira-o. "Os melhores momentos foram aqueles em que apreciei a beleza paisagística. As saudades eram muitas e tudo era muito mais bonito do que eu estava à espera. Andei sempre cheia!"

"Esta está longe de ser a minha maior aventura. Já fui buscar pessoas à morte, já podia ter morrido várias vezes... Não, não foi a minha maior aventura. Mas foi a mais emocional!" Dela ficam as memórias, as vivências, as fotos. Para escrever um livro? Talvez. "Um livro sobre os sítios por onde andei e que quase ninguém conhece. Um livro sobre o caminho, mas deixando-me de fora..." Porquê? E então as emoções, os nós na garganta, a marca humana? "Faltam-me palavras para descrever tantas coisas que vivi. As palavras não estão à altura", confessa, de olhar ausente. E então volta a mulher pragmática: "Mas para quê ler as aventuras dos outros? Façam-se à vida!"

Copiado do site: http://fugas.publico.pt/

terça-feira, 14 de maio de 2019

De Chaves a Faro, a caminhar pela Nacional 2


Montemor-o-Novo-Alcáçovas: 34 km (só faltam 185)
Perto de Montemor, um homem vergastava a vegetação espalhando folhas pela berma. Quando lhe perguntei porquê, mostrou-me um saco velho. 
Mas era mais coisa viva do que saco: dentro, em fuga lenta - demasiado lenta para ser fuga - estavam centenas de caracóis do tamanho de polegares.
 “Estes sim são muito bons.” 
Vão ao lume em vinho branco com piripíri e uma batata muito redonda. 
Fiquei a pensar na batata redonda e na tranquilidade com que os caracóis se preparavam para a panela. Depois continuei a tiragem, palavra que aprendi por aqui para as grandes distâncias a pé. 
No Grupo Desportivo de Reguengo São Mateus tomei café com um pedreiro que se queixava do tempo. Simulei o mesmo ódio, embora tenha percebido que a chuva dele macerara mais do que a minha. 
Eu fiquei com sapatilhas encharcadas; ele, com cimento liquefeito a pingar do telhado de uma casa. Desejei-lhe boa sorte sabendo que entretanto os meus pés haviam secado - e o cimento também. 
Antes de Santiago do Escoural, um tractor equipado com um braço longo e insaciável comia as ervas da berma, comia os caracóis que nelas houvesse (sem vinho, piripíri ou batata), quase comia o asfalto. 
Deixava um rasto verde que não era sangue mas era ferida. Daí em diante, a estrada pareceu-me um corte incapaz de cicatrizar. 
Ladeavam-na sobreiros progressivamente mais velhos, de troncos quais nós cegos cobertos por musgo também ele ancestral. 
Impressiona saber que deixaram de ser árvores: neles vai a memória de quem os semeou, cuidou, extraiu a cortiça. Até, espero, de quem por eles caminhou rumo a Faro.
PS - Obrigado à Cruz Vermelha das Alcáçovas pela estadia e ao restaurante As Piscinas pelo jantar.
Afonso Reis Cabral