terça-feira, 20 de agosto de 2024

Pôr do Sol em Monsaraz...











                           Foto reportagem: Caminhada Noturna em Monsaraz ( 17AGO24 )

Organização: Grupo Monsaraz a Caminhar.

Fotos : José Grilo.



segunda-feira, 19 de agosto de 2024

sábado, 17 de agosto de 2024

Tomatadas








 Crónicas do Vale Machoso (II Temporada - IX Capítulo)

O Vale Machoso em prol das variedades regionais
O Vale Machoso desenvolve a sua atividade hortícola, focado em objetivos que extravasam o mero consumo ou complemento da economia familiar. Em larga medida, complementa estes dois objetivos com a salvaguarda das nossas variedades regionais, aquelas que chegavam à mesa dos nossos antepassados, providas de odores e sabores amplamente diferenciados.
A prática de selecionar e guardar as próprias sementes desenraizou-se do seio da horticultura familiar, sendo substituída pelo recurso ao mercado, o qual impõe ao hortelão variedades maioritariamente importadas e limitadas na sua diversidade.
Questiono se, eventualmente já constataram que adquirem sempre as mesmas variedades ao longo do ano, limitadas a duas ou três em cada cultivar, quando não se trata apenas de uma só. Sempre a mesma variedade, as mesmas características, o mesmo sabor.
As variedades regionais, presentemente enfrentam um processo de extinção em massa, estimando-se que 75% da biodiversidade hortícola esteja extinta. É contra este descalabro que o Vale Machoso de insurge, peremptoriamente rejeitando a ditadura do mercado, recolhendo e replicando as nossas variedades regionais. Para o efeito constituiu o seu próprio banco de sementes, onde deposita as variedades angariadas nesta região. Trabalho que não se afigura fácil, pois trata-se de um tesouro vivo que requer manutenção e salvaguarda permanente, atendendo ao facto da capacidade germinativa das sementes ser limitada no tempo.
Hoje apresento-vos a "Tomata". Variedade regional de grandes dimensões e dotada de sabor peculiar, próprio e característico da sua essência. Entre outros atributos, possuí a faculdade de nos fazer regredir no tempo, aquele em que as hortícolas que chegavam à mesa eram providos das hortas dos nossos pais ou avós. Encontra-se afeta ao acervo do banco de sementes do Vale Machoso e, como não poderia deixar de o ser, os melhores exemplares são excluídos do consumo e destinados à recolha de sementes. Foram três baldes numa manhã, um de tomatas e outros dois de xuxas, pois apesar de tudo e da clara opção pelas variedades regionais o Vale Machoso não é fundamentalista, estando aberto à introdução de novas variedades.
As recolecção prossegue a grande ritmo, superando em larga escala as necessidades de consumo. Todavia, a questão excedentária encontra-se em fase de resolução, pois o Vale Machoso dentro em breve irá inaugurar o seu galinheiro em modo de produção biológico, o qual será gerido em perfeita consonância com a sua horta.
Este é o Vale Machoso, a horta que procura ir além daquele que é o seu próprio espaço físico, pois parar é desistir. Porém, interiorizem irmãos meus, desistir é manifestamente impossível!!!

Texto e fotos da autoria do nosso compadre Rui Delgado.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Osgas...


 “O verão é sinónimo de Osgas! Os afortunados que possam rumar um pouco mais a sul durante as férias, vão certamente encontrar pelo menos uma destas duas espécies a passearem-se pelas paredes das casas e jardins durante as noites quentes do Alentejo ou do Algarve. Com alguma sorte (como eu tive ontem à noite) poderão até encontrar as duas espécies a partilharem o mesmo espaço. Falemos pois de Osgas!


Em Portugal continental ocorrem duas espécies de Osgas: a Osga-comum (Tarentola mauritanica) e a Osga-turca (Hemidactylus turcicus). A primeira encontra-se por praticamente todo o país, enquanto a segunda ocorre apenas pelas zonas mais a sul (principalmente Alentejo e Algarve, mas podendo ser por vezes vistas por Lisboa e pelo vale do Tejo).

Embora parecidas no seu aspeto geral, há várias diferenças que rapidamente permitem a sua distinção. A diferença que mais salta à vista é o tamanho - a Osga-comum é consideravelmente maior e mais robusta que a Osga-turca. As cores, embora ligeiramente variáveis, são também uma boa forma de as distinguir. Enquanto a Osga-comum geralmente apresenta uma colaração que varia de um bege acastanhado, a um castanho mais forte, com ou sem bandas mais escuras no decorrer do dorso, a Osga-turca é mais rosada, com laivos de amarelos e pontos castanhos aqui e acolá. Devido a terem uma pele composta por escamas muito finas, em contra-luz é quase possivel ver o interior das Osgas-turcas, o que leva ao arrepio de muito gente e à ideia de serem quase transparentes!

Outra diferença bem visível é o tipo e arranjo das escamas. A Osga-comum têm uma aparência que nos remete para a imagem de um dinossauro - espinhosa e com uma armadura, enquanto que a Osga-turca apresenta escamas muito menos espinhosas e marcadas. Olhando com mais atenção, as escamas dorsais da Osga-comum estão organizadas numa matriz em bandas - numa base de escamas pequenas surgem escamas de grandes dimensões, ovoides mas com uma quilha marcada no centro. Já a Osga-turca apresenta escamas mais arredondadas, com uma quilha muito menos marcada. As escamas desta ultíma também não se apresentam tão organizadas em bandas, o que leva a que o animal tenha um aspecto muito menos "espinhoso"!

Uma ultíma diferença visível a olho nú é a presença de garras nos dedos. Os dedos da Osga-comum, no geral mais espalmados e arredondados, apenas apresentam garras em dois dedos, enquanto que se olharmos para os dedos das Osga-turcas, todos os dedos apresentam uma garra.

Mas saltando das diferenças para as semelhanças, há duas características partilhadas por estas duas espécies - a sua utilidade ao ser humano e a injusta má fama que têm! As Osgas são animais que se alimentam principalmente de insectos e outros invertebrados - como moscas, mosquitos ou aranhas. Uma Osga na parede da nossa casa funciona como um autentico insecticida natural - evitando as noites mal dormidas pelo incomodativo e irritante 'zzzzzzz' das melgas nos nossos ouvidos, ou a comichão das babas causadas pela picada dos mosquitos.

Apesar deste serviço gratuito, o ser humano, na sua habitual ingratidão para com o mundo natural, decidiu inventar vários boatos, histórias e conspirações que pintam este inocentes e uteís animais como perigosos monstros. Emboram os detalhes variem dependendo de que as conta (quem conta um conto... acrescenta um ponto!), todas estas histórias andam à volta do tema de um suposto veneno ou de serem causadoras de doenças de pele.

Sobre o veneno, conta-se que 'um dia' uma osga terá caído no leite/café/chá/sopa de alguém 'lá da terra/vila/aldeia'. Assegura quem conta, que as incautas vítimas, não se apercebendo da presença da osga, beberam o dito caldo, adoencendo gravemente (ou, dependendo do grau de exagero - morreram!). A outra história envolve o contacto direto ou indireto da osga com a pele do afligido. Conta-se neste caso, que fulano dormia de tronco nú (nunca fulana, que fulanas não dormem cá nesses despreparos) e lhe caíu uma Osga em cima enquanto dormia. Rapidamente se formaria na pele do pobre desgraçado um 'cobro' - uma mítica doença de pele de muito má fama, e que, dizem, causa grandes males, podendo até conduzir à morte. A outra história de infeção por cobro, afirma que alguém, e neste caso uma senhora, vestiu algo por onde tinha passado uma osga, apanhando também o temível cobro.

Como todos os mitos urbanos e historietas do folclore, toda a gente já os ouviu, e toda a gente assegura que conheceu alguém que conheceu alguém a que tal aconteceu. Mas nunca aconteceu ao próprio, nem a ninguém que a pessoa conheça diretamente. Em boa verdade, não há qualquer razão para que isto acontecesse. As Osgas não possuem qualquer tipo de veneno nem transmitem absolutamente nenhuma doença de pele. São da grande diversidade de animais deste planeta, uns dos mais inofensivos para os seres humanos!

Mas de onde surgem então estes mitos e porque são tão prevalente em Portugal? A resposta, podendo parecer meio inusitada, é bastante simples: são uma herança cultural árabe. Tal como em muitas outras partes da nossa cultura - da gastronomia à arquitectura, aos hábitos e à lingua - a presença Árabe na Península Ibérica deixou marcas profundas e que definiram (e ainda definem) o nosso modo de vida. No que toca aos mitos das Osgas, é de notar que as mesmas histórias que contei acima, são contadas por todo o mundo Árabe, e que no Corão, o Diabo aparece a Maomé sob a forma de Osga. A jeito de confirmação desta teoria, basta ver que o diz o Dicionário dos Arabismos na língua Portuguesa, publicada há algumas décadas pela Academia de Ciências de Lisboa - o próprio nome 'Osga' é um Arabismo, uma adaptação da palavra 'Wazzagah', usada no árabe para estes animais.

Assim sendo, quando nos próximos dias virem estes animais nas vossas paredes, apreciem-nos sem medo. Estão perante uma maravilha da natureza!

Luis Ceríaco, 17 de Julho, algures entre o Alentejo e o Algarve 🦎🇵🇹