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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Leva-me contigo...


 Foram semanas de pessoas e paisagens por essa longa estrada. Agora não sou eu quem caminha, é o livro. Lá dentro vai saudade e agradecimento. O corpo voltou logo ao normal, eu é que ainda não estou refeito. Quem acompanhou a caminhada - a generosidade das pessoas continua a surpreender-me todos os dias - sabe de onde vem o título. Espero que gostem da capa!
Sinopse:
A Estrada Nacional 2, com os seus quase 739 quilómetros, é a maior de Portugal e uma das maiores do mundo. Atravessa Portugal de Chaves a Faro, numa linha contínua que não é feita só de asfalto. Estrada mítica e com identidade própria, é o mais belo caminho para conhecer as pessoas, as paisagens – o País, em suma.
O escritor Afonso Reis Cabral – autor dos romances O Meu Irmão (vencedor do Prémio LeYa) e Pão de Açúcar – decidiu percorrê-la a pé. Durante vinte e quatro dias, completamente sozinho, deixou que a estrada o guiasse: cruzou montanhas e planícies, mergulhou em rios, caminhou debaixo de tempestades e sob o sol ardente. Mas sobretudo parou para conversar com quem encontrava. No fim de cada dia, publicava na sua página de Facebook um diário escrito no telemóvel relatando os principais eventos da viagem. Com milhares de leitores, comentários e partilhas, os seus textos geraram grande entusiasmo. Agora em versão ampliada e ilustrada, eis em livro o diário do caminho.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Capela de S. Geraldo ( Alcáçovas )











Do livro Breves Memórias da Villa das Alcáçovas. Pode ler-se tal e qual como no livro o seguinte:
Capela de S. Geraldo.
Apequena distancia da villa, e ao norte, está a capella do arcebispo S. Geraldo, também de abobada, com alpendre, no qual está collocado o pulpito de ferro, muito deteriorado pelo tempo...Em outros tempos affluia grande numero de devotos a vesitar esta ermida...Em honra do glorioso Santo...havendo tambem por essa ocasião uma feira nos terrenos proximos...
Consta que fôra fundada no anno de1599...
È provavel que fosse reparada e pintada a fresco pelos annos de 1602 a 1605...
A capella é bonita e alegre, mas as paredes já muito deterioradas pelo salitre e pelo abandono da junta de parochia, que nenhum cuidado e atenção presta á conservação d´estes monumentos, que a piedade e devoção de nossos maiores nos legaram...

Este livro é do ano de 1890, em algumas observações parece que foi feito agora e assistiram à festa no passado fim de semana, a capela por pintar, as ervas por limpar, o chão sem sem ser molhado...
Texto e Fotos da autoria da nossa comadre Bela Mestre...


Fotos: João Mendes ( 2011 )

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Os Transmontano No Alentejo...






Da autoria de Maria Tavares Transmontano, este livro conta-nos a saga de uma família com origem  em Monforte de Rio Livre, uma antiga vila localizada antigamente na área compreendida entre Chaves e Vinhais.
Os antepassados desta família puseram-se ao caminho, rumo ao Sul, em meados do Séc. XVIII e os seus descendentes estabeleceram-se sobretudo em Castelo de Vide, Marvão e Portalegre...
Livro com imenso interesse histórico, editado pela Câmara Municipal de Castelo de Vide.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Albernoa


O blog "omelhoralentejodomundo" promove e divulga as pequenas aldeias e vilas do Alentejo Profundo, assim como os pequenos negócios locais, as gentes e as genuinas tradições alentejanas.
È com imenso prazer que hoje damos a devida publicidade a Albernoa...




Albernoa foi uma freguesia do concelho de Beja, com 110,36 km² de área e 758 habitantes (2011), ou seja, com uma densidade de 6,9 hab/km².
Foi extinta em 2013, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, tendo sido agregada à freguesia de Trindade, para formar uma nova freguesia denominada União das Freguesias de Albernoa e Trindade da qual é a sede.
Albernoa é uma localidade que remonta o seu povoamento a épocas anteriores à formação da Nacionalidade. O próprio topónimo (ALBERNOA) o confirma claramente.
Com efeito, Albernoa é um nome de origem árabe, que segundo Pinho Leal provém de barrelnaua, “campo do caroço”.
Este facto prova que existia já população neste local aquando da Reconquista Cristã, já no século XIII e durante o reinado de D. Sancho II.
A população recebeu também o nome de aldeia de Aldeia Velha, num processo assim descrito por A. A. Almeida Fernandes na “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”: “O designativo de “aldeia” dado propriamente a Albernoa reflecte o antigo sentido do vocábulo “aldeia” (origem arábica), territorial-agrário, sucedâneo, ao norte, do arcaico “villa” depois dos meados do século XIII, e está de acordo com o sentido, também territorial ou geográfico em parte, do étimo arábico. Daí que os repovoadores portugueses chamassem ao núcleo de povoamento anterior achado “aldeia velha”, principiando um novo povoamento, também chamado «aldeia»”.
Quanto à instituição eclesiástica de Albernoa, parece que sua história inicia-se apenas depois do século XIV, data da erecção paroquial. Terá sido integrada, logo no início, no município de Beja. Anos depois, no entanto, era Albernoa um curato da apresentação da Sé de Évora. A importância da localidade, a nível administrativo e mesmo religioso, aumentou à medida que o número de pessoas aqui residentes ia aumentando.
A partir de 1860, o número de habitantes de Albernoa mais que dobrou, num fenómeno que continuou com as mesmas características até aos anos 50 deste século. Nessa altura, viviam nesta povoação cerca de 2 200 habitantes. Dedicavam-se sobretudo à agricultura, embora o comércio tenha tido também um peso considerável na sua economia.
Albernoa foi honrada pela escrita de José Saramago, que em “Viagem a Portugal” dela disse:
"Oh, senhores, vós que ao sol da praia vos deitais, vinde aos campos de Albernoa conhecer o Sol. Vede como estão secos estes ribeiros, o barranco de Marzalona, a ribeira de Terges, os minúsculos, invisíveis afluentes que não se distinguem da paisagem, tão seca como eles. Aqui se sabe, sem Ter de recorrer aos dicionários, o que significam estas palavras: calor, sede, latifúndio. Ao viajante não faltam luzes destas paragens, mas o que os olhos mostram é sempre maior e mais do que se julgava saber. Um milhafre atravessou a estrada em voo picante. Veio do alto caindo, parecia que tinha claro o alvo entre os restolhos, mas depois, com um golpe de asa, quebrou a descida, e, noutro ângulo deslizando, orientou o voo para além das colinas. Anda à caça, solitário na imensidão do céu, solitário nesta outra imensidão fulgurante da terra, uma ave de presa, força de sede e aço, só quem uma vez te não viu pode censurar-te a ferocidade. Vai e vive"

Fotos da autoria do nosso compadre e amigo Fernando Quaresma.
Texto retirado do Site Wikipédia.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Os Senhores das Alcáçovas"


Alcáçovas é uma vila com História,  que  foi feita por muitas gerações de gente comum.
Mas esta é a história da principal família de Alcáçovas, que teve proeminência local durante cerca de cinco séculos: Os Henriques.
Conhecer a sua história é também prestar uma justa homenagem a todos os que permitiram que esta família prosperasse, fossem eles fidalgos, lacaios ou camponeses.

"Os Senhores das Alcáçovas e os Condes das Alcáçovas"
Autor: André Correia. (Autodidata e Presidente da Associação dos Amigos das Alcáçovas).
Lançamento 27MAI, 11H00, Paço dos Henriques, em Alcáçovas.
Entradas livres


terça-feira, 28 de março de 2017

Minha Terra é Lua-Cheia !...


MINHA TERRA É LUA-CHEIA...

Meu berço de luz e “fado”
Tem estatuto de aldeia!
Em sentido figurado
Minha terra, é Lua-cheia
I
Minha raiz de aloendro
Expande-se em terra raiana,
Junto do Rio Guadiana
É corrente à qual me prendo,
É fonte onde vou bebendo
Ali no meio do montado ,
É o mais lindo povoado
Cita, a “Mina do Bugalho”
Terra de amor e trabalho
MEU BERÇO DE LUZ E “FADO”
II
Tem o Alandroal a poente
E a sul terras de Espanha,
A leste fica Juromenha
E Elvas logo mais à frente.
Minha terra, luz fulgente
Em si, o amor campeia,
Por graça, chamo-lhe feia
Faltando assim à verdade,
Podia ser uma cidade,
TEM O ESTATUTO DE ALDEIA!
III
A minha terra é alvura
De azul e branco vestida,
É noiva comprometida
Faz jus à sua cultura,
É uma tela em pintura
De um Éden ajardinado,
É feitiço bem vincado
Da mais bonita mulher,
Será tudo o que eu quiser
EM SENTIDO FIGURADO
IV
Tem um Zoo em campo aberto
Que lhe dá mais colorido,
Lugar ao Sul, esquecido,
Longe de tudo e tão perto!
Nunca foi, nem é deserto
Porque, boa fama granjeia,
É meu canto de sereia,
É meu sol de Primavera,
É a noite que me espera,
MINHA TERRA, É LUA-CHEIA!
Tiago Neto

sábado, 24 de dezembro de 2016

Doces de Natal, a glória do açúcar...


DOCES DE NATAL: A GLÓRIA DO AÇÚCAR
Todos os anos há quem reclame do trabalho que dá preparar o Natal. E todos os anos, com maior ou menor rigor, com maior ou menor paciência, a maioria dos portugueses não abre mão de duas coisas: do bacalhau e dos doces. E que doces são esses?
«Punha-se a toalha grande, os talheres de cerimónia, os copos de pé, as velhas garrafas douradas. Acendiam-se mais luzes nos castiçais de prata. As criadas, de roupinhas novas, iam e vinham ativamente com as rimas de pratos, contando os talheres, partindo o pão, colocando a fruta, desenrolhando as garrafas (...), as frituras de abóbora-menina, as rabanadas, as orelhas-de-abade tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas em pirâmide nas travessas grandes. Uma voz dizia: "Para a mesa! Para a mesa!".»
Passaram-se anos, e não foram poucos, e mudaram-se hábitos e tradições, muitos. Ainda assim, apostamos, a grande maioria dos portugueses, não importa a idade ou a proveniência, rever-se-á, pelo menos em parte, nesta narrativa. Foi escrita no final do século XIX por Ramalho Ortigão, numa das suas crónicas mensais reunidas sob o título de As Farpas (de que participou também Eça de Queirós) e permanece como uma das descrições mais eloquentes de que há memória sobre a essência da ceia de Consoada à portuguesa.
Maria de Lourdes Modesto, referência incontornável quando se quer falar de raízes e tradições gastronómicas, quando interpelada a falar sobre o tema, confirma isso mesmo: «O que não pode faltar na minha mesa na véspera de Natal? Uma toalha branca. Para mim ainda não é a noite da Consoada, é e será sempre a Ceia do Menino Jesus. Assim se chama a refeição que se come no dia 24. Respeita-se a liturgia, come-se magro, "Como Deus Manda". As carnes fritas, essas só se comem depois do regresso da Missa do Galo, já no dia 25.»
Certo, hoje não levaremos porventura as coisas tão ao pé da letra como a ilustre decana, deliciosamente ciosa dos seus Natais passados no Alentejo, o que não quer dizer que tenhamos perdido por completo as nossas estrelas-guias. Pelo menos em matéria de doçaria. Logo, em vez de começarmos pelo que mudou, vamos falar do que está arreigado no nosso receituário coletivo. De-lés-a-lés, sem esquecer, claro está, as ilhas.
Sobre a mesa minhota nesta quadra, o mesmo Ortigão era perentório: «Há só um banquete que desbanca todos os jantares de Paris (...), é a ceia de Natal nas nossas terras do Minho.» Por aqui, depois do bacalhau e do polvo, é da praxe seguirem-se doces como as rabanadas de leite e de vinho, os bolinhos de jerimu (pequenos doces de abóbora fritos) e de gila, os mexidos (levam, entre outras coisas, pão, leite, canela e amêndoas), a aletria, as fatias douradas, a sopa seca (fatias de pão embebidas num caldo de carne doce, servidas em camadas com açúcar e canela) e as orelhas-de-abade (massa de pão cortada em forma de orelha, frita em azeite a ferver e servida com açúcar e canela).
Há quem reclame estas últimas para Trás-os-Montes. Seja como for, a esta região não faltam outros doces como os formigos (semelhantes aos mexidos), as migas doces de Valpaços (ovos, miolo de noz e canela), as filhós de Bragança, os sonhos e o pudim de Natal. (…)
(João Miguel Simões, in «Evasões»)

domingo, 11 de dezembro de 2016

João Cigano




O meu nome é Terra. João Terra. Mas aqui, na minha aldeia, todos me conhecem por João Cigano. Não que eu não goste do meu apelido; para dizer a verdade, gosto, e muito. Até porque o herdei do meu falecido pai, e este do pai dele e por aí a fora, mas Cigano é o sobrenome que vai comigo. Que me assenta como uma luva. Sinto-me mesmo orgulhoso quando ouço alguém dizer  — “Olha, vai ali o João Cigano”. Chamam-me assim há muito porque sempre me preocupei em defendê-los. Já lá vão... sei lá... talvez uns cinquenta anos.

Foi uma coisa que se me pegou assim à pele, como se fosse uma tatuagem, uma imagem de marca. No Alentejo todos temos uma alcunha que nos há de acompanhar a vida inteira. A mim tocou-me esta, que como vos digo, bem que podia ser o meu verdadeiro apelido.

Apelido já ela é, porque aqui na região este é o nome que se dá à alcunha. Aliás, devo dizer, a palavra “cigano”, está no topo das minhas preferidas. Gosto de outras, mas esta é mesmo a minha favorita. Soa bem em qualquer língua. Senão vejamos: gitano, zingaro, gitane, gipsy, tzigane, são várias maneiras de dizer a mesma palavra, mas sempre com aquele élan sonhador e libertário que esta nos transmite quando a pronunciamos.

Para se saber porque é que assim me chamam, precisamos de recuar meio-século, pelo menos. Tal como hoje ainda acontece, esta estirpe de gente, quando aportava a uma localidade, acampava nas aforas do povoado.

As mães, alertadas com a chegada dessa maralha de tez escura, vá-se lá saber porquê, chamavam para a sua beira os filhos pequenos, protegendo-os de um medo que elas mesmo carregavam, mas na verdade, não o sabiam explicar.

Era coisa ancestral. Recomendações de dedo em riste. Conselhos recebidos em noites de invernia à roda do fogo. Um dos tantos temores que faziam parte do crescimento e da educação de então, e mesmo de agora.

Naquele tempo, eram várias as explicações para esse infundado receio: o mau olhado deitado pelas ciganas, o hipotético rapto de crianças ou mesmo o corte raso das tranças das moças pequenas. Dizia-se, então, que era para venderem para fábricas de bonecas, para serem transformadas em cabeleiras.


Mitos rurais de que toda a gente ouviu falar mas ninguém viu acontecer. É um bocado como as osgas. Todos dizem que são peçonhentas, que urinam nos olhos das pessoas fazendo com que percam a visão, mas quando se pergunta quantos casos de cegueira provocado por estes répteis conhecem, a resposta é, invariavelmente, nenhum!

Muito cedo, percebi que o problema da conflitualidade latente entre ciganos e não ciganos não está na etnia das pessoas nem na cor da pele. Está sim na civilidade de parte a parte; na organização política, social e familiar; na ostracização secular a que foram votados, e no eterno faz de conta da integração, com as culpas direitinhas pelo fracasso das ações de inclusão, atiradas para a parte mais frágil.


Um pouco como o exemplo das osgas. Todos lhes temos um certo asco. Mal as vemos, munimo-nos de imediato de vassoura ou arma semelhante e, através dela, procuramos expulsar uma certa raiva que não sabemos dominar, um instinto assassino que não sabemos explicar, esquecendo-nos de que as osgas contribuem, e de que maneira, para a sustentabilidade do meio-ambiente. Afinal, são elas as responsáveis para que não sejamos tão picados ou mordidos pelos inconvenientes e implacáveis insectos veraneantes.


Com os ciganos acontece o mesmo. É claro que se olha com desconfiança de parte a parte. O tempo fez de nós antagonistas. Curiosamente, conheço pelo menos um caso onde as crianças ciganas salvaram a escola primária de fechar. Um anseio reclamado pelos moradores dessa localidade. Não me recordo de alguma forma de agradecimento aos ciganos salvadores.


Recordo-me, sim, do meu pai me contar que, no tempo da fome, esperavam que os ciganos chegassem à aldeia para que ele e os seus comparsas pudessem roubar galinhas e borregos à vontade. Assim podiam deleitar-se com lautos petiscos, porque a quem seria apontado o dedo e, quantas vezes o cano da espingarda, era aos pobres dos ciganos. Porque verdade seja dita, para matar a fome a si e aos filhos, muitos deles também surripiavam o seu fardo de palha para dar de comer às bestas, ou mesmo uma ou outra galinha. Até porque nas entranhas daquela gente também existia um estômago que implorava por alimento.


Quantos não desprezam os ciganos mas aplaudem as trivelas do Quaresma, mesmo sabendo que este é de raça calé?! Normalmente acrescenta-se um comentário jocoso do género — “Cabrão do cigano é mesmo bom. A bola até parece que tem olhinhos!” Quantos anti-ciganos não dançaram a “Macarena” ao som do duo Azucar Moreno, duas beldades orgulhosamente ciganas. Até o Benfica já teve um treinador cigano. Lembram-se? Quique Flores, sobrinho de Lola Flores, outra cigana imortal.


Quem diz ciganos, diz negros. Sei de gente que os odeia mas amava o Eusébio, ou por outra, amavam as alegrias que aquele preto lhes proporcionava. E se o sacana do preto nos deu alegrias! Somos assim! Somos a etnia dominante, mas comportamo-nos de forma troglodita, hipócrita e desprezível.


Ficamos apenas com o filet mignon que estes nos oferecem. Ao mesmo tempo, rejeitamos via desculpa fácil tudo o que está à volta, exigindo aos outros que se integrem, quando somos nós, maioria influente, que temos o dever de os incluir.

Estão a ver porque me chamam João Cigano? Sou assim, fervo em pouca água. Na verdade, cá por dentro, naquilo que me lavra no peito, no sangue que me corre nas veias, na maneira como espreito o mundo, no modo como avalio o meu semelhante, sinto que aqui, no lado esquerdo do meu corpo, neste incessante contador de impulsos, cavalga um coração de nómada, um ser sedento de liberdade, de uma liberdade sem grilhetas, algemas ou fronteiras, de uma inabalável vontade de viver partindo e de regressar sorrindo.

In: De Coração D'Interiores de Napoleão Mira

Copiado do Blogue do nosso compadre Napoleão Mira, http://pulanito.blogspot.pt/

sábado, 1 de outubro de 2016

Carta de um velho ao Mundo (Dia Internacional do Idoso)

                                                       Dia Internacional do Idoso: 01OUT
                                                           (carta de um velho ao mundo)
Quando leres estas palavras provavelmente já terei morrido. É tão simples perceber a inutilidade das palavras quando “morte” tem apenas cinco letras e acaba com tudo. O que deixo para trás não sei dizer. Deixo a certeza de que fiquei sempre aquém do que pude ser. Fui sempre quase o que quis ser, e provavelmente foi isso, apenas isso, o que realmente desejei ser.
À vida nunca pedi muito e ela deu-me tanto. Quando era pequeno acreditava no Pai Natal, na felicidade eterna, nos casais que ficavam juntos para sempre. Hoje acredito ainda mais. As rugas tiram muita coisa mas nunca tiram o amor, se um dia tiveres dúvidas sobre o que realmente importa na vida pensa nisso e chegarás a uma conclusão. Se ficar algo de mim neste mundo será o amor que dei e recebi, nada mais.
Por vezes custa estar vivo. Muitas vezes parece que não há saída, que o que dói nunca vai parar de doer. Mas passa. Passa sempre. Fica um pedacinho que nos impede, aqui e ali, alguns movimentos. Mas o que nos bloqueia passa sempre. Haja uma mulher para amar e o mundo continua. A minha mulher é o que a vida me deu, e foi ela que me deu tudo o que a vida me deu.
Nunca lamentei as lágrimas que chorei, os acidentes que me fizeram recomeçar. O tempo serve para recomeçar, pouco mais. A mudança é o que me mantém vivo, tenho vindo a aprender. A cabeça já não é o que era, o corpo já não é o que era, deve ser a isso que chamam velhice, eu sei. Há um corpo que cai e nós cá por dentro sempre a levantar-nos, sempre mais altos. A idade eleva-nos tudo menos o corpo. Tudo cede menos o que amamos. O que profundamente amamos.
Amo profundamente quem me faz rir. O senhor das piadas da televisão, Deus o guarde, a senhora do talho e os seus palavrões que nem me atrevo a pensar, e os que amo. Amar é rir profundamente.
Já me amputaram de pessoas. A morte de quem faz parte do nosso mundo é um pedaço que se vai. Estou com muito menos do que aquilo que já tive mas ainda consigo andar. Viver é mais do que tudo conseguir arranjar membros suficientes para, por mais amputações que a vida nos traga, nos conseguirmos mexer.
Faltam-me poucos dias por aqui, isso é certo. Tento não os contar, passar por eles sem me lembrar do que falta. Acredito que ainda me vou cruzar com a euforia algumas vezes, por mais que as doenças apertem e a incapacidade triture. Sou uma máquina de luta contra a insuficiência. Agarro-me ao toque da minha mulher como se me agarrasse ao que me impede de morrer. E nunca morro.
No fundo, como te dizia no começo destas linhas que já vão longas (os velhos têm esta mania de falar demais, de contar demais, de saberem demais, mas ninguém quer saber dos velhos até que chega a velho e aí são os outros que não querem saber de quem não quer saber dos velhos, mas eu não me incomodo, a lei da vida é também a lei da morte, fiquei a saber há muito), quando leres estas palavras provavelmente já terei morrido. Mas tu não. Tenta fazer disso uma vantagem.
_________________
in "Prometo Perder", o novíssimo livro de Pedro Chagas Freitas.
Pode encontrar a obra nos locais habituais ou encomendar imediatamente o seu exemplar autografado aqui:
http://www.pedrochagasfreitas.com/livros/prometo-perder/
(imagem: Lee Jeffries)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Aromas e Sabores do Alentejo


AROMAS E SABORES DO ALENTEJO
(…) Como qualquer alentejano da minha geração, cresci num tempo em que a confecção dos alimentos tinha por base o lume de lenha, no chão da lareira, ou de carvão, na fornalha ali instalada, sem o suporte conserveiro da arca congeladora, sabiamente substituída pela salgadeira, numa tradição milenar, e sem frigorífico, obrigando as mulheres a cozinhar todos os dias. Foi um tempo em que a nossa cozinha, com a grande chaminé, era casa de entrada, de porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, e sala de todos os usos, em que a mesa de comer era a mesma em que também se faziam os trabalhos de casa, a mando do professor.
Dessa cozinha, para além do mobiliário rudimentar, do poial dos cântaros, do poço com água fresca e um tanto salobra, e de duas oleogravuras (uma do Lusitânia como Gago Coutinho e Sacadura Cabral, e outra da implantação da República) ficaram-me na memória os aromas e os sabores da culinária alentejana. A carne de porco, temperada de alho e pimentão, frita em banha, na sertã de barro, as sopas da panela com hortelã, a açorda de poejos, as sopas de cação envinagradas e a libertar o cheiro dos coentros, as sardinhas de barrica fritas no azeite e as torradas com toucinho cozido ou com azeite, açúcar e canela exalavam cheiros inconfundíveis e são lembranças de paladares inesquecíveis que, noutros escritos, já associei aos cantares dos homens que, muitas vezes, na taberna da vizinhança, aos fins de tarde de sábado, se abriam em coro polifónico e trocavam boa parte da magra féria por copos de vinho e petiscos para fazer boca, esquecendo aí e assim a “porca da vida”.
O pão que então se comia, por tradição e em quantidade, era de trigo ceifado nos nossos campos e tinha ciscos na base, trazidos do solo do forno de lenha, ciscos que era preciso raspar antes de ir à mesa. Era um pão muito diferente do que hoje se fabrica em fornos eléctricos ou a diesel, em grande parte, com trigo importado, sabe Deus se já geneticamente manipulado. O queijo de ovelha, em especial, o curado, amarelinho e a ressumar olhinhos de gordura, cortado em lasquinhas, à navalha, era conduto perfumado desse pão-nosso de todos os dias.
Do Inverno da minha infância e primeira adolescência guardo o cheiro da lareira, quer o do grande lenho de azinho que ardia, lenta e a fumegar, ao centro da chaminé, arrumado à “boneca”, quer o que vinha agarrado às farinheiras, linguiças e chouriços retirados das varas do fumeiro. Recordo o cheiro do café de mistura a exalar na cafeteira de barro e do som do chiar da brasinha que se metia lá dentro para fazer assentar a borra.
Coincidentes no essencial, todas as referências, e são muitas, à cozinha alentejana totalizam um elogio a uma comunidade muito particular, bem caracterizada, não só pelo valor cultural da sua gastronomia, como pela sua ligação à terra no trabalho e no lazer, com grande destaque para o seu cante, único na musicografia mundial e agora elevado à condição de Património Imaterial da Humanidade. (…)
(Prof. António Galopim de Carvalho)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A Vila de Alcáçovas em 1924



Mário do Rosário, a 18 de Maio de 1924 prometeu, no discurso de reabertura do Hospital da Misericórdia, oferecer a esta instituição uma monografia que compilasse elementos e notas sobre a história, tradições, belezas naturais, indústria e comércio de Alcáçovas. Meses depois da inauguração do hospital a promessa foi cumprida com a edição desta monografia.
A Vila de Alcáçovas, sua historia, suas belezas, seu comercio e sua industria, Mário Rosario
Lisboa, Sociedade Nacional de Tipografia, 1924
63 p.
Rosario, Mário do
249
252, BDA - 01(2.11)MR01_B 11363
BPE - B 11363


Vale a pena consultar para ficarmos a saber o que se passava na Vila de Alcáçovas em 1924.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Mãos que bordaram o tempo.










Mãos que Bordaram o Tempo
Livro editado pela Associação dos Amigos das Alcáçovas em homenagem ás Bordadeiras de Alcáçovas.
Fotos tiradas por Maria de Fátima Silva Maia durante a Quinzena Cultural de Alcáçovas 2012.
Esta exposição consistiu em mostrar peças bordadas particulares, muitas delas com mais de cem anos. Em 2012, foi feito um enorme esforço da  parte da nossa Associação para as reunir e as mostrar.
Depois desta exposição, as peças voltaram para os seus legítimos proprietários...
Com Textos, Investigação e Coordenação a cargo de Maria da Encarnação Fernandes, Maria Amélia Rosado e André Rafael Correia.
Á venda na sede da Associação dos Amigos das Alcáçovas, no Posto de Correios de Alcáçovas e na Pastelaria "Sabores d'avó", em Alcáçovas
Pedidos por internet: pacmen64@sapo.pt

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Napoleão Mira e Reflect - 12 Canções Faladas


Um homem que edite o primeiro trabalho discográfico, em nome próprio, aos 60 anos, é louco. Se não é louco, então algo de surreal aconteceu.
Julgo que o resultado destas 12 Canções tem um pouco das duas hipóteses.
Quando o Pedro Pinto — também conhecido por Reflect — me contactou para gravar o poema “Foi Chuva” da malograda Carolina Tendon, estava muito longe de imaginar que o resultado desaguaria no registo que agora tem nas suas mãos.
Nessa noite fria em que fui registar a voz desse texto invernil, levei comigo um outro: “Máscaras de Orfeu”.
Pedi-lhe que mo deixasse gravar para ver como saía. Quando terminei, o Pedro e os restantes elementos da banda saíram da régie com cara de caso. Perguntaram-me se tinha mais material daquele calibre. Respondi-lhes que sim e, logo ali, lhes lancei o repto de musicarem o tema em questão.
Uma semana volvida, fui convidado a regressar ao estúdio para aquilatar do resultado. Estava perfeito.
A partir daí, regressei uma vez e outra à Kimahera. Ensaiámos, gravámos e musicámos outros temas, até chegarmos à conclusão que não devíamos guardar o resultado dessas madrugadas de criação só para nós.
Dessas noites de insónia nasceu a performance de spoken word: 12 Canções Faladas e 1 Poema Desesperado.
O abrupto desaparecimento da Carolina foi um choque. Um choque terrível e brutal. Porém gosto de pensar que, lá das planícies eternas onde agora habita, terá o poder de mexer uns cordelinhos, de alinhar uns quantos astros, de modo a que levemos a nossa — e a sua! — poesia aos corações de quem na quiser escutar. Quero acreditar que foste o clique, o tal fio condutor que resultou nesta feliz parceria.
Obrigado, Carolina!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Guia de Campo: Orquídeas Silvestres



Pois é ..... cá está !!!
Agora já não há desculpas para não conseguirmos identificar as Orquídeas Silvestres que abundam aqui pelo Alentejo...
A dimensão física é de um A5 ( 15cm x 21 cm ), como guia de campo, tinha que ser com argolas, mesmo para isso abrir, dobrar, etc . . . .


Livro da autoria do nosso compadre Ivo Rodrigues, excelente guia local na Serra da Adiça (Vila Verde de Ficalho).